A indústria agroalimentar em processo de ajuste

Os números relativos à evolução da produção física da indústria de alimentos no primeiro semestre de 2003, em comparação com igual período do ano passado, mostram uma ligeira retração do nível da atividade no Brasil (-0,5%) e uma queda importante no Rio Grande do Sul (-2,4%).

Ao mesmo tempo, o volume de vendas das principais empresas de distribuição de alimentos nos grandes centros de consumo, isto é, nos super e hipermercados, cai expressivamente no Brasil (-6,04%) e, mais ainda, no Rio Grande do Sul (-8,86%), segundo o IBGE.

Em qualquer caso, o declínio dos negócios no grande comércio varejista está associado à piora dos rendimentos do trabalho, bem como à manutenção de elevadas taxas de desocupação da mão-de-obra no período, e pode explicar o desempenho da indústria processadora de alimentos. Não fossem as condições muito favoráveis do mercado externo para segmentos importantes dessa agroindústria, quer dizer, se dependessem apenas do mercado interno, muito provavelmente os resultados seriam ainda piores, como sinalizam os apurados para os supermercados. E isso é tão mais verdadeiro quanto maior a importância do mercado doméstico para as empresas.

É importante notar que os resultados negativos da indústria gaúcha de alimentos no semestre fazem parte de um processo mais longo de perda de dinamismo da atividade, que já dura, pelo menos, quatro anos seguidos. No Brasil, o quadro é diferente no que diz respeito à tendência de crescimento, pois há indícios de uma lenta recuperação do setor.

Seja como for, o fato é que, desde 2002, as empresas líderes do setor, as grandes empresas nacionais e transnacionais, estão envolvidas em um importante processo de reorganização institucional associada a uma estratégia de ajuste que segue três linhas principais: reorganização da pauta de produção, do destino geográfico dos mercados e dos ativos patrimoniais.

Pode-se constatar que, nesse período, as empresas se tornaram muito seletivas tanto no lançamento de novos produtos de maior valor agregado quanto na manutenção da linha de produtos com a qual vinham operando. Além disso, introduziram uma segmentação profunda na oferta em função do perfil de renda dos consumidores: para os de baixa renda, produtos mais simples, de menor valor agregado, com embalagens econômicas, sem venda de marca, que chegam aos consumidores, por exemplo, sob o rótulo de “marca própria” dos supermercados; para os de maior poder aquisitivo, continua  valendo o padrão de crescimento anterior, baseado no lançamento de produtos novos e de mais alto valor agregado. Ora, isso significa uma reversão das expectativas anteriores, que apostavam no crescimento do mercado de produtos relativamente sofisticados mediante a incorporação progressiva de consumidores de menor renda, na democratização, enfim, do consumo alimentar diferenciado.

Outra estratégia importante de ajuste consiste em buscar uma maior inserção internacional, notando-se, claramente, o esforço exportador por parte das empresas. Algumas delas saíram em busca de parcerias com tradings e indústrias transnacionais para se posicionarem nos mercados consumidores externos.

Finalmente, a estratégia de ajuste contemplou a reestruturação dos ativos das firmas, através do fechamento, do arrendamento e da venda de fábricas e marcas. Desses arranjos, pode emergir um setor industrial ainda mais concentrado, com as empresas operando em níveis maiores de produtividade.

A indústria agroalimentar em processo de ajuste

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