Após dois anos em queda, PIB cresce 0,98% em 2017: acabou a crise?

No início deste mês, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou as contas nacionais de 2017, que apontaram para uma taxa de crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB) de quase 1%. Governo e meios de comunicação saudaram o resultado como demonstração de que o País saiu da crise. Uma conclusão impositiva se tomarmos a questão de uma perspectiva estritamente empírico-formal. Tal como pode ser observado na segunda coluna da tabela, o PIB apresentou crescimento ao longo de todo o ano, do primeiro ao quarto trimestre. Comparada à queda dos dois anos anteriores, a performance de 2017 merece ser saudada.

Não obstante, seria um equívoco inferir a dinâmica de 2018 da performance de 2017. É preciso analisar com muito cuidado as informações divulgadas pelo IBGE, com atenção à evolução da dinâmica dos quatro trimestres de 2017. Na parte interior da tabela, observamos que o PIB cresceu 1,3% no primeiro trimestre, 0,58% no segundo, 0,24% no terceiro trimestre e 0,05% no quarto, ou seja, a economia vem crescendo a taxas decrescentes!

Se olharmos para a performance dos componentes da demanda agregada, entenderemos este peculiar — e preocupante — dinamismo da economia nacional. No primeiro trimestre, o Consumo das Famílias (CF) e o Consumo do Governo (CG) ficou praticamente estagnado (variaram meros 0,18% e -0,13% respectivamente), enquanto a Formação Bruta de Capital Fixo (FBKF) caiu 0,56%. O resultado positivo adveio da extraordinária safra agrícola, que alavancou as exportações (X) com um crescimento de 5,83%. No segundo trimestre, as exportações cresceram mais uma vez frente ao trimestre anterior, e as importações caíram, ampliando o superávit da Balança Comercial (BC).

Mas, no segundo trimestre, foi o CF que apresentou a maior taxa de crescimento entre as variáveis de despesa (1,15%). Esse movimento parece estar associado à elevação dos rendimentos reais da população ocupada (penúltima coluna) a uma taxa pouco superior a 2% nos primeiros trimestres de 2017. Vale observar que as informações sobre a evolução da renda dos ocupados e sobre a taxa de desemprego tem por base a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), inteiramente baseada nas declarações dos entrevistados. Tal fato dificulta a interpretação de alguns resultados, mas é digno de nota que, em contraste com anos anteriores, os entrevistados, em 2017, declararam sistematicamente que os rendimentos efetivamente auferidos ao longo do ano superaram os rendimentos normais da atividade. Aparentemente, a “anomalia” está ligada a três determinações: (a) a supersafra agrícola; (b) a liberação dos saldos inativos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS); e (c) a queda — gradual e discreta — do desemprego nos três primeiros trimestres. Os dois primeiros fatores não são recorrentes nem cumulativos e não devem se repetir em 2018, mas o mais preocupante é o último fator: tal como podemos observar na última célula da última coluna, a taxa de desemprego parou de cair no quarto trimestre de 2017, e o desemprego estagnou em um patamar elevado: 12,2% da força de trabalho.

Ainda mais preocupante do que a performance do consumo é a evolução recente das exportações e da BC. A crise recente teve início no primeiro trimestre de 2015. Ao longo dos 11 trimestres seguintes (até o terceiro de 2017), as exportações cresceram 14,53% em valor, e as importações decresceram 13,72%. Esse movimento, no entanto, sofreu uma inversão a partir de 2017, quando as importações passaram a crescer de forma mais rápida do que as exportações, deprimindo o saldo comercial do terceiro e do quarto trimestre em relação aos imediatamente anteriores. Essa performance perversa parece estar relacionada com a inversão da política monetário-cambial na passagem do segundo Governo Dilma para o Governo Temer. Entre janeiro de 2015 e junho de 2016, o real passou por uma desvalorização efetiva (descontado diferencial de inflação) de 30,29% em relação ao dólar. Entre julho de 2016 e dezembro de 2017, o real voltou a valorizar-se (12,36% em relação ao dólar e 17,31% em relação ao renminbi). Evidentemente, a taxa de câmbio não é o único determinante do saldo comercial e da performance das exportações e importações, mas é um componente importante, especialmente quando os países (potencialmente) importadores voltam a crescer. Foi justamente isso que ocorreu no ano passado. Entre as 45 maiores economias do mundo — responsáveis por 85% do PIB global —, o Brasil do “1%” foi o país que apresentou a menor taxa de crescimento (vide estudo da Austin Rating sobre o tema, disponível na internet).

Não pode haver surpresa, portanto, no crescimento pífio do último trimestre. A única surpresa encontra-se no fato do crescimento de 0,05% do período ter sido puxado pela FBKF (variação positiva de 1,96%) e do CG (variação de 0,18%). Esses componentes de demanda, contudo, devem voltar a cair. No que diz respeito ao CG, por imposição da nova agenda fiscal associada à PEC do Teto. No que diz respeito à FBKF, em função da elevada capacidade ociosa e do menor crescimento do CF e das X. Em suma: parece que ainda é muito cedo para festejar o fim da crise. Mesmo se abstraindo da grave crise política e expectacional em relação à qual ainda nos encontramos submetidos, o horizonte estritamente econômico continua envolto em brumas.

Compartilhe