Finanças: o infinito que desaba

Está-se no meio da “crise norte-americana”, que é uma crise longa, severa, de extensão mundial e que tem a forma de uma escada. Vai-se de degrau em degrau, em sentido descendente. E a pergunta explode no coração das pessoas: até onde? Esta é a primeira lição da crise: está-se num nevoeiro onde não se sabe o fim. E, depois de cada etapa, há outra a cumprir. E, ao mesmo tempo, um rastilho de pólvora está sempre presente, são os títulos oriundos das hipotecas imobiliárias, onde tudo começou. Eles continuam aí, levando incômodo a todos. Mas essa crise financeira foi uma esbórnia, porque o crédito, sem critério, foi usado como promessa de compra e de pagamento para tudo – moradias, casas de verão, carro, viagens, empréstimos educacionais, etc. – no nível dos consumidores e foi também o que permitiu, a partir dos bancos comerciais e dos bancos de investimento, a invenção de uma verdadeira salada de títulos (desde títulos baseados nas hipotecas das casas até títulos que sustentam o default de outros títulos, como o Credit Default Swaps (CDS). Desde logo, nunca foi só uma crise das hipotecas imobiliárias, mas, desde sempre, uma crise do sistema financeiro.

Chega-se à segunda lição: por que aconteceu tudo isso? O sistema financeiro é um universo em expansão que tende ao infinito. Só que o infinito econômico é um infinito que acaba, que morre e que desaba. E, quando os capitais respondiam que o sistema era auto-regulado, sua resposta era falsa, os capitais não têm a capacidade de se controlar. A concorrência introduz um conflito que rompe inexoravelmente a trajetória do infinito. Dessa forma, pôde-se ver, o Banco Central só regulava os bancos comerciais. E, com manobras jurídicas e contábeis, esses bancos estavam separados dos bancos de investimento, que por sua vez, estavam separados dos hedge funds. Auto-regulação. Autodestruição.

Ora, veja o leitor: o sistema financeiro era como um balão que estava cheio, que a gente ia e ia assoprando e que, de repente, escapava da mão e subia para tombar, vomitando o ar que estava dentro. O sistema funcionava assim: o ar é a especulação que vai ampliando-se, que vai inflacionando o valor dos títulos. A euforia e a alegria correndo loucas, todo mundo com a sensação de vencedor. Mas é um mercado de fina sensibilidade, precificado minuto a minuto, um mercado instável, um mercado de tiro instantâneo. Um dia, alguém desconfia que o castelo de cartas chegou ao limite. Se botar ou tirar uma carta, o todo desaba. E foi isso que aconteceu: um problema nas hipotecas, e elas passaram a ter um odor fétido, “títulos podres”.

Instaurou-se, então, a dinâmica da crise com a desconfiança no mercado. A desconfiança é o vírus do sistema financeiro e passa pela fonte de irrigação que são os bancos comerciais com o seu mercado interbancário, com o seu mercado de empréstimos, etc. Chega o temor das perdas, e os bancos fecham a sua torneira. O nome técnico disso é credit crunch, que, no popular, quer dizer: ninguém empresta para ninguém. Aparece, então, a hora do Banco Central, o FED. Mas a sua intervenção só anima os bancos a não emprestarem, pois Keynes já dizia que, na crise, há uma preferência absoluta, a “preferência pela liquidez”. E assim foi. Daí o Bearn Stearns exibiu suas entranhas malditas, e o FED ajeitou sua compra pelo JP Morgan. Depois, tudo foi um escorrer de água: veio a bancarrota do Lehman Brothers; a compra do Merril Lynch pelo Bank of América; a necessidade de intervir na Fanny Mae e no Freddy Mac; a intervenção na seguradora AIG; a transformação do Morgan Stanley e do Goldman Sachs em bank holding companies, as compras do Washington Mutual pelo JP Morgan e do Wachovia pelo Citigroup, etc. E o incêndio espalhou-se por toda parte, atingindo primeiramente a Europa.

E quando a coisa chega nesse ponto – “vamos passar o mico adiante”-, o sistema sabe que desabou: regulação, securitização, fatiamento dos títulos, produtos, etc. Vem a principal lição: a necessidade da intervenção do Estado e, claro, do endividamento público, para salvar a convulsão dos capitais. Na seqüência, nasce um plano para sustentar o sistema financeiro e recolher os títulos tóxicos – uma espécie de Resolution Trust Corporation (RTC). E, por outro lado, há que se pensar na criação de um Home Owner´s Loan Corporation (HOLC), para solucionar o problema das dívidas dos compradores de casa. Com as tarefas aumentando, o precipício abre-se e chama-se hedge funds; sua queda tem uma dinamite poderosa, pode levar de arrasto os fundos de pensão. E, aí, acaba a previdência dos norte-americanos. Por isso, já se vê, a crise econômica puxa sua solução para a política. Dela, virão as proposições imprescindíveis à regulação, ao salvamento do sistema financeiro e ao dólar, atravessando o Congresso e o futuro Executivo com Obama ou McCain. Para encontrá-las, todos terão que aprender a lidar com a queda do infinito, outro modo de dizer, com o fim do neoliberalismo.

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