Os bancos centrais frente à crise

Como havíamos alertado na Carta de Conjuntura de jun./05, o estouro da bolha imobiliária norte-americana encaminhou aquele país inexoravelmente para a recessão no primeiro semestre de 2008. A crise imobiliária transmutou-se, desde seu início, em crise financeira e solapou o consumo e o investimento nos Estados Unidos. Cerca da metade dos US$ 232 bilhões de prejuízo já confirmados pelos bancos comerciais e de investimento até 1° de abril pertence a instituições financeiras originárias da Europa, da Ásia e da Oceania, o que confere um caráter geográfico global a essa crise.

Da perspectiva dos bancos centrais, esses eventos configuram uma dupla ameaça. A primeira, de ordem financeira, diz respeito à intrincada teia de contratos e às elevadas apostas alavancadas, reali-zadas por instituições financeiras bancárias e não bancárias, as quais têm de ser desmontadas às pressas, em um processo com elevado grau de risco para todo o sistema financeiro. A segunda concerne ao próprio crescimento e à possibilidade de uma recessão prolongada e profunda, a qual, por sua vez, dificultaria a própria recuperação do sistema financeiro, desencadeando, potencialmente, um ciclo vicioso.

A resposta dos bancos centrais dos países desenvolvidos a esse desafio tem sido vigorosa, embora desigual. Ela envolve três elementos principais: o afrouxamento da política monetária, a ampliação de acesso ao redesconto, a partir da aceitação de títulos não corriqueiros como colaterais, e a extensão da possibilidade de instituições que não se encontram diretamente sob a guarda dos bancos centrais tomarem
empréstimos. Seus resultados, se não eliminaram o avanço progressivo da crise, ao menos impediram o total colapso do sistema financeiro, especialmente em março deste ano, quando do resgate do banco de investimentos Bear Stearns.

Por sua vez, a importância sistêmica e a atuação arriscada das instituições financeiras não bancárias têm levado o Federal Reserve (Fed) a estender seu papel de emprestador a essas instituições.

Até o momento, o Fed já trocou cerca de US$ 450 bilhões em ativos seguros por títulos que, nas atuais condições do mercado, não possuem praticamente qualquer valor. O gráfico mostra que todas as
políticas monetárias foram revistas com a eclosão da crise.

Já o Banco Central do Brasil (Bacen), em movimento dissonante face ao conjunto das economias desenvolvidas, paralisou suas reduções nos juros imediatamente após o início da crise, vindo a elevar a
taxa básica em abril de 2008. É interessante ressaltar que a inflação prevista para 2008 se encontra na faixa de 3% a 4,5% para todas essas economias, inclusive a brasileira, o que implica taxas reais de
juros muito baixas ou negativas nos países desenvolvidos. O maior diferencial de juros entre o Brasil e os países desenvolvidos deve acentuar a valorização do real em um momento no qual os saldos comerciais brasileiros se mostram bastante inferiores relativamente àqueles obtidos em 2007. Repousar o financiamento dos déficits em transações correntes sobre entradas fmanceiras de curto prazo, em momento de aguda crise internacional, é correr o risco de repetir uma história sem final feliz. E, o que é pior, em nome da “estabilidade”.

Os bancos centrais frente à crise

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