As relações Brasil e Estados Unidos no segundo mandato de Dilma Rousseff

O Brasil adotou uma política externa pragmática nos últimos 12 anos. Essa característica assemelha-se à política externa dos países desenvolvidos, no sentido de ampliar suas relações diplomáticas, visando ao fomento dos interesses domésticos e externos do País, independentemente da posição político-ideológica de seus parceiros. Tal abordagem aproxima-se daquela dos Presidentes Generais Ernesto Geisel e João Figueiredo, em que as relações com o Oriente não significavam, necessariamente, um distanciamento das relações consolidadas com o Ocidente, em especial com Estados Unidos e Europa. No Governo Dilma, porém, as relações do Brasil com os EUA tornaram-se mais complexas, devido às questões pertinentes à economia mundial e à diplomacia entre os países.
Em 2013, no campo diplomático, as atividades de espionagem da National Security Agency (NSA) no Brasil levaram a Presidente Dilma a criticar fortemente as ações dos Estados Unidos e fizeram com que sua viagem à Washington, naquele mesmo ano, fosse cancelada.
Na seara econômica, a Presidente teve de lidar com cenário econômico muito mais adverso do que de seu antecessor. Durante os dois mandatos do Governo Lula, a alta liquidez da economia mundial favoreceu a inserção comercial e política do Brasil em âmbito internacional. Já no primeiro mandato de Rousseff, a desaceleração global da economia tornou-se um complicador para as ambições diplomáticas do Brasil, na medida em que temas políticos e econômicos de ordem doméstica passaram a dominar a agenda da Presidente.
Em que pesem as dificuldades do primeiro mandato, a presença do Vice-Presidente norte-americano, Joe Biden, na cerimônia de posse do segundo mandato de Dilma Rousseff sinalizou uma desejável reaproximação. Vale ressaltar que a última vez em que um vice-presidente daquele país esteve presente em uma cerimônia de posse, no Brasil, foi em 1990. Dessa forma, os interesses convergentes nas relações Brasil-EUA podem ser resumidos no incremento do investimento e do comércio bilateral e na articulação política entre os dois países, no sentido de resguardarem seus respectivos interesses no continente americano.
Nesse sentido, os recentes sinais de aproximação entre Estados Unidos e Cuba, a liderança brasileira da missão de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti e a situação política e econômica da Venezuela têm potencial para se tornarem ponto de partida desse novo contexto das relações entre os dois países.
A situação na Venezuela é uma preocupação para ambas as nações, por se tratar de um grande importador; por ser um grande exportador de petróleo; e pelo potencial grau de desestabilização política que representa. A questão venezuelana influi nas atividades do narcotráfico, nos países amazônicos, em especial na Colômbia — país estratégico para a política norte-americana de combate ao tráfico internacional de droga. Desse modo, percebe-se a aproximação entre Brasília e Caracas como algo que possa interessar ao governo de Washington.
No que diz respeito ao Haiti, apesar das controvérsias envolvendo o tema, a presença brasileira no país centro-americano pode ser interpretada como exercício do softpower brasileiro. Ainda que oscilem, os índices de aprovação da presença verde-amarela naquele país são positivos, tanto do ponto de vista da população local como dos demais países da região. Além de projetar o Brasil internacionalmente, a missão da ONU “desobriga” os norte-americanos de uma tarefa que, provavelmente, lhes seria atribuída. Nesse sentido, a permanência, ou mesmo o fim da missão no Haiti, previsto para 2016, é um tema que demandará uma articulação da diplomacia brasileira junto ao governo dos EUA.
Já a aproximação diplomática e comercial entre Brasil e Estados Unidos amplia o leque de possibilidades de negócios brasileiros na América Central. O volume de investimentos que vem sendo empreendido na consolidação da região como um importante hub logístico do comércio internacional, em função das ampliações das capacidades do Canal do Panamá, da construção de um novo canal na Nicarágua e da construção do Porto de Mariel, em Cuba (financiado com recursos do BNDES), aumenta o espaço para novas empresas brasileiras operarem na região. Adicionalmente, tanto o Brasil quanto os Estados Unidos podem capitalizar, em benefício próprio, as sólidas relações entre Brasília e Havana no recente processo de retomada das relações diplomáticas e comerciais entre Cuba e EUA.
Além das questões conjunturais que favorecem o fomento das relações entre o Brasil e EUA, busca-se a recuperação dos fluxos de comércio e investimento entre o Brasil e os principais países do hemisfério americano. De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, em 2009 a China tomou a posição dos EUA como principal destino das exportações brasileiras. A partir de 2011, percebe-se a relativa manutenção do valor das exportações brasileiras para os Estados Unidos e queda para seus principais parceiros, especialmente a Argentina e a Venezuela.
Ainda que o atual cenário de recuperação da economia norte-americana seja modesto, as relações entre Brasil e Estados Unidos podem ser instrumentalizadas, no sentido de ampliar, no médio-longo prazo, as oportunidades para o incremento das exportações brasileiras na região. Ademais, aos olhos dos investidores internacionais, a aproximação entre Brasília e Washington poderia ser interpretada como sinal do comprometimento político da Administração Dilma Rousseff com o programa de ajustes econômicos pelo qual passa a economia brasileira.
Embora os ganhos econômicos sejam limitados, o fortalecimento político da relação Brasil-EUA pavimenta, em alguma medida, o caminho para consolidar o protagonismo brasileiro nos âmbitos regional e global. Percebe-se, então, a necessidade de a diplomacia da Presidente Dilma Rousseff aproveitar o atual contexto para estreitar as relações com os Estados Unidos. Isso em nada compromete os ganhos alcançados por meio das parcerias estratégicas já estabelecidas pela diplomacia brasileira no marco de suas relações sul-sul, nos últimos anos.

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