As exportações e o espaço para o crescimento

Assim como os demais países da América Latina, o Brasil tem apresentado uma situação relativamente confortável do ponto de vista de suas contas externas, mesmo após a crise financeira de 2008. As reservas cambiais, que, atualmente, ultrapassam US$ 370 bilhões (montante 11 vezes superior ao estoque de dívida externa de curto prazo), configuram uma robusta posição em termos de liquidez externa. Apesar de registrar déficits em transações correntes (TC) desde o final de 2007, até meados de 2012 estes vinham oscilando em torno de 20% do valor das exportações de bens e serviços, caracterizando uma posição relativamente tranquila também sob o ponto de vista das condições de solvência externa. Pelo lado do movimento de capitais, desde o terceiro trimestre de 2010, a entrada de investimento direto externo (IDE) vinha sendo suficiente para financiar sozinha o déficit em transações correntes.

Os dados relativos ao primeiro trimestre de 2013 mostram, entretanto, uma deterioração relativamente rápida do saldo em transações correntes. O déficit próximo a US$ 25 bilhões implicou uma piora significativa na posição de solvência, uma vez que corresponde a cerca de 40% das exportações de bens e serviços. Nesse mesmo trimestre, o saldo positivo do IDE financiou apenas 40% do saldo negativo em TC. No imediato, essa modificação não implicou maiores problemas, visto que o restante do déficit foi financiado pela entrada líquida de investimento em carteira e pelo saldo positivo na conta “outros investimentos”, resultando em um saldo positivo de aproximadamente US$ 6 bilhões no balanço de pagamentos global.

Desagregando o resultado das transações correntes, pode-se observar que a referida deterioração não resultou do movimento das importações de bens e serviços, nem do saldo do balanço de rendas, mas do comportamento das exportações. Após atingir um pico superior a US$ 80 bilhões no terceiro trimestre de 2011, a receita com bens e serviços exportados passou a apresentar uma tendência declinante, atingindo pouco mais de US$ 60 bilhões no primeiro trimestre de 2013. De acordo com os índices de preços e volumes exportados divulgados pela FEE, o movimento de redução do valor exportado pela economia brasileira deveu-se, sobretudo, à retração dos volumes exportados, ainda que tenha havido também um movimento desfavorável dos preços das exportações.

A análise dos componentes do crescimento da demanda agregada mostra que não se pode atribuir a este movimento das exportações o papel decisivo na desaceleração do crescimento do PIB, em curso desde 2011. Como é recorrente na economia brasileira, o desempenho medíocre do crescimento em 2012 deve-se fundamentalmente à dinâmica do mercado doméstico. No que diz respeito ao equacionamento das contas externas, entretanto, o movimento das exportações tem sempre um papel muito mais decisivo.

De um modo geral, esse desempenho recente das exportações e a deterioração das transações correntes não modificaram uma posição ainda robusta da economia brasileira com respeito às suas condições externas. Convém, entretanto, seguir acompanhando com muita atenção os resultados das contas externas, em conjunto com as medidas de política econômica. O cenário que se desenha no plano doméstico, associado a uma persistência desse desempenho ruim das exportações, poderá implicar um padrão de crescente fragilidade das contas externas.

Devido ao calendário eleitoral e aos grandes eventos esportivos programados, pode-se esperar uma retomada dos gastos públicos e um crescimento mais intenso do mercado doméstico ao longo de 2013 e 2014. Em conjunto com um recém iniciado ciclo de elevação da taxa básica de juros, que poderá resultar em alguma revalorização da taxa de câmbio, o aquecimento do mercado doméstico tenderia a pressionar o resultado em transações correntes também pela via de um maior crescimento das importações.

Ainda que persista a ampla disponibilidade de acesso aos capitais externos, permitindo o financiamento de um déficit em transações correntes ainda maior, as exportações são, em última instância, a fonte de divisas estrangeiras que permite a cobertura dos serviços futuros do passivo externo acumulado. Considerando um prazo mais longo, portanto, a própria capacidade de absorver o capital externo depende do desempenho das exportações.

A crítica que parece mais importante e central com respeito à orientação da política econômica do Governo Dilma Rousseff está relacionada com a constatação de que este não aproveitou adequadamente as boas condições externas dos dois primeiros anos do mandato, no que diz respeito ao crescimento econômico. Teria sido possível, com uma política fiscal mais expansionista, manter uma taxa de crescimento mais elevada sem problemas significativos no plano externo. Se o desempenho recente das exportações se revelar apenas conjuntural, essa opção permanecerá aberta. Caso contrário, o espaço para uma política econômica mais comprometida com o crescimento da demanda doméstica será progressivamente reduzido.

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