Especificidades locais explicam comportamentos desiguais

O comportamento do setor industrial brasileiro revela-se bastante diferenciado nos últimos quatro anos, com base na evolução dos índices de produção física industrial, com ajustamento sazonal. Esse mesmo comportamento é observado em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Dos três locais considerados, a indústria paulista manteve-se num patamar mais elevado durante quase todo o período jan./03-set./06, ao passo que a gaúcha apresentou uma performance mais desfavorável.

A mudança no padrão de comportamento industrial que ocorreu em agosto de 2004 distinguiu dois momentos na série em questão. Inicialmente, os índices observados para Brasil, São Paulo e Rio Grande do Sul evoluíram de modo similar e mostraram o aprofundamento da crise que se abateu sobre o setor, em meados de 2003. Num segundo momento, após uma recuperação marcada por uma evolução muito parecida, observou- se um comportamento progressivamente divergente das atividades industriais brasileira e paulista frente à gaúcha. Enquanto as primeiras continuaram sua trajetória suavemente ascendente, a indústria do Rio Grande do Sul passou a trilhar em direção oposta, atingindo sua pior performance no primeiro semestre de 2006.

Essa relativa quebra de sintonia remete às características da matriz industrial de cada local pesquisado. A indústria paulista, potente, diversificada e com uma composição mais homogênea em termos das atividades industriais, é menos vulnerável a fatores que afetam setores específicos. O mesmo ocorre com a indústria brasileira, em larga medida influenciada pelo desempenho da indústria paulista, em função de sua elevada representatividade no produto industrial global.

No Rio Grande do Sul, as especificidades do parque industrial forjadas ao longo dos anos concentram-se na forte relação com a sua base agrícola e na existência de vários segmentos representativos, com a produção, em grande medida, direcionada para o mercado externo. Esse grau de especialização intensifica a vulnerabilidade da indústria em relação à evolução da taxa cambial e à produção e à renda geradas na agropecuária.

As maiores dificuldades enfrentadas pela indústria gaúcha decorrem, pois, de seu maior nível de especialização na produção de bens pertencentes aos segmentos mais atingidos pela combinação da taxa de câmbio valorizada (31,3% entre jul./04 e out./06) com a crise do campo no cenário nacional, decorrente de dois anos de estiagem (2004 e 2005) e da queda nos preços internacionais das commodities agrícolas, especialmente grãos, somadas às taxas de juros elevadas, à gripe aviária e a restrições aos créditos de ICMS nas exportações. Não surpreende, pois, que os maiores responsáveis pela redução da atividade fabril, no acumulado jan.-set./06, tenham sido os segmentos máquinas e equipamentos, em especial colheitadeiras e tratores agrícolas (-18,4%), calçados e artigos de couro (-8,5%) e fumo (-8,2%).

As perspectivas, no entanto, parecem menos pessimistas. Na comparação com o mês imediatamente anterior, observa- se que a atividade fabril no Rio Grande do Sul vem melhorando seu desempenho a partir de julho de 2006. Em bases trimestrais, na série ajustada sazonalmente, o setor cresceu 3,5% do segundo para o terceiro trimestre neste ano. Esse resultado reflete os efeitos do crescimento das indústrias de alimentos, de veículos automotores, de refino de petróleo e de celulose e papel, assim como o maior dinamismo das atividades que vinham impactando negativamente a formação da taxa global, tais como fumo e calçados e artigos de couro. Em um contexto mais amplo, destacam-se os efeitos positivos da gradual queda na taxa de juros e da lenta recuperação da renda agrícola.

Especificidades locais explicam

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