As fraudes corporativas e a poupança norte-americana

Como os norte-americanos podem ter confiança no mercado acionário e em seu país quando tudo parece ser uma grande fraude? Essa pergunta feita por um senador democrata no Financial Times, em 29 de julho, pareceria aos menos avisados completamente sem sentido até dezembro de 2001. Naquele mês, os problemas contábeis da maior empresa do setor de comércio de energia, a Enron, tornaram-se públicos, levando as famílias norte-americanas a se perguntarem sobre a sorte de sua poupança, cada vez mais ligada ao comportamento das Bolsas em um contexto de endividamento crescente.

Durante 2002, os casos de “contabilidade criativa” — que consistiam, na verdade, em diferentes formas de criação de falsas receitas, ao mesmo tempo em que escondiam o endividamento das empresas, alterando, assim, os lucros obtidos e suas perspectivas futuras, com influência imediata sobre o valor de mercado das ações — rapidamente se mostraram uma prática quase generalizada no mundo corporativo do país, atingindo empresas de uma ampla gama de setores, como a energia (Enron), as telecomunicações (WorldCom, Global Crossing, Tyco e Qwest), a mídia (Adelphia e Aol/TimeWarner) e a farmacêutica (Merck).

Assim, em julho de 2002, os executivos de 947 corporações norte-americanas estão sendo obrigados a confirmar a exatidão dos últimos registros contábeis de suas empresas junto à Securities and Exchange Commission (SEC), em uma tentativa de tranqüilizar os investidores lesados em sua confiança. Ao mesmo tempo, a legislação sobre o tema está sendo abruptamente reforçada após duas décadas de desregulamentação continuada. Para complicar ainda mais as coisas, na medida em que avançam as investigações sobre essas fraudes, torna-se cada vez mais claro que elas somente puderam ser realizadas com a conivência e a participação ativa de consultorias, auditorias e bancos de investimento, funções que se encontram, muitas vezes, reunidas em uma única empresa financeira.

Em um contexto de concentração das decisões em mãos de poucos atores relevantes, o ambiente extremamente competitivo revelou-se um grande estímulo à fraude. A apresentação de um resultado aquém do consenso do “mercado” representava para os executivos um grande risco de demissão e, até mesmo, de execração pública na poderosa imprensa especializada, enquanto o desempenho acima da média era premiado com uma remuneração milionária em opções de ações — não contabilizadas como despesas após 1994 —, as quais, acreditava-se, acoplariam os interesses dos executivos aos interesses dos acionistas.

A competência gerencial era exclusivamente medida pela capacidade de “criação de valor para o acionista” em curto prazo, distorções com esse objetivo sendo socialmente aceitas e estimuladas pela sociedade norte-americana ao longo das últimas duas décadas. Desse modo, o endividamento bancário das corporações para a recompra de ações, visando aumentar, artificialmente, os dividendos dos títulos que permaneciam no mercado, e as fusões de empresas com sentido de valorização acionária foram práticas correntes; no entanto, saudadas por todos os atores envolvidos em nome de duvidosas “sinergias” e “oportunidades”.

A fraude contábil constitui um recurso desesperado com o mesmo objetivo, em um momento no qual a facilidade de obtenção de novos créditos e de resultados “legítimos” foi minada pela retração no ritmo da atividade econômica e pela queda abrupta no preço das ações que representavam a “nova economia”. A quebra de confiança do público na governança corporativa voltada para os acionistas mostra os limites e os perigos de um comando exclusivamente financeiro das grandes corporações.

As fraudes corporativas e a poupança norte-americana

Compartilhe