Sobre a competitividade das exportações gaúchas

A FEE está desenvolvendo um trabalho visando mensurar a competitividade das exportações do RS nesse início do século XXI. Para tanto, foram selecionados os 50 produtos mais importantes da pauta exportadora gaúcha entre 2001 e 2010, que representaram, nesse período, em dólares correntes, cerca de 85% do total das vendas do Estado ao resto do mundo. Desses produtos, foi calculada a taxa média anual de crescimento — entre o início e o fim do período — em níveis regional (RS), nacional e mundial, para determinar os ganhos ou as perdas de participação dos produtos estaduais nas exportações mundiais e brasileiras.

Pois bem, quando se colocam frente a frente o crescimento das exportações gaúchas e o das mundiais para esses 50 produtos, percebe-se que 34 deles tiveram aumento superior ao das exportações mundiais, evidenciando que, no caso desses bens, o Estado aumentou a sua participação no mercado internacional. Destacam-se aqui as vendas externas de tabaco, carnes (de frango, suína e bovina), couros preparados, polímeros, farelo e óleo de soja, óleos de petróleo, além de produtos da indústria metal-mecânica (tratores, carrocerias, partes de veículos, reboques e semirreboques, bem como outras máquinas para a colheita ou debulha de produtos agrícolas). Por seu turno, dentre os produtos gaúchos que cresceram menos que as exportações mundiais, ou seja, que perderam representatividade no comércio internacional, ressaltam- -se calçados (principalmente os de couro natural, mas também os de borracha ou plástico), soja em grão, móveis, borracha sintética, ônibus, motores diesel e semidiesel e aparelhos de ar condicionado.

Quando se comparam as exportações gaúchas desses 50 produtos com seus congêneres nacionais, percebe-se uma redução na performance do RS: o Estado ganhou participação em apenas 24 deles, dentre os quais, cabe destacar farelo de soja, carne suína, óleos de petróleo, móveis (embora, nesses, as taxas médias de crescimento nacional e gaúcha sejam praticamente iguais), partes de veículos, carrocerias e preparações de carne. Por outro lado, nos 26 produtos em que o Estado perdeu representatividade nas exportações brasileiras, estão os mais importantes de sua pauta, a saber, o tabaco, a soja em grão, os calçados e a carne de frango. Além desses, cabe também realçar a perda de participação nas exportações de polímeros (de etileno e de propileno), óleo de soja, tratores, couros preparados, máquinas para a colheita e debulha de produtos agrícolas e celulose.

No referido estudo, classificaram-se, ainda, as principais exportações do Estado em quatro grupos: o de produtos agropecuários (tabaco, soja e derivados, além de carnes e suas preparações), o de intensivos em trabalho (calçados, couros e móveis), o de derivados do petróleo (óleos de petróleo, hidrocarbonetos e polímeros) e o de oriundos da indústria metal-mecânica (veículos e suas partes e máquinas e aparelhos agrícolas). Com base nessa classificação, é possível enumerar algumas dificuldades por que passa o setor externo do Estado, além dos tradicionais problemas de câmbio, impostos, juros e infraestrutura.

O RS beneficiou-se do aumento generalizado dos preços dos produtos agropecuários na última década, mas não tanto quanto outros estados brasileiros. Basicamente, porque a expansão produtiva gaúcha ficou limitada ao aumento da produtividade e à substituição de culturas, uma vez que sua fronteira agrícola está esgotada. Assim, à medida que a região dos Cerrados foi encontrando alternativas para o escoamento de sua produção, a participação estadual foi declinando nas exportações nacionais. Lá, não só a expansão da agropecuária está mais facilitada em função da disponibilidade de terras, como também as plantas dos abatedouros são mais modernas, o que prejudica a competitividade da produção sulina.

Quanto aos produtos intensivos em trabalho, observa-se que as exportações de calçados no Estado caíram dramaticamente e, no Brasil, um pouco menos, devido à inserção no mercado externo da produção dos estados da Região Nordeste. Já a de móveis perdeu participação internacional pari passu à exportação brasileira. O Estado apenas conseguiu um desempenho satisfatório nas vendas de couro, onde mostrou uma tendência de substituição dos curtidos ou crust pelos preparados, estes de maior valor agregado.

O crescimento dos produtos derivados do petróleo deve ser relativizado, porque dificilmente será sustentado no patamar apresentado, uma vez que é fruto de uma base de comparação baixa (2001) e da ampliação da Refinaria Alberto Pasqualini, iniciada justamente em 2001 e finalizada em 2006.

Já os produtos da indústria metal-mecânica apresentaram um comportamento diverso. Enquanto aqueles voltados para a agricultura tiveram um crescimento expressivo, sobretudo na América Latina, as exportações de carrocerias e, principalmente, de ônibus foram afetadas pela internacionalização da Marcopolo no período. Ainda em relação a máquinas e aparelhos agrícolas (incluindo tratores), deve ser mencionado que, nos últimos anos, a Argentina, principal mercado do RS, vem tomando medidas para internalizar a produção desses bens. Se isso efetivamente acontecer, será um duro golpe nesse comércio.

Assim, a se confirmarem as tendências que o conjunto desses 50 principais produtos parece delinear, a “vocação exportadora do RS” deverá enfrentar forte turbulência ao longo dos próximos anos.

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