O retorno do déficit na conta corrente

Além da perda de vigor das exportações, resultado da crise mundial aliada à valorização cambial, vários fatores vêm contribuindo para o déficit em transações correntes (DTC), que vem sendo registrado no Brasil desde 2008. Dentre outros, podem ser citados o crescimento acelerado das importações, o maior gasto dos brasileiros com viagens ao exterior, o aumento das remessas de lucros e dividendos pelas empresas multinacionais com sede no País e os maiores gastos com transporte (fretes e passagens), todos esses decorrentes da retomada de ritmo da economia do País e do dólar barato. Mesmo as transferências unilaterais — alimentadas, em grande parte, por remessas de brasileiros residentes fora do País e que anteriormente contribuíam de forma mais significativa para compensar o rombo crônico na conta de serviços e rendas — diminuíram após a deflagração da crise mundial de 2008.

Como o DTC estimado para este ano é de US$ 49 bilhões e levando-se em conta que o Banco Central prevê, para 2010, uma entrada líquida de investimento externo direto (IED) no valor de US$ 45 bilhões, para cobrir o rombo, haveria necessidade de US$ 4 bilhões, os quais teriam de ser cobertos de alguma outra forma, tal como: investimentos em carteira (ações e renda fixa), que são recursos destinados ao mercado de capitais; empréstimos do setor financeiro externo para empresas brasileiras; ou uso das reservas internacionais do País, que, em abril de 2010, giravam em torno dos US$ 244 bilhões.

Essa guinada no saldo da conta corrente, que, de 2003 a 2007, registrou superávits, ganha importância, quando se leva em conta a fonte de recursos para o seu financiamento: se oriundos da balança comercial ou da conta de capital e financeira. Isto porque os dólares obtidos com exportações não implicam compromissos de gastos futuros, enquanto aqueles oriundos de empréstimos ou de investimentos no País podem acarretar posteriores pagamentos, como juros ou remessa de lucros e dividendos, e, quando derivam de empréstimos em moeda, estes ainda terão de ser amortizados futuramente. Além disso, em sua maioria, os investimentos em carteira são altamente voláteis e, assim como aportam em quantidade, podem evadir-se rapidamente. E os IEDs, tidos como a melhor opção no momento, praticamente se igualaram às remessas de lucros e dividendos em 2009, pois a captação líquida do Brasil em investimento direto foi de US$ 25,9 bilhões, e a remessa líquida de lucros e dividendos alcançou US$ 25,2 bilhões. Ou seja, quase toda a entrada de investimento direto naquele ano serviu apenas para cobrir as remessas de lucros e dividendos.

Com relação às reservas cambiais — embora essas sejam consideradas de extrema importância para a superação da vulnerabilidade externa e atualmente estejam em um nível confortável —, no caso de crises prolongadas, seu volume pode ser insuficiente para enfrentar um período mais longo de dificuldades nas contas externas, bastando, para isso, uma debandada dos capitais de curto prazo, aliada a uma interrupção no crédito externo, tanto para empréstimos em moeda quanto para aquisição de bens importados.

Assim, o financiamento do DTC via conta de capital e financeira — especialmente via investimentos em carteira —, ou através da utilização das reservas cambiais, pode vir a significar, em um prazo mais longo, um aumento da vulnerabilidade externa do País, visto serem essas modalidades mais suscetíveis a mudanças bruscas na ordem econômica.

O retorno do déficit na conta corrente

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