Perspectivas da indústria calçadista do RS em 2015

O ambiente recessivo que se desenha para 2015 deverá acrescentar novos ingredientes ao comportamento já desfavorável dos indicadores de emprego, produção e exportação das indústrias calçadistas brasileira e gaúcha nos últimos anos. Os níveis de emprego formal do setor, conforme dados do Ministério do Trabalho — Relação Anual de Informações/Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (RAIS/Caged) —, vem decrescendo ano a ano, atingindo, entre 2010 e 2014, uma perda de 39.668 postos de trabalho no Brasil (redução de 11,38%) e de 16.601 no Rio Grande do Sul (redução de 13,60%). A produção industrial física medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — Pesquisa Industrial Mensal de Produção Física (PIM-PF) — aponta desempenhos negativos na maior parte do período analisado, com frequência mais acentuada em termos regionais. O valor das exportações também se mostra decrescente, tanto no Brasil como no RS, embora venha mantendo certa estabilidade nos últimos três anos.

As dificuldades impostas às indústrias calçadistas nacional e regional iniciaram nos anos 90, quando as exportações de sapatos da China começaram a crescer e a retirar fabricantes brasileiros de mercados externos tradicionais, passando, também, a ocupar parcelas crescentes do mercado doméstico. Contudo estratégias adotadas pelas empresas, tais como prospecção de novos mercados, aumento do valor agregado do produto, diversificação dos canais de comercialização, aumento das vendas no mercado doméstico e deslocamento de plantas para a Região Nordeste contribuíram para amenizar os efeitos nocivos do ambiente de incertezas e de acirramento da concorrência.

De 2000 a 2014, a indústria calçadista consolidou a presença de novos polos produtores no País, diversificou substancialmente os seus mercados e passou a exportar calçados em uma faixa de preço mais elevada. O calçado gaúcho, em especial, teve o seu preço médio de exportação elevado de US$ 10,00 para US$ 25,00 o par no período. As exportações, contudo, começaram a decrescer após a crise de 2008, que afetou os grandes mercados compradores. A partir de 2010, o Governo vem contribuindo com medidas como a desoneração tributária e ações “antidumping”, com o objetivo de melhorar a competitividade dessa indústria.

Em 2015, a necessidade de ajustes na economia brasileira, mediante a elevação da taxa de juros e do custo da energia elétrica e a retirada e/ou diminuição de incentivos fiscais, associada ao enfraquecimento da demanda interna, deve afetar a dinâmica da indústria calçadista. A desvalorização do real, que, de um lado, eleva a competitividade dos calçados no mercado internacional e, de outro, inibe a importação de calçados e de componentes, afetando positivamente a concorrência no mercado interno, deverá ter seus benefícios diminuídos frente aos aumentos de custos que se anunciam. Destacam-se nesse aspecto: a redução do benefício fiscal de desoneração da folha de pagamentos das empresas calçadistas (aumento da contribuição de 1% para 2,5% sobre a receita bruta das empresas no mercado interno); e a redução de 3% para 1% do percentual sobre a receita das exportações para o ressarcimento de tributos federais como o Programa de Integração Social (PIS) e a Contribuição Para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) — Programa Reintegra.

A exportação de calçados ainda é expressiva no Rio Grande do Sul, embora sua evolução venha sendo bastante afetada pela queda das vendas externas para a Argentina e pela diminuição das exportações de calçados de couro, de preço médio mais elevado, em razão do longo período de câmbio valorizado. Assim, em se mantendo a atual fase de valorização do dólar, a expectativa das exportações para 2015 mostra-se mais favorável, embora os valores para os primeiros meses ainda não indiquem isso. Os resultados positivos aparecerão à medida que forem sendo contabilizadas as negociações fechadas nas grandes feiras nacionais e internacionais ocorridas nos últimos meses de 2014. Além disso, destaca-se a recuperação econômica de mercados importantes, como Estados Unidos e países da União Europeia, em especial Alemanha e França.

Quanto à recuperação dos níveis de emprego e de produção física, efeitos mais duradouros somente poderão ser viabilizados com o retorno do crescimento mais sustentado das demandas interna e externa.

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