Crise e ajuste na indústria gaúcha

A crise que assolou a economia gaúcha em 2005 tem perpetuado os seus efeitos ao longo de 2006. Apesar dos indicadores de recuperação da safra agrícola neste último ano (Carta de Conjuntura FEE, ano 15, n. 8), a recuperação da produção industrial não tem sido observada. Assim, no primeiro semestre deste ano, a produção física acumulada da indústria de transformação esteve 3,9% abaixo da produção do mesmo período do ano passado, enquanto a indústria brasileira apresentou um crescimento de 2,6%.

Taxa de variação da produção física, do pessoal ocupado, da produtividade e da folha de pagamento (FP) real na indústria de transformação do RS — 2002/06

FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE/PIMES.
(1) Taxa do período jan.-jun./06 em relação ao mesmo período do ano anterior.

Embora os movimentos da indústria gaúcha e da brasileira estejam aparentemente divergentes, o fato é que a crise estadual reflete, em grande parte, a desaceleração da indústria nacional, que se tem verificado desde março de 2005. Quando analisados os ciclos da produção física desses dois parques industriais, verifica-se que os mesmos se encontram em perfeita sintonia, refletindo o grau de integração da economia gaúcha à nacional. O diferencial de crescimento entre ambos, em 2005 e 2006, no entanto, deve ser buscado no grau de especialização do parque industrial do Estado, que o tornou extremamente vulnerável à valorização cambial e à estiagem de 2005. Esses fatores, em conjunto, resultaram na queda da produção das indústrias de calçados e artigos de couro, fumo e máquinas e equipamentos, as quais, nos últimos 12 meses, acumularam taxas negativas de 11,5%, 5,9% e 18,2% respectivamente. Na indústria de máquinas e equipamentos, fica evidente não só a permanência dos efeitos da estiagem e da taxa de câmbio, mas também os efeitos da crise que tem afetado a agricultura brasileira desde 2005.

Os destaques positivos do primeiro semestre ficaram com as indústrias de alimentos (4,5%), bebidas (6,0%), celulose e papel (4,2%) e borracha e plástico (4,74%). Tais setores vêm acompanhando o lento aquecimento do mercado interno brasileiro, o qual se tem manifestado nas recorrentes taxas positivas de crescimento do consumo das famílias.

Uma das conseqüências desse cenário é a queda do índice do pessoal ocupado assalariado, a qual já havia começado a se manifestar em 2004, mas acentuou-se consideravelmente em 2005 e continua em 2006. Tomando-se os seis primeiros meses do ano, verifica-se que o emprego industrial sofreu um decréscimo de 9,1% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os setores que têm liderado as demissões em 2006 são os de calçados e couro (-21,1%), madeira (-16,9%), vestuário (-12,4%) e máquinas e equipamentos (-10,5%).

Como resultado desse processo, o valor real da folha de pagamento da indústria de transformação tem apresentado taxas negativas de crescimento nestes dois últimos anos. Apesar desse movimento, o valor da folha de pagamento por trabalhador indicou crescimento real particularmente elevado em 2004 e 2005 e relativamente menor no primeiro semestre de 2006.

O movimento de queda da produção, associado a um aumento do salário real dos trabalhadores, tem sido possível em virtude dos ganhos de produtividade do parque industrial, que vêm ocorrendo desde 2002. Embora tal crescimento não tenha sido muito acentuado em 2005, nos seis primeiros meses de 2006, o mesmo foi de 5,7%. Portanto, incrementos na produtividade figuram como um componente central no processo de adaptação do parque industrial gaúcho à crise econômica. Tal incremento, no entanto, ao invés de estar associado ao crescimento da produção, tem ocorrido à custa do emprego industrial.

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