Perspectivas para a agricultura gaúcha em 2017

A importância da agricultura para o desempenho da economia gaúcha é amplamente reconhecida. Há quatro safras, a produção de grãos no RS mantém-se em patamares historicamente elevados, apesar da ocorrência de adversidades climáticas localizadas. No momento em que se inicia a colheita do trigo e avança o plantio das principais culturas temporárias de verão, intensificam-se os questionamentos acerca da dimensão e da rentabilidade da próxima safra no Estado (2016/17).

Em termos mundiais, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projeta que o próximo ano comercial será marcado por um crescimento da oferta de grãos superior ao da demanda. Além da soja, principal produto agrícola do RS, há expectativa de elevação nos estoques mundiais de milho, arroz e trigo. Atualmente, as safras norte-americanas de soja e milho estão em fase final de colheita, e as estimativas apontam recordes de produção (116 e 382 milhões de toneladas respectivamente, segundo o USDA). Até o momento, o esperado crescimento da produção e dos estoques mundiais não gerou quedas expressivas nos preços da soja, no mercado futuro.

Algumas características do mercado da soja podem ser destacadas para explicar essa sustentação dos preços. Nos Estados Unidos, a infraestrutura de armazenagem e transporte permite um melhor planejamento das estratégias de comercialização. Isso implica dizer que a decisão de venda se subordina mais às percepções de mercado dos agentes (oportunidades de negócios) do que às condições logísticas (restrições de infraestrutura). Outro aspecto a se destacar é que a safra sul-americana ainda não está “precificada” pelo mercado, pois se encontra em fase de plantio. Não obstante também se espere um recorde de produção na América do Sul, alguns meses separam a previsão do início da colheita nos países sul-americanos (janeiro de 2017). Nesse intervalo, o risco climático permanece, o que constitui fonte de incerteza para os preços. Quanto mais provável se tornar a confirmação de uma supersafra mundial de soja, maiores serão as pressões para a queda dos preços futuros e vice-versa. Esses são fatores elementares para a formação do preço recebido pelos sojicultores gaúchos na próxima safra, que também dependerá da taxa de câmbio e das condições de demanda.

Os fundamentos que sustentam o crescimento da demanda externa da soja são mais concretos e sujeitos a um grau menor de imprevisibilidade. A expectativa do USDA é de que as importações mundiais continuem crescendo (3,5%). Mesmo com a desaceleração econômica, a demanda chinesa pela soja continua grande em função da necessidade de converter uma quantidade crescente de proteína vegetal em proteína animal para atender a uma população com hábitos mais urbanos.

Em se tratando da próxima safra no RS, a Emater-RS e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) foram as primeiras instituições a divulgar estimativas de produção e área plantada para os principais grãos de verão (soja, arroz, milho e feijão). Apesar das diferenças metodológicas e da grandeza dos números, as projeções convergem para um cenário de menor expansão e/ou estabilidade da área plantada de soja e de ampliação do cultivo de milho e de arroz (ver tabela). A expansão da área de milho deve ocorrer principalmente em substituição a áreas de soja na mesorregião Noroeste. Talvez a principal explicação para esse movimento, não observado há quatro safras, seja a lembrança de preços altamente remuneradores aos produtores de milho no primeiro semestre de 2016. Contudo, é pouco provável que em 2017 se repita um quadro similar ao observado no último ano. Com a confirmação da supersafra norte-americana e a recomposição dos estoques mundiais, tende a haver menor pressão externa para a aquisição da primeira safra brasileira de milho. Além disso, o fim das retenciones argentinas à exportação de milho tornou o produto do país vizinho uma alternativa mais barata de abastecimento em momentos de restrição temporária da oferta. A Emater-RS e a Conab também convergem ao projetar uma redução da produtividade das culturas da soja, do milho e do feijão e uma alta na do arroz. No entanto, não há sintonia na determinação da variação da produção de milho.

É importante ressalvar que nesse momento qualquer estimativa de produtividade e produção agrícola está sujeita a uma ampla margem de erro, dados o estágio inicial do ciclo produtivo das culturas analisadas e o risco climático envolvido. Apesar do crescimento relativo dos últimos anos, a área irrigada de grãos de sequeiro no Rio Grande do Sul ainda é pequena, o que torna o desenvolvimento dessas culturas extremamente vulnerável à falta de chuvas por períodos prolongados. Os efeitos das estiagens de 2004/05 e 2011/12 na produtividade agrícola e suas repercussões econômicas são provas disso e permanecem na memória dos gaúchos. Isso evidencia a necessidade de incentivo à redução dos riscos inerentes à atividade agropecuária por meio da irrigação, da adoção de práticas conservacionistas ou da melhoria dos instrumentos financeiros de proteção à renda agrícola.

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Como citar:

FEIX, Rodrigo Daniel. Perspectivas para a agricultura gaúcha em 2017 Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/perspectivas-para-a-agricultura-gaucha-em-2017/>. Acesso em: 23 de agosto de 2017.

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