A crise mundial ainda não terminou

O economista, dentre outras coisas, é um analista e um avaliador. Examina os dados, estuda as forças que atuam sobre a economia, vê o posicionamento do Estado. E avalia. Pois é o que estamos fazendo aqui. Há uma aparência de calma nos noticiários, na mídia, mas há uma tensão na realidade. A crise mundial ainda não terminou. Estamos num mirante privilegiado, o Brasil, onde tudo parece estar bem, onde a economia, brincando de alpinismo, vai chegar a entre 5% e 7% de acréscimo neste ano. Nesse mirante, tende-se a enxergar, a perceber e a avaliar as coisas econômicas mundiais com otimismo. Mas é preciso tirar essas lentes coloridas e ver de perto como a face da realidade tem, como em alguns primeiros planos do cinema, uma parte do rosto clara, outra escura. A clara dá otimismo, a escura faz mistério. E o mistério é que depois da continuada crise norte-americana e da atual crise europeia, contrabalançadas pelo extraordinário crescimento da China e dos emergentes, o ciclo da economia mundial não recomeça e não deixa para trás os maus tempos. Qual o mistério que se esconde atrás da dificuldade de recuperação dessa economia?

No entanto, a economia mundial está mudando. E vai mudar a sua liderança, vai mudar o carro-guia, essa ave condutora da História. Pois é isso que está em causa: trocar a liderança da era econômica do automóvel e do petróleo pela era das novas tecnologias de comunicação e informação. É uma mudança cíclica, é uma mudança na liderança e na estrutura do processo produtivo, é uma mudança no longo prazo da economia capitalista. Pois, quando se muda alguma coisa desse porte na economia, é preciso derrubar paredes, arrumar financiamento, é preciso mudar o Estado, ter instituições que comandem as mudanças, etc. É isso que está impedindo a metamorfose da economia, ou melhor, a rapidez das mudan- ças. É isso que mostra que a economia mundial é ainda uma planta doente. É isso que mostra que o que precisa mudar ainda não mudou e que o que é indispensável aparecer ainda não apareceu. Consideramos, para ver como é necessária a liderança explícita de empresas de telecomunicações e não de bancos, como é fundamental um novo encadeamento de novas indústrias . nanotecnologia, bioeletrônica, ciências médicas, etc. . e, igualmente, substituir a infraestrutura energética da produção. Essas mudanças são estruturais e levam tempo para serem feitas. A troca de padrão de acumulação, que ainda não ocorreu, está-se operando lentamente

No fundo, há que se mudar o que está, no momento, mandando. Trata-se de mudar as finanças de posição. Elas querem que tudo fique como era, visando desenvolver-se livremente no céu da especulação. Então, como é que se faz para as finanças saírem da sala de comando? Também é aqui que tudo se está jogando. As perguntas-chave são: para onde vai o Estado? Quais são o seu novo sentido e a sua nova direção? Antes de tudo, encaminhar as finanças na economia e pela política econômica para um lugar mais adequado, que é financiar as atividades produtivas. E por que as finanças têm que desaparecer do primeiro plano? A economia deve retornar liderança da produção com nova estrutura produtiva. Os ativos podres e o cassino especulativo atrapalham o novo desenvolvimento, o sistema bancário precisa ser convertido para o apoio ao sistema produtivo. Hoje, as finanças funcionam como tranca-rua. Há, portanto, a necessidade de um reforço do Estado, para que este seja capaz de resolver a algazarra no bar da economia. Em alguns lugares, já aconteceu ou está acontecendo: China, Brasil, etc. A mensagem é clara, há que se reposicionar as finanças, a prioridade tem que ser da produção, do investimento e do emprego. Esse é o novo sinal dos tempos.

No plano da retórica, tudo parece fácil, porque falamos de agregados. No nível macro, é simples vislumbrar: muda-se a demanda centrada no consumo, e a economia vai ser puxada pelo investimento. No entanto, tem que haver uma troca de política econômica; tem que se reformatar o Estado; tem que se ter planejamento; tem que se criar, social e novamente, a mentalidade do investimento; tem que se dar novas ênfases na educação para a nova economia que entra; tem que se alterar a hierarquia no Estado; tem que se condicionar o novo crédito, etc. As alterações econômicas são transformações de formas que podem ter passagens longas e difíceis.

A principal cirurgia a fazer tem que ser no DNA da economia e naquilo que Hilferding chamava de a forma financeira do capital. Essa forma tem duas esferas, a financeira e a produtiva, só que contém em si a hegemonia das finanças sobre a produção. Foi o que ocorreu progressivamente de 1979 até 2009. E isso não se troca assim no mais. Mudar a hegemonia passa pela política e, por extensão, passa pelo Estado. E não basta que forças políticas ponham a sua bandeira nele, é preciso que haja uma reformulação técnica e qualitativa na burocracia. É esse andamento da mudança histórica no processo econômico e social que tem uma duração complexa. Pois se trata, em verdade, de construir uma nova dinâmica econômica, o eixo Estados Unidos-China, de onde uma nova ordem internacional do trabalho dará surgimento a um outro processo de acumulação produtiva do capital, onde as finanças encontrarão o seu novo lugar.

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