O significado da retomada do crescimento em 2017

Em 2017, a economia brasileira voltou a apresentar sinais positivos nas suas principais variáveis macroeconômicas, após dois anos nos quais o País atravessou a maior recessão de sua história. Assim, segundo o Instituto Brasileiro de Economia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto (PIB) apresentou um crescimento de 1,0% em relação a 2016, sendo esse crescimento resultado do incremento tanto da produção agropecuária quanto das indústrias extrativas e de transformação. A inflação, por seu lado, foi significativamente reduzida, ficando, inclusive, ligeiramente abaixo da banda mínima estabelecida pelo regime de metas da inflação. Tal fato permitiu ao Banco Central reduzir substancialmente a taxa nominal de juros. Pelo lado do mercado de trabalho, verificou-se uma redução na taxa de desemprego e um incremento no número de ocupados. No setor externo, o País apresentou o seu maior superávit em dólares na balança comercial, enquanto a taxa de câmbio apresentou pequenas oscilações, em torno de R$ 3,2.
Essa incipiente recuperação, no entanto, precisa ser entendida dentro de um horizonte temporal maior. Em primeiro lugar, o volume do PIB situou-se, em 2017, 6,0% abaixo do seu volume em 2014. Em segundo lugar, uma análise mais detalhada da série da produção industrial demonstra que o crescimento, no volume de produção da indústria de transformação (2,2%), em 2017, manteve o seu nível abaixo do de 2004. A produção industrial ainda deverá crescer cerca de 20,0% para alcançar o seu patamar máximo, o de 2013. Em terceiro lugar, o nível dos investimentos está abaixo do que se encontrava na pré-crise de 2008 e ainda deverá crescer aproximadamente 40% para atingir o seu nível máximo, o de 2013. No que se refere à taxa de juros real, referência para a remuneração das aplicações financeiras, embora tenha apresentado uma ligeira queda, continua próxima de 4,0%, patamar ainda elevado, quando comparado às taxas de juros internacionais, que estão próximas de zero ou até mesmo negativas. O fato de a inflação, em 2019, dificilmente ficar abaixo da verificada em 2018, associado com a possibilidade de crescimento da taxa de juros norte-americana, dificultará que o Banco Central promova novas reduções na taxa de juros nominal até o final do ano. Por fim, convém destacar que a dívida líquida do setor público, que no início de 2015 representava 32,5% do PIB, encerrou 2017 com um percentual de 51,6%, retornando ao patamar de meados de 2004.
O crescimento econômico é resultado do comprometimento de parcela do excedente econômico das empresas com o processo de produção e/ou com os novos investimentos em bens de capital, de forma a ampliar a capacidade produtiva. Por seu lado, o crescimento da produção, ou a realização de novos investimentos, ocorre quando existe uma demanda em expansão ou uma expectativa de que tal expansão venha a ocorrer. Em si, o crescimento acaba sendo um estímulo à demanda de bens intermediários e de bens finais, caso o aumento na produção se reflita na geração de novos empregos e no crescimento da massa salarial. Novos investimentos, por sua vez, podem surgir da necessidade de repor a depreciação de máquinas e equipamentos, da ocupação da capacidade instalada ou, ainda, da perspectiva de lucratividade.

É dentro dessa estrutura que o crescimento brasileiro deve ser analisado. Para que o País retome uma trajetória consistente de recuperação, será fundamental o surgimento de fontes de demanda. Em 2017, as exportações constituíram-se em uma importante fonte de demanda para a economia brasileira. Em termos de volume, segundo os dados da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), o crescimento foi de 6,8%, sendo os produtos básicos os principais responsáveis pelo incremento (13,2%). Embora o aumento na quantidade exportada de bens manufaturados (2,7%) tenha sido relativamente baixo, ela esteve concentrada em setores com importantes relações de encadeamento interindustriais, tais como o setor produtor de veículos automotores (28,2%) e de máquinas e equipamentos (16,1%), os quais acabam estimulando a produção de bens intermediários.

No caso de manutenção do crescimento da economia mundial, é provável que esse padrão de crescimento das exportações continue. No entanto, a economia brasileira ainda opera com importantes elementos que restringem uma aceleração do crescimento. Em primeiro lugar, o consumo das famílias tem crescido muito lentamente e deverá continuar assim nos próximos anos. A precarização dos novos empregos, que deverá ocorrer a partir da reforma trabalhista, deverá limitar o crescimento da massa salarial e dos benefícios, como o pagamento das férias e do 13.° salário, mesmo que o emprego volte a crescer.

Em segundo lugar, é preciso considerar que o ajuste fiscal pelo lado dos gastos públicos, estabelecido pelo teto dos gastos, irá impedir que o governo amplie o seu papel como indutor de investimentos privados ou aumente os seus investimentos em infraestrutura. Além disso, tal política limitará os gastos governamentais com o funcionalismo, serviços públicos e assistência social. Todos esses elementos impedem uma expansão nos gastos das famílias e irão restringir o crescimento da demanda.
Ao longo dos anos de 2015 e 2016, agravaram-se, no País, alguns problemas de ordem estrutural que já vinham manifestando-se há alguns anos. Em primeiro lugar, a queda nos investimentos acentuou a defasagem tecnológica do parque industrial instalado no País. Isso ocorre justamente em um momento de profundas transformações tecnológicas nas áreas de informação e comunicação e de processos produtivos, que têm impactado todo o conjunto de atividades industriais.

Além disso, sucessivos anos de queda na produção e nos investimentos levaram a quebras nas cadeias produtivas domésticas, as quais acabaram por direcionar parte da demanda intermediária e final para o exterior. De fato, em 2017, ainda segundo a Funcex, o volume das importações cresceu 5,3%, sendo que os principais responsáveis foram: os combustíveis (9,4%), os bens intermediários (7,0%), os bens de consumo duráveis (8,8%) e os bens de consumo não duráveis (8,2%). Já os bens de capital tiveram uma queda de 9,1% no volume importado, indicando o baixo patamar da formação bruta de capital. Tais dados demonstram uma elevada elasticidade-renda das importações brasileiras, fato que pode vir a criar novos desajustes em um ciclo futuro de crescimento.

Além disso, o substancial aumento do desemprego observado nesses anos de profunda recessão, que dobrou o número de desempregados no País, passando de aproximadamente 6,5 milhões de trabalhadores para mais de 13 milhões, associado a longos períodos nos quais que os trabalhadores têm ficado sem ocupação, não propicia que a mão de obra busque se qualificar. Assim, cria-se outra defasagem importante para a retomada do crescimento, defasagem esta que não encontra solução no curto prazo. Somente a partir da redução acentuada nas taxas de desemprego, com o crescimento do salário real e com investimentos em educação, é que se criam as condições para a superação do problema.
Assim, embora conceitualmente a economia brasileira tenha saído da recessão, a posição em que ela se encontra após esses anos irá requerer, para os próximos, uma conjuntura favorável, tanto no cenário nacional como no internacional, para que ocorra uma recuperação plena da atividade econômica e para que seja possível algum resgate da enorme dívida social que se acumulou com a crise.

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