Agronegócio gaúcho. Gaúcho?

Os dados consolidados sobre fusões e aquisições no agronegócio brasileiro revelam que, desde 1996, foram adquiridas, ou passaram para o controle do capital internacional, 21 empresas gaúchas nas várias indústrias do setor (agroquímica, máquinas e equipamentos agrícolas, beneficiamento e distribuição da produção agropecuária), mais de três empresas/ano. Essa vaga de desnacionalização não se refere a negócios quaisquer: a maioria das empresas envolvidas figurava, em 1996, na lista das maiores empresas sul-rio-grandenses nas respectivas indústrias, e muitas, no rol das principais do Estado. Só neste ano, já ocorreram duas novas operações: o grupo OSI, norte–americano, adquiriu o frigorífico e a marca Pena Branca; o TCW-Laep, fundo de investimento dos EUA, comprou parte da indústria Helmuth Tesmann e sua marca Pai João.

À parte considerações sobre benefícios, custos e razões da alienação patrimonial, há de se ter presente que a parcela mais importante do agronegócio estadual se transnacionalizou, tornando impróprio designar tal setor da economia como gaúcho, ao se considerar a propriedade jurídica e o controle do capital. A internacionalização acelerou, ademais, o processo de reorganização industrial que já vinha acontecendo no Estado. A entrada da empresa internacional, via aquisição, aumenta rapidamente a concentração e universaliza o padrão de produção voltado à segmentação do mercado; sepulta a empresa familiar; cria novas ocupações e redefine as qualificações da mão-de-obra; e introduz a empresa em uma nova arena de competição, que se desenvolve, internacionalmente, entre escritórios, plantas e empresas do grupo. Seu futuro passa a ser decidido por uma burocracia instalada no escritório central (head office), em função dos resultados alcançados e esperados comparativamente ao conjunto das partes e das estratégias de mais longo prazo do grupo, conforme têm demonstrado estudos como o da pesquisadora Leslie Hannah. Isso explica por que as transnacionais adquirem empresas e as fecham, despedem mão-de-obra, mudam a localização de plantas, redefinem funções para as empresas adquiridas no contexto do grupo, terceirizam atividades, compram ou vendem partes das empresas.

Em suma, a transnacionalização tem profundos desdobramentos, que transcendem a esfera econômica, projetando-se no domínio político, sociológico e cultural. A compreensão da importância de tais desdobramentos é fundamental para os governos e para todos aqueles que acreditam que os Estados nacionais ainda têm sua razão de ser, cabendo a seus governos um papel insubstituível no desenvolvimento do país, mesmo em um mundo globalizado.

Agronegócio gaúcho. Gaúcho

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