Perspectivas econômicas para o Rio Grande do Sul em 2017

Diversas evidências sugerem que a dinâmica de crescimento das economias subnacionais está intrinsecamente ligada à trajetória de crescimento da economia nacional. A experiência recente brasileira indica, ainda, que canais alternativos de crescimento, como ganhos potenciais do comércio exterior induzidos pela depreciação cambial, têm alcance limitado, mesmo em estados tipicamente exportadores. Essa relativa ausência de um protagonismo isolado dos entes federados, no entanto, não impede que suas singularidades econômicas o diferenciem da média de crescimento nacional em alguns aspectos. Isso ocorre, primeiro, porque há significativa heterogeneidade na matriz produtiva dos estados, o que torna suas economias sensíveis a movimentos cíclicos dos segmentos que são mais representativos dentro de seu tecido produtivo. Segundo, porque fatores como posição geográfica e grau de diversificação inter e intrassetorial afetam tanto a probabilidade de ocorrência quanto a magnitude do impacto de choques adversos, como eventos de estiagens.

O caso do Rio Grande do Sul ilustra bem esse risco idiossincrático derivado da exposição a eventos de natureza climática. Esses fenômenos são geralmente associados à escassez de chuvas em períodos e regiões geográficas específicos (principalmente de dezembro a fevereiro e nas regiões norte e noroeste do Estado), que fazem com que o crescimento da economia gaúcha destoe temporariamente da nacional. Para 2017, existe uma preocupação crescente entre meteorologistas com a possível ocorrência do fenômeno La Niña, que costuma provocar verões secos e com chuvas irregulares no sudeste da América do Sul, área geográfica que abrange o RS. As informações mais recentes do Serviço de Meteorologia dos Estados Unidos (National Weather Service) indicam uma probabilidade em torno de 70% de ocorrência de La Niña durante a atual primavera do hemisfério sul, com probabilidade em torno de 55% de persistir durante o verão. Diagnóstico semelhante é trazido pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), através de seu Boletim Climático para o Rio Grande do Sul, referente a set./16: há previsão de “precipitações pouco abaixo do padrão” em todo o Estado do RS entre outubro e dezembro de 2016, horizonte de previsão coberto pelo relatório. Obviamente, se confirmada, as consequências da irregularidade de chuvas sobre a economia do RS dependerão tanto da intensidade com que o fenômeno ocorrerá quanto das regiões mais atingidas pela anomalia negativa de precipitação.

A possibilidade de ocorrência de um evento dessa natureza não tem afetado os primeiros indicativos para a safra de verão de 2017 no RS. As estimativas iniciais de área e produção da safra de verão 2016/17, divulgadas recentemente pela Emater-RS, preveem um crescimento de 2,2% na produção total de grãos, com destaque para o milho, cujo aumento recente no preço relativo possibilitou um incentivo para os agricultores aumentarem a área plantada.  A despeito de preocupações relacionadas à oferta de crédito e à capitalização dos produtores, os últimos dados divulgados pela Associação Nacional Para Difusão de Adubos (Anda) confirmam essa tendência e indicam um aumento de 6,3% na venda de fertilizantes no 3.º trim./16, em comparação com o mesmo período do ano anterior. A decomposição sazonal dessa variável revela que a demanda por esse insumo possui expressivo aumento médio entre os meses de agosto e outubro, período que antecede o plantio dos principais produtos da lavoura temporária do RS. Esse aumento observado na demanda por insumos deve favorecer, em condições normais, tanto a produção quanto a produtividade das culturas de verão em 2017.

Além do setor agropecuário e seus riscos inerentes, outras especificidades produtivas podem afetar o desempenho da economia gaúcha no próximo ano. O setor industrial do RS, por exemplo, possui características bem peculiares. Destaca-se, na divisão pela categoria econômica dos bens industrializados, a relevância local da indústria de bens de capital, apontada por estudos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) e Bradesco como a 2.ª maior do Brasil, atrás apenas do Estado de São Paulo. Os dados mais recentes de produção industrial, divulgados pela Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (ago./16), mostram melhora pontual nesse segmento, com destaque para o crescimento, na margem, da produção de bens de capital para uso agrícola, especialmente máquinas para colheita, silos metálicos para cereais e tratores agrícolas. Essa melhora, se consolidada nas próximas divulgações da PIM, pode marcar uma retomada na produção industrial do RS, bastante deteriorada pela queda acentuada na taxa de investimento brasileira — cerca de 89% da formação bruta de capital fixo nacional é composta pelos setores de construção (51,1%) e de bens de capital (37,9%), conforme dados do Sistema de Contas Nacionais referentes ao ano de 2013. Vale lembrar que a formação bruta de capital fixo no Brasil começou a apresentar taxas negativas ainda no quarto trimestre de 2013, antes mesmo do início da atual recessão econômica brasileira, iniciada no 2º trimestre de 2014. Como resultado disso, os bens de capital e os bens de consumo duráveis foram as categorias econômicas de bens industriais que apresentaram contração mais severa durante esse período, afetando com maior intensidade, devido as suas estruturas produtivas industriais, estados como, por exemplo, Rio Grande do Sul, São Paulo e Amazonas. Uma eventual retomada da formação bruta de capital fixo em 2017 tende, portanto, a beneficiar a produção industrial gaúcha mais que proporcionalmente, dada a sua especialização produtiva no setor de bens de capital.

Em resumo, ainda que o cenário econômico nacional para o próximo ano permaneça desafiador em diversos aspectos, os indicadores antecedentes da safra de verão e as singularidades da economia gaúcha sugerem que a economia local terá desempenho relativamente favorável no ano de 2017. Esse prognóstico, no entanto, é contingente a dois fatores principais: condições climáticas favoráveis — ameaçadas pela formação, mesmo que em intensidade moderada, do fenômeno La Niña — e recuperação do investimento agregado nacional, cujo efeito sobre a indústria do RS seria potencializado pela sua relativa especialização local na produção de bens de capital, com destaque para aqueles destinados ao setor agropecuário.

Como citar:

COLOMBO, Jéfferson Augusto. Perspectivas econômicas para o Rio Grande do Sul em 2017 Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/perspectivas-economicas-para-o-rio-grande-do-sul-em-2017/>. Acesso em: 11 de dezembro de 2017.

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