Desaceleração da demanda doméstica

Os dados sobre o crescimento econômico demonstram que, no período 2000-10, a economia brasileira apresentou desempenho superior ao das décadas de 80 e 90. Os dados disponibilizados recentemente (referentes ao primeiro trimestre de 2012) reforçam, entretanto, as dúvidas sobre a possibilidade de se retomar um ciclo de crescimento com intensidade e duração semelhantes aos registrados antes dos eventos mais críticos da crise financeira internacional de 2008. Nas linhas que se seguem, analisa-se o crescimento da oferta agregada (PIB mais importações) nos últimos 10 anos, assumindo-se que este seja determinado pelo crescimento dos componentes da demanda agregada (doméstica mais exportações).

A taxa média de crescimento do PIB no período 2002-11 foi de 3,8%. Em termos acumulados, a oferta agregada cresceu 56% nesse mesmo período. A contribuição do PIB para esse crescimento foi de 39,3%, e a contribuição das importações foi de 16,7%. Pelo lado da demanda agregada, observa-se que a contribuição da demanda doméstica (47,7%) foi muito superior à contribuição das exportações (8,3%). Esses dados confirmam, portanto, a ideia corrente de que o crescimento da economia brasileira é liderado pelo mercado interno.

Esse padrão não é, entretanto, homogêneo ao longo de todo o período. Considerando-se apenas os dois primeiros anos (2002 e 2003), o dinamismo das exportações contribuiu mais intensamente para o crescimento da demanda agregada. Tal constatação levou alguns analistas a sugerirem que a economia brasileira teria “ensaiado” um crescimento liderado pelas exportações, posteriormente interrompido pelo processo de valorização cambial e cedendo lugar a um regime de crescimento liderado pelo mercado interno. A contribuição negativa da demanda doméstica para o crescimento da demanda agregada e o baixo crescimento do PIB no período sugerem, entretanto, que as exportações apenas compensaram uma demanda doméstica fortemente deprimida.

A análise do subperíodo seguinte (2004-08) mostra como foi decisivo o papel do mercado doméstico. Nesses cinco anos, a taxa de crescimento do PIB acelerou-se para uma média de 4,8% ao ano, e a demanda agregada cresceu 34,6% em termos acumulados. A contribuição das exportações para esse crescimento (5,5%) foi muito inferior à contribuição da demanda doméstica (29%). Observando-se os dados com periodicidade trimestral, percebe-se uma contribuição constante do consumo privado e uma contribuição crescente da formação bruta de capital fixo para o crescimento da demanda doméstica no período. Tal padrão sugere que a progressiva aceleração do crescimento induziu à ampliação da capacidade produtiva. Por fim, mas não menos importante, observa-se, no período 2004-08, uma significativa e crescente contribuição das importações para o crescimento da oferta agregada. A grande semelhança entre o comportamento da contribuição das importações para o crescimento da oferta agregada e a contribuição da formação bruta de capital fixo para o crescimento da demanda agregada indica que o conteúdo importado dos investimentos foi extremamente elevado na economia brasileira, nesse período.

Os efeitos da crise internacional do final de 2008 foram registrados em 2009. Nesse ano, houve retração do PIB de 0,3% e retração de 1,2% na oferta agregada e na demanda agregada. Do lado da demanda, as contribuições negativas das exportações (-1,1%) e da formação bruta de capital fixo (-1,1%) tiveram seus efeitos recessivos atenuados pela contribuição positiva do consumo privado (2,3%) e do consumo da administração pública (0,6%). Esses dados sugerem um resultado positivo das medidas anticíclicas de política econômica adotadas ao longo daquele ano, evitando-se uma queda mais intensa da atividade econômica.

Considerando-se os anos mais recentes, observou-se, em 2010, uma expressiva recuperação, com crescimento do PIB de 7,5%, seguida de nova desaceleração em 2011, ano em que o PIB cresceu apenas 2,7%. Novamente, as exportações contribuíram com uma parcela muito pequena para o crescimento da demanda agregada, e a desaceleração do último ano deriva, fundamentalmente, da menor taxa de crescimento do mercado doméstico em 2011 na comparação com 2010.

Nesse quadro, a orientação recente da política monetária, que parece buscar uma redução do diferencial de juros, poderá contribuir para a manutenção de uma taxa de câmbio mais competitiva e, por essa via, conter a perda de competitividade das exportações brasileiras. Caso prevaleça, entretanto, a concepção de que a redução da taxa básica de juros está condicionada à manutenção de uma política fiscal mais “austera”, então a política econômica estaria encaminhando a solução de um problema ao mesmo tempo em que cria outro. Ainda que o crescimento das exportações seja central do ponto de vista da sustentabilidade das condições externas (ver Carta de Conjuntura FEE, ano 20, n. 10), os dados aqui apresentados sugerem que, dificilmente, isso será suficiente para retomar o crescimento. Para tanto, será necessário retomar o crescimento da demanda doméstica e, nas atuais circunstâncias, isso parece depender, sobretudo, de uma orientação mais expansionista da política fiscal.

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