As taxas de juros norte-americanas e a economia brasileira

Recentemente, tem-se difundido a idéia de que a economia brasileira iniciou prolongado período de expansão. Os que crêem na idéia a explicam através da austeridade monetária imposta desde 1994 e da conquista, nos últimos anos, de uma suposta capacitação fiscal para controlar a dívida pública do País. Isso e a adoção do regime de câmbio flutuante teriam viabilizado a taxa real de câmbio, responsável pelos gigantescos superávits comerciais verificados desde 2003. Teriam, assim, tornado factíveis a estabilização da moeda nacional, o controle da inflação, a redução dos juros, a expansão dos investimentos privados e o crescimento econômico duradouro.

O presente dinamismo do comércio e do fluxo de capitais em escala mundial é visto como mero catalizador de processo de crescimento econômico no Brasil, cujos fundamentos são a austeridade monetária, a capacitação fiscal e o regime de câmbio citados.

A idéia descrita corre o risco de ser questionada pela realidade. Em 2002, a economia norte-americana iniciou sua recuperação embasada em baixas taxas de juros básicas, nos EUA. Com isso, estimularam-se o comércio e o fluxo internacional de capitais. Daí resultou um ambiente de fácil crescimento econômico em todo o mundo.

Contudo, à recuperação norte-americana, sucedeu-se uma rápida aceleração inflacionária, e as taxas anuais básicas de juros daquele país foram aumentadas de 1% para 5% nos 24 meses posteriores a maio de 2004. A elevação dos juros redundou em nova desaceleração produtiva nos EUA, desde o final de 2004, e em perda do dinamismo do comércio internacional no início de 2005. Em maio de 2006, começaram a surgir os primeiros sinais da retração da liquidez internacional, com os indicadores de riscos dos países emergentes, inclusive o do Brasil, infletindo para direção ascensional.

Por período considerável, os juros norte-americanos permanecerão elevados, se não expansivos, o que sugere a possibilidade de agravamento da conjuntura econômica internacional. Nesse caso, o Brasil deparar-se-ia com crescentes dificuldades para expandir suas exportações, já em desaceleração desde a perda de dinamismo recente do comércio internacional. Também o fluxo de capitais para o País diminuiria, devido às mais intensas resistências em dirigir recursos a países em desenvolvimento, em épocas de menor liquidez internacional.

Em decorrência da dependência brasileira aos juros e ao produto internacionais, pode impor-se um movimento ascensional da taxa de câmbio no Brasil. Nessas condições de reduzido dinamismo do comércio internacional, é improvável que a recuperação das taxas de câmbio promova significativa expansão das exportações. Assim acontecendo, novas rodadas de desvalorização cambial serão verificadas, com efeitos deletérios sobre a elevação da inflação, os juros internos, a dívida pública, o investimento privado e o crescimento econômico no futuro próximo. É isso que coloca em xeque a idéia de que o País, conquistou, de fato, os fundamentos do crescimento econômico duradouro.

As taxas de juros norte-americanas e a economia brasileira

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