O crédito e o papel dos bancos públicos

Desde o ano de 2004, há uma forte expansão do crédito no País. Assim como aparece como um dos determinantes para o ciclo de crescimento na última década, a expansão é também levantada como um dos fatores para o esgotamento desse processo. Tal esgotamento adviria da fragilização resultante tanto da excessiva parcela de crédito sobre o PIB, manifestada também no endividamento das famílias, quanto do peso das instituições públicas no total do Sistema Financeiro Nacional. A fim de compreender a recente evolução do crédito, cabe resgatarem-se alguns pontos.

De 2004 a 2008, a economia brasileira cresceu, em média, 4,8%. Nesse mesmo período, o crédito total como proporção do PIB passou de 25,7% para 40,7%. É válido salientar que as instituições privadas lideraram esse movimento durante o período que antecedeu a crise, correspondendo a uma parcela de 64% do total do crédito ao fim de 2008, sendo os restantes 36% de origem pública.

No período seguinte, de 2009 a 2013, a expansão do crédito foi sustentada pelos bancos públicos, principalmente Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A ação conjunta dessas instituições foi responsável por sustentar o crédito no País e evitar um aprofundamento da crise decorrente de uma retração dos empréstimos por parte dos bancos privados. Como consequência, desde 2008, a participação das instituições públicas no total do crédito elevou-se a 50,7%, garantindo a continuidade do aumento da relação crédito/PIB, que passou para 55,5% em 2013.

Quando se questiona o esgotamento da expansão do crédito com relação ao PIB, deve-se ter em conta que a elevação desse índice desde 2004 segue, na verdade, um processo de normalização. Segundo dados do Banco Mundial, em 2012, o País apresentou índice inferior aos países desenvolvidos — que, em sua maioria, apresentam relação superior a 100% — além de China (134%) e Chile (73%). Por outro lado, o nível atual do Brasil é superior aos da Índia (51%), Rússia (48%) e México (28%).

É necessário dizer que essa expansão do crédito foi um dos determinantes do comportamento econômico pós-crise, pois sustentou o crescimento da demanda ao longo do período, por meio tanto do consumo das famílias como do incentivo à construção civil. Essas atividades foram fundamentais para conter o reflexo da recessão que se manifesta em nível internacional, onde o setor bancário demonstrou ser o principal canal de transmissão. Dessa forma, pode-se dizer que a elevação da participação do crédito no PIB foi fundamental para a economia e que manifesta o desenvolvimento sólido do sistema financeiro nacional. Quanto à sustentabilidade dessa expansão até o momento, os níveis de inadimplência nos últimos 12 meses mantêm-se estáveis ou decrescentes.

Já quando se questiona a elevada participação das instituições públicas no crédito, deve-se ressaltar que foi devido especificamente à expansão desse segmento que se conteve um maior impacto da crise sobre a economia. Acrescente-se ainda que a carteira dos bancos públicos é composta majoritariamente de empréstimos com perfil de baixo risco (habitacional e pessoa jurídica). Além disso, a presença de instituições públicas no Sistema Financeiro Nacional tem sido fundamental para permitir uma redução do custo de empréstimo para o tomador final. A utilização dos bancos públicos como ferramenta para iniciar a redução nas taxas de juros representa a necessidade de corrigir o diferencial que o custo de crédito no Brasil apresenta quando comparado internacionalmente.

Dessa forma, salienta-se a importância da expansão do crédito ao longo do período, e, dentro disso, a relevância dos bancos públicos, não só para sustentar a oferta de crédito após a crise, mas também na tentativa de adequar as taxas de juros a níveis condizentes com as praticadas internacionalmente. A expansão até o momento elevou o nível de endividamento, mas não prejudicou a qualidade geral dos empréstimos. Da mesma forma, os índices de capitalização dos bancos públicos mantêm-se acima dos requeridos. Contudo a magnitude da expansão creditícia apresentada desde 2004 dificilmente poderá ser repetida, devendo o setor financeiro, gradualmente, ajustar seu comportamento ao restante da economia, sem abdicar da utilização das ferramentas disponíveis para cumprir as exigências que o desenvolvimento econômico requer.

O crédito e o papel dos bancos públicos

Compartilhe