Investimentos: a hora e a vez do Brasil

Ampliação do mercado consumidor, incremento da renda, crescimento econômico, redução da taxa de juros, descoberta de recursos naturais, organização de eventos esportivos e visibilidade externa, esses são alguns dos elementos que descortinam a atração de capital e a edificação de inúmeros investimentos produtivos no País. Em meio a discussões sobre a fragilidade da indústria face à concorrência externa e a consequente penetração dos importados na cadeia produtiva, setores ganham musculatura, alentando, em certa medida, as perdas advindas da valorização cambial. Esse movimento consolida o Brasil como o quarto maior receptor de capital, rumando à segunda colocação.

Serão construídas, nos próximos anos, 12 novas montadoras de carros, e cinco das já existentes ampliarão sua capacidade produtiva. Três outras estudam uma eventual instalação. Erguem-se três fábricas de motores e/ou de transmissão. Tais empreendimentos representam mais de R$ 22 bilhões. Há, ainda, cinco novas fábricas de motos, sete de caminhões e três ampliações. No segmento de ônibus, surgem mais três parques fabris, e ocorre uma expansão. Quase em operação está uma montadora de carros militares. Em decorrência desses empreendimentos, o setor de autopeças investirá R$ 4,6 bilhões por ano até 2015.

O segmento petrolífero expande-se de uma forma sem precedentes. Estão sendo construídos dois novos complexos petroquímicos, duas refinarias de petróleo no Rio de Janeiro, uma em Pernambuco, uma no Ceará e uma no Maranhão, esta última será a maior da América Latina e a quinta maior do mundo. Está em negociação, ainda, outra refinaria também no Estado do Maranhão. Com o Pré-Sal, as grandes petrolíferas do mundo estão atentas à prospecção de petróleo brasileiro. Além dos encadeamentos nos estados citados, Bahia e São Paulo recebem novas empresas de derivados do petróleo. Os investimentos em toda a cadeia do petróleo podem passar de R$ 1,8 trilhão nos próximos anos.

Aliada à expansão petrolífera, a cadeia naval ganhou articulação e representatividade. Ainda nessa década, o setor aproximar-se-á da relevância atual das montadoras de veículos em termos de número de empregos. Além dos novos estaleiros em funcionamento, outros nove estão em vias de implantação. Como apêndice dos estaleiros, o setor de navipeças assiste a proliferação de seus negócios. Esse ramo produtivo movimenta as economias de Pernambuco, do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. Neste último estado, além de duas plantas inauguradas há pouco, três novos estaleiros estão em marcha.

Também no Rio de Janeiro, edifica-se o Complexo Industrial do Superporto do Açu. Nele, erguem-se um estaleiro, duas usinas termoelétricas, uma unidade de tratamento de petróleo, duas siderúrgicas e duas cimenteiras. Há previsão de se instalarem lá indústrias de autopeças, de cerâmicas e do setor automotivo. No total, o complexo representa mais de R$ 40 bilhões, consolidando-se como o maior investimento em infraestrutura portuária das Américas. Tal monta desencadeou o planejamento de uma nova cidade na região norte fluminense, objetivando acolher os trabalhadores que para lá migrarão. Outros portos também se desenvolvem, o de Santos mais do que duplicará sua capacidade até 2013.

A indústria de celulose igualmente se amplifica. Há uma perspectiva de investimentos de R$ 36 bilhões até 2020. Nesse montante, estão quatro novas fábricas e extensões de três plantas existentes.

Não pouco significativo é o anúncio do investimento de R$ 21,6 bilhões, em cinco anos, na fabricação de componentes eletrônicos e montagens de tablets e celulares, que atenderá às demandas interna e externa. Serão gerados 100 mil novos empregos diretos com esse investimento. Em decorrência, estão em fase de estudos ou instalação empresas de equipamentos eletrônicos, placas de silício, equipamentos digitais e semicondutores, material este que ainda não é produzido no Brasil.

Em face dessa variação de oferta à frente, o setor da construção civil vivencia expressiva dinamização. Estão em construção ou reforma 16 estádios pelo País, estradas estão sendo duplicadas, 13 aeroportos serão construídos ou estendidos, linhas de metrôs ampliam-se, e os empreendimentos imobiliários crescem significativamente, desde os residenciais até os investimentos em hotéis, que são atraídos pelos eventos esportivos. Em 2012, o Brasil foi considerado o segundo país mais atrativo para investimentos imobiliários, atrás dos Estados Unidos. São estimadas para este ano 600 mil novas unidades habitacionais financiadas pelo programa Minha Casa, Minha Vida. Somem-se a isso, a construção da terceira maior hidrelétrica do mundo, a Belo Monte, além de outras quatro novas hidrelétricas, e os R$ 35 bilhões do trem-bala Rio de Janeiro-São Paulo. Em 2012, 43 shopping centers serão abertos no País. Esses empreendimentos trarão em torno de US$ 14 bilhões, em 2012, para o Brasil no setor de construção civil. Para atender a essa demanda, as construtoras e fabricantes de cimento estão estendendo sua capacidade de produção. Uma única empresa içará quatro novas fábricas de cimento.

Além dos investimentos de monta apresentados, outros de menor expressão estão sendo anunciados ou estão em análise, nos mais variados ramos. São exemplos de novos empreendimentos as inversões em biotecnologia, fármacos, energia nuclear, solar e eólica, mineração, fertilizantes, turbinas hidrelétricas, aerogeradores, elevadores, guindastes, pontes-rolantes, empilhadeiras, ferramentas, equipamentos médicos, equipamentos elétricos, telecomunicações, química, microesferas de vidro, embalagens, móveis, fibra de madeira, informática, lâmpadas LED, cosméticos, no setor financeiro, no setor de ensino, em centros de P&D, dentre outros.

Inequivocamente, a apreciação cambial dos últimos anos expõe a indústria brasileira, e diversos setores têm perdido espaço e representatividade, elemento que não pode ser ignorado. Contudo o cenário acima apresentado, somado à carência de crescimento dos países centrais, atrai inúmeras empresas. Em paralelo, a posição de destaque do Brasil na cena internacional e a sua consequente aparição geopolítica permitiram significativa visibilidade.

A despeito desses movimentos, três questões ficam no horizonte. Uma é se tais empreendimentos terão vigor suficiente para estender a participação do investimento no Produto e, ocorrendo isso, que componente do PIB reduzirá sua participação. A segunda é se esses investimentos serão capazes de dinamizar um crescimento robusto. E, por fim, como se dará a crescente penetração dos importados nessas inversões, particularmente nos setores mais expostos à concorrência advinda do câmbio, fator este limitador dos encadeamentos produtivos e dos efeitos sobre a renda.

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