Os inesperados resultados da safra 2006/2007

Conhecida a situação predominante no setor produtor de grãos, no momento em que se processava o plantio da safra de verão, em 2006, não deixa de surpreender o volume previsto das colheitas a ele associado, pois como se poderia produzir uma supersafra — estimada em mais de 130 milhões de toneladas — em meio à crise econômico-financeira em que se achavam mergulhados alguns de seus mais importantes segmentos?

Afinal, as desfavoráveis relações de troca da agricultura, junto com o endividamento dos produtores, apontavam queda de rentabilidade e insolvência da atividade, quadro adverso ao qual se somava a ocorrência de fatores extra-econômicos negativos (severas variações climáticas recentes e incidência de pragas na lavoura). Além dessas dificuldades conjunturais, os produtores tiveram que lidar com uma deficiência acumulada na infra-estrutura doméstica de circulação das mercadorias que afetaria mais intensamente as áreas novas da agricultura (cerrados do centro e do norte do Brasil).

A crise encontrava-se claramente manifesta na evolução da área plantada com grãos (arroz, milho, feijão, soja e trigo), desde a safra 2004/2005, em âmbito nacional: redução de mais de três milhões de hectares até a de 2006/2007, em um contexto de elasticidade de terras cultiváveis e de condições favoráveis no mercado de commodities. É importante observar que ela atingia desigualmente os vários segmentos da agropecuária, incidindo pesadamente sobre seu setor graneleiro.

A simples manutenção do piso da produção, isto é, da atividade corrente, deveu-se, inquestionavelmente, à intervenção do Governo, ao aceitar, ao término da colheita da safra de2005 (maio de 2006), renegociar os débitos dos agricultores junto ao sistema financeiro público e privado, lançando-os para a frente e em condições favoráveis. Intervenções governamentais nesse sentido costumam acontecer em períodos críticos para a agricultura e justificam-se pelo papel estratégico que o setor desempenha para os resultados do comércio exterior. De qualquer forma, poder-se-ia até associar a renegociação dos débitos a um “quase-subsídio”, a um subsídio encoberto, a uma política compensatória setorial.

Dados esses antecedentes, e conhecendo-se, por outro lado, o incremento da produtividade física da lavoura, a anunciada supersafra de grãos é explicada por fatores extra-econômicos, no caso, pela benignidade do clima.

O efeito combinado do aumento expressivo da produtividade física da terra e da recuperação dos preços recebidos pelos produtores a partir de meados do ano passado (que se encontravam em declínio, pelo menos desde janeiro de 2004) permite esperar um incremento expressivo da receita bruta do segmento produtor dos grãos. No Rio Grande do Sul, poder-se-ia estimar um aumento de receita dos principais grãos produzidos da ordem de 17,6%, a ser creditado ao comportamento da produtividade e dos preços nas lavouras de soja e milho. Tal crescimento equivaleria a mais de R$ 1,3 bilhão. Em termos de volume produzido, a safra atual poderá alcançar o patamar da extraordinária colheita de 2003 (22.235.994 toneladas) e, assim, vir a constituir-se na segunda supersafra deste século. Contudo seu faturamento poderá ser inferior ao da safra 2003/ /2004, diferença explicada pelos preços muito favoráveis recebidos pelos agricultores naquela conjuntura de mercado.

Os inesperados resultados da safra 20062007

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