Indústria de transformação brasileira: horizonte nebuloso

Os bons resultados alcançados pela indústria de transformação até setembro de 2008 apoiaram-se no incremento das exportações de commodities (insumos industriais, minerais e agrícolas) e na ampliação da produção de bens de consumo duráveis e alguns não duráveis, graças à expansão do crédito e da massa salarial. Esse desempenho refletiu-se no significativo crescimento dos investimentos de 2006 até meados do segundo semestre de 2008, conforme o BNDES. Porém, a partir de outubro de 2008, os índices de produção física começaram a desacelerar em consequência da crise mundial, sendo que os componentes internos dessa mudança de trajetória não podem ser subestimados. A crescente “commoditização” promoveu uma excessiva vulnerabilidade no setor externo, conforme demonstra a forte redução da produção da indústria de metalurgia básica no primeiro quadrimestre de 2009. O aprofundamento da internacionalização dos bens de consumo duráveis influenciou os maus resultados da indústria de veículos automotores, ainda que algumas medidas creditícias e fiscais tenham impedido uma queda ainda maior. Ressalte-se que a política de crédito que vem sendo praticada para sustentar o consumo doméstico ampliou perigosamente o endividamento das famílias. As indústrias tradicionalmente exportadoras, como a calçadista, que já acumulavam perdas devido à política cambial em vigor, aprofundaram seus problemas em consequência da contração do mercado internacional.

No quarto trimestre de 2008, o BNDES registrou queda dos investimentos, em comparação com o trimestre anterior, principalmente nas atividades de extração mineral, siderurgia e celulose. A produção física de máquinas e equipamentos, no primeiro quadrimestre de 2009, assinalou um dos piores resultados das indústrias brasileira (-29,3%) e gaúcha (-33,9%), o que confirma a indicação de queda dos investimentos. Entre os meses de janeiro e abril de 2009, ocorreu uma tênue recuperação da indústria, embora os resultados permaneçam substancialmente inferiores aos de 2008. No acumulado jan.-abr./09, a indústria brasileira registrou uma taxa de -14,7% contra 7,4% em 2008, sendo que, no RS, as taxas respectivas foram de -16,4% contra 6,6%. Em todos os resultados apresentados, aqueles relativos à indústria de transformação do RS colocaram-se em patamares inferiores aos do Brasil.

Ainda que o horizonte pareça menos ameaçador para a economia brasileira do que no início da crise, o mesmo não se confirma para a atividade industrial cujas mudanças ocorridas nas últimas décadas geraram importantes desequilíbrios. Para fazer frente a essa situação, as políticas implementadas precisariam recuperar a demanda interindustrial, através de investimentos públicos e de financiamentos a segmentos criteriosamente definidos, e estimular a internalização de alguns elos importantes das cadeias produtivas. Além disso, mais do que atrair investimentos predatórios para a extração mineral e para a produção de commodities, seria fundamental enfrentar o problema do incipiente desenvolvimento dos segmentos de alta intensidade tecnológica.

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