A crise cambial argentina e suas repercussões no Brasil

As turbulências que atualmente afetam os mercados de alguns países emergentes apontam condições menos favoráveis para os mesmos, em decorrência da redução dos estímulos monetários do Banco Central norte-americano, do crescimento mais lento da economia chinesa e dos preços das commodities em declínio. No entanto, a crise cambial argentina — cujo ápice ocorreu nos dias 23 e 24 de janeiro, elevando a relação peso/dólar de 6,54 em 02.01.2014 para 8,02 em 24.01.2014 — constitui um caso particular, provocado quase exclusivamente pela falta de confiança dos argentinos na política econômica em vigor. Poucos são os investidores internacionais que detêm títulos argentinos nas suas carteiras, pois o default de 2001 nunca foi totalmente solucionado, e uma parte dos credores não aceitou as condições oferecidas, bloqueando o acesso do País ao crédito internacional.

Entre 2003 e 2007, a Argentina — graças a condições internas favoráveis e a um longo ciclo de preços das commodities em ascensão — manteve altas taxas de crescimento com base em dois pilares: equilíbrio fiscal e equilíbrio externo. No entanto, sob os efeitos da crise internacional, do déficit energético — que precisou ser coberto com importações — e das disputas entre pecuaristas e Governo pelos impostos sobre as exportações, o País passou a ter déficits nas áreas fiscal e externa.

Em lugar de fazer ajustes menores quando ainda era possível, o Governo optou por medidas populistas para reduzir pressões inflacionárias, tais como fixar a taxa de câmbio, adotar controles de preços e de capitais e subsidiar a energia, criando distorções insustentáveis. Ao fixar a taxa de câmbio e mascarar a taxa de inflação real, as importações e as despesas com turismo no exterior aumentaram, ao passo que o País perdeu competitividade. Essas mudanças contínuas nas regras do jogo exacerbaram as desconfianças e desestimularam novos investimentos, contribuindo para a fuga de capitais. Assim, por falta de alternativas, a entrada de dólares ficou dependente da exportação do agronegócio. Com a fuga de capitais, as reservas internacionais, que, em dezembro de 2010, atingiram U$S 52,1 bilhões, caíram para U$S 30,6 bilhões em dezembro de 2013 e, no início de fevereiro de 2014, estavam em U$S 27,8 bilhões, tendo uma redução de 53,3% no total do período.

Dadas as dificuldades para a obtenção de financiamento externo, as autoridades optaram por financiar o déficit fiscal via emissão monetária, sem reduzir os subsídios ao transporte e à energia. A emissão de moeda gerou um excesso de oferta de pesos, que reforçou a demanda por dólares, principalmente no mercado paralelo. A distância entre o dólar oficial e o paralelo (que chegou a ficar em torno de 70% antes da desvalorização) reflete o grau de desconfiança da população em relação à moeda local.

A continuar assim, o modelo econômico do Governo Kirchner tem seus dias contados. A desvalorização cambial por si só não será suficiente para reverter a crise e conter a inflação. A queda do PIB argentino parece ser inevitável em 2014. Mesmo assim, o Governo resiste em tomar medidas amargas, pretende conter a saída de reservas e até controlar o ingresso das divisas oriundas das exportações do agronegócio. Uma das medidas aventadas para sair da crise é o aumento da taxa de juros, para tornar atraentes as aplicações em moeda local. Apesar de uma elevação dos juros de curto prazo de, aproximadamente, sete pontos percentuais imediatamente após a maxidesvalorização, as taxas de juros reais continuam negativas, desestimulando a reversão das posições em dólar.

As restrições às importações já são uma constante, mas agora foram redobradas, e as barreiras às compras no exterior e ao turismo continuam em vigor. As empresas argentinas foram solicitadas a buscar financiamento externo para pagar suas obrigações no exterior ou adiar o pagamento aos fornecedores. Essa medida certamente afetará os exportadores brasileiros. É de se esperar uma redução das exportações para aquele país, principalmente no setor automotivo e um aumento das importações dessa origem. Do total de automóveis, tratores e suas partes e acessórios exportados pelo Brasil em 2013, 63,9% foram destinados à Argentina e, do total das exportações brasileiras para aquele país, 45,9% pertenciam a esse grupo de produtos.

Por outra parte, as empresas brasileiras com investimentos na Argentina deverão sofrer com a crise e terão seus lucros reduzidos. Já no campo dos acordos comerciais internacionais, o protecionismo do país vizinho pode interferir, mais uma vez, no andamento das negociações para um acordo de liberalização econômica e comercial entre Mercosul e União Europeia.

Em síntese, dadas as dificuldades que o Brasil atualmente enfrenta para obter saldos comerciais que contribuam para reduzir o déficit na conta de Transações Correntes do Balanço de Pagamentos, a redução das exportações para a Argentina reforça essas dificuldades, justamente com o terceiro mais importante parceiro comercial e, ainda, um bom comprador de produtos industrializados.

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