Exportações gaúchas de couro superam as de calçados

O segmento coureiro-calçadista revela-se fundamental na história do desenvolvimento da economia gaúcha, a qual sempre se destacou nas exportações brasileiras de couro e calçados. Entretanto sua dinâmica vem sofrendo modificações ao longo do tempo.

Analisando-se dados para a economia do Rio Grande do Sul a partir de 2003, observa-se que as exportações de calçados e suas partes vêm apresentando forte tendência de redução. As vendas externas atingiram um pico de US$ 1,4 bilhão em 2005, passando para US$ 516,4 milhões em 2014, uma expressiva queda de 56,5%. Nesse contexto, a participação relativa do setor de calçados na pauta exportadora gaúcha rumou de 14,8% em 2003 para 2,8% em 2014 (chegando a representar 2% em 2013).

Tal retração está fortemente atrelada à queda nas vendas de calçados de couro. O total de pares de calçados embarcados (desconsiderando-se as partes de calçados) caiu de 119,9 milhões em 2004 para 18 milhões em 2014, sendo que os calçados de couro foram responsáveis por 86,4% dessa queda. Dentre os motivos para a forte redução das exportações de calçados do Estado, pode-se mencionar: a ascensão da China e de outros países asiáticos nesse setor (vantagens de custo em mão de obra), o deslocamento de fábricas para outras regiões brasileiras (sobretudo, Nordeste), a valorização cambial ocorrida a partir de meados da década de 2001-10, o aumento nos custos de produção e a substituição do couro por materiais sintéticos.

Por outro lado, as exportações gaúchas de couro curtido cresceram substancialmente nos dois últimos anos avaliados, a despeito de se manterem relativamente estáveis entre 2003 e 2012. A média do valor exportado do produto pelo RS entre 2003 e 2012 ficou na casa dos US$ 439,5 milhões, enquanto em 2013 esse valor passou para US$ 498,7 milhões e, em 2014, para US$ 598,5 milhões. Por sua vez, a quantidade exportada de couro apresentou leve tendência de queda no período analisado, caindo de 44,6 milhões de m² em 2003 para 41,1 milhões de m² em 2014. Contudo o preço médio do couro apresentou elevação, subindo de US$ 8,20/m² para US$ 14,56/m² — o que explica o comportamento do valor exportado.

Em virtude da forte elevação das vendas de couro em 2014 e da tendência de queda das exportações de calçados em todo o período estudado, as exportações de couro do Estado ultrapassaram as de calçados em 2014. Explicam esse resultado os aumentos nas vendas de couro em 2014, principalmente, para os Estados Unidos (que se elevaram de      US$ 76,4 milhões em 2013 para US$ 101 milhões em 2014), China (de US$ 71,4 milhões para US$ 83 milhões) e Vietnã (de US$ 7 milhões para US$ 30,5 milhões). Além disso, observou-se uma grande queda nas exportações de calçados entre 2003 e 2014 para os Estados Unidos (de US$ 789,5 milhões em 2003 para US$ 79,6 milhões em 2014) e Reino Unido (de US$ 93 milhões para US$ 16,6 milhões).

Assim sendo, constata-se que o RS vem experimentando uma contração em suas exportações de um produto com maior valor agregado, o calçado, e aumentando as exportações de um produto de menor valor agregado, o couro; em outras palavras, vem deixando de exportar um bem manufaturado para exportar diretamente o seu insumo. Esse fenômeno implica impactos negativos para a economia gaúcha, dado vincular-se a questões pertinentes à reprimarização de sua pauta exportadora, gerando consequências perversas tanto no curto prazo (menor entrada de divisas) quanto no longo prazo (reflexos sobre a estrutura produtiva).

Os dados já disponíveis para 2015 revelam um quadro desfavorável em relação ao ano anterior. Confrontando-se os meses de janeiro desses anos, verifica-se uma queda das vendas externas tanto de couro quanto de calçados (-4,6% e -27,2% respectivamente), a qual se mostra ainda maior quando se contrastam os meses de fevereiro de 2014 e de 2015 (-26% e -27,7%). Esses resultados vêm na esteira dos ajustes recessivos promovidos atualmente na esfera federal, bem como do cenário de demanda externa desaquecida, sinalizando perspectivas de dificuldade para o ano corrente. Todavia a desvalorização cambial que vem sendo observada pode significar um alento para a competitividade das exportações gaúchas.

Carta de Conjuntura FEE – Tomás Torezani

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