Desindustrialização no setor de autopeças e o novo regime automotivo

Nos últimos anos, a posição da indústria de autopeças no Brasil vem sendo colocada em xeque pela crescente entrada de importações. A perda de participação de mercado tem demonstrado ser uma tendência crescente. No entanto, as medidas anunciadas pelo Governo Federal para 2013, no âmbito do novo regime automotivo, podem contribuir para mitigar essa situação.

A natureza do problema que se apresenta ao setor produtor de autopeças pode ser descrita como de falta de competitividade, que gera um processo de desindustrialização “silenciosa”. Embora a produção, o emprego, o número de estabelecimentos e o faturamento tenham apresentado elevação entre 2003 e 2011 (RAIS e Sindipeças), esse desempenho não impediu uma crescente entrada de similares importados no Brasil. De fato, o gráfico abaixo ilustra essa afirmação e também identifica que a produção das autopeças foi distanciando-se da performance apresentada pelas montadoras. Em especial, isso indica que a cadeia de produção automotiva, historicamente considerada como de elevada coesão em relação à média da indústria de transformação nacional, tem apresentado uma tendência de progressiva perda de densidade. A explicação para o comportamento observado possui múltiplas dimensões.

Uma delas é a falta de competitividade sistêmica. No período analisado, a taxa de câmbio anual média, medida pelo Banco Central, passou de um pico de desvalorização de R$/US$ 2,89 em 2003 para R$/US$ 1,67 em 2010 e R$/US$ 1,88 em 2011, gerando um processo de elevação continuada do preço relativo da produção nacional. Ademais, soma-se a esse quadro o aumento dos custos com logística, energia, carga tributária e encargos trabalhistas, que, em média, se elevaram relativamente mais do que em empresas concorrentes internacionais. Esse período também é marcado por um incremento da importação de veículos — sobretudo os de maior valor agregado, no âmbito de uma complementaridade produtiva na indústria automobilística com a Argentina e o México —, que acabou criando uma demanda por autopeças importadas para o mercado de reposição desses modelos.

Outra dimensão importante relaciona-se às estratégias competitivas adotadas pelas montadoras e às dificuldades das empresas nacionais de autopeças em se adaptarem ao novo padrão de concorrência setorial. A disputa no mercado de veículos sofreu um processo de crescente acirramento nas décadas de 90 e 2000-09, evidenciado pelo incremento no número de montadoras produzindo no País e pelos investimentos que estão sendo realizados atualmente. O recrudescimento da competição no mercado de veículos também se refletiu no ritmo de desenvolvimento e de adoção de novas tecnologias para a obtenção de liderança em diferenciação de produto. Isso reduziu o ciclo de vida dos veículos, contemplando as peças utilizadas em sua montagem. Nesse processo, destacam-se as inovações tecnológicas baseadas em novos materiais (aços, ligas metálicas, plásticos, fibras de carbono, etc.) e, sobretudo, em eletrônica, semicondutores e tecnologias da informação embarcadas nos veículos. Para ter-se uma ideia do ritmo de adoção de inovações nestes últimos segmentos, diferentes estudos apontam que, em 2000, os componentes eletrônicos respondiam por 10% do custo do veículo, passando para 20% em 2008, e estima-se que atinjam 40% até 2015.

Para as maiores empresas de autopeças, em sua maior parte composta por multinacionais produzindo como “sistemistas” de primeiro nível das montadoras, essa lógica de concorrência oferece dificuldades relativamente menores. Entretanto, para as empresas de pequeno e médio portes que atuam como fornecedores de segundo e terceiro níveis, esse jogo de mercado é problemático, pois requer um maior esforço relativo de investimento em capacitações para inovar. Portanto, a dificuldade das empresas em se manterem na fronteira tecnológica do setor automotivo e em concorrerem contra a produção externa também ajuda a explicar a perda de densidade nessa cadeia de produção e parte da entrada de importações de autopeças no País.

O novo regime automotivo, porém, pode contribuir para atenuar o processo de desindustrialização na produção de autopeças. A imposição de uma sobretaxa de 30 pontos percentuais sobre veículos importados de fora do Mercosul, além da concessão de benefícios para fomentar a produção local, com taxa de nacionalização mínima de 65%, possui dois impactos imediatos sobre esse processo. Por um lado, diminui a entrada de veículos importados, o que reduz o volume de autopeças requerido para abastecer o mercado de reposição. Por outro lado, torna a demanda por autopeças nacionais menos suscetível às variações cambiais, devido à necessidade de nacionalização da produção das montadoras. Além disso, os requisitos de gastos em P&D, em engenharia e em tecnologia industrial básica podem transbordar ao longo da cadeia automotiva, facilitando o processo de aprendizado tecnológico no setor.

Entretanto apenas as medidas constantes no novo regime automotivo não bastam. Fazem-se necessárias ações adicionais de política industrial e de ciência e tecnologia que promovam a criação e o fortalecimento dos mecanismos de fomento ao desenvolvimento tecnológico e do sistema nacional de inovação. Também é importante que as empresas se adaptem às novas condições impostas pelo mercado, passando a desenvolver capacitações para acompanhar o ritmo de desenvolvimento de novas tecnologias nos veículos.

Desindustrialização no setor de autopeças e o novo regime automotivo

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