A ascensão do polo naval de Rio Grande

O ressurgimento da indústria naval brasileira tem como mola propulsora a expansão da produção de petróleo e a exploração do pré-sal, ambas demandando a construção de centenas de novas embarcações no País. O Plano de Negócios 2011-15, da Petrobras, prevê a aplicação de US$ 213,5 bilhões nas atividades desenvolvidas no Brasil, e as estimativas da empresa indicam que, até 2020, serão necessários 568 barcos de apoio especiais, 94 plataformas e 65 sondas. A essa demanda direta da estatal agrega-se a de seus prestadores de serviços, que encomendam barcos de apoio marítimo e de outros gêneros. Para atender a essa demanda, os estaleiros vão operar cada vez mais como montadores e vão demandar produtos mais acabados, o que torna indispensável a existência de fornecedores eficientes e capacitados.

No primeiro semestre de 2011, os estaleiros instalados no polo naval de Rio Grande contavam com 5.500 empregos diretos, representando 9,8% dos empregos diretos totais dos estaleiros brasileiros. Em termos de toneladas de porte bruto (TPB) de obras em andamento, o Rio Grande do Sul é o terceiro colocado, com uma participação de 17,94%, atrás de Pernambuco (49,21%) e do Rio de Janeiro (23,70%). Os estaleiros da Ecovix e da Quip possuem, juntos, mais de 10 obras em carteira, perfazendo 1,1 bilhão em TPB. Além disso, novos empreendimentos estão em vias de serem implementados: o Estaleiros do Brasil (EBR), em São José do Norte, e um estaleiro da Wilson Sons, em Rio Grande, o que deverá reforçar a constituição do polo naval.

A Ecovix está construindo no Estaleiro Rio Grande, oito cascos para a Petrobras, do tipo Floating, Production, Storage and Offloading (FPSO), ou seja, navios-plataforma, que serão utilizados para o pré-sal. Já a empresa Quip atende a contratos na modalidade Engeneering, Procurement, Constructionand Installation (EPCI), de plataformas offshore, relativas às plataformas P-63 e P-55. A EBR prevê instalar um estaleiro de plataformas de petróleo, a ser inaugurado em 2013, no qual investirá cerca de R$ 1 bilhão, e o estaleiro da Wilson Sons deverá absorver recursos da ordem de US$ 155 milhões, concentrando- se na construção de embarcações de médio porte.

Atualmente, Rio Grande está em uma fase apenas inicial de atração e desenvolvimento de negócios de setores voltados à indústria naval, mas é considerado um polo promissor. Algumas empresas gaúchas começaram a direcionar mais investimentos para a indústria naval, adquirindo novos equipamentos, realizando parcerias com empresas no exterior ou localizando filiais mais próximas aos estaleiros, mas grandes investimentos ainda deverão ser feitos no setor metal-mecânico do RS, em usinagem e fundição automatizadas, para atender às demandas do polo naval.

Dentre os exemplos de empresas gaúchas que estão atendendo às necessidades do polo naval, pode-se citar a Metasa, fabricante de estruturas metálicas, com sede em Marau, que pretende inaugurar, em 2012, uma nova planta em Rio Grande; e a Intecnial, fabricante de tubulações, sediada em Erechim, ambas fornecedoras da Quip. O grupo Voges, de Caxias do Sul, com atividades em fundição e automação, ingressou no mercado de inversores de frequência, em parceria com uma empresa estrangeira, para atender ao polo naval. A gaúcha Altus, de São Leopoldo, foi contratada pela Ecovix para automatizar as oito plataformas para a Petrobras.

Mas não só as empresas gaúchas estão atentas às demandas do polo naval. A própria Ecovix, já operando no Estaleiro Rio Grande, está ampliando seus investimentos em R$ 300 milhões, com a construção de uma fábrica de painéis. A Caldepinter, do Rio de Janeiro, que fabrica pequenas peças de navios, inaugura, neste ano, uma unidade em Pelotas. A CSE Mecânica e Instrumentação, com matriz em Pinhais, no Paraná — especializada em serviços de construção, montagem e testes em mecânica, elétrica e instrumentação, que já atende a outros polos navais —, também abriu uma filial em Rio Grande. E, em breve, a Iesa Óleo e Gás, do RJ, vai investir R$ 90 milhões em Charqueadas, em uma base para produção de módulos de plataformas.

O polo naval de Rio Grande está beneficiando-se de uma descentralização da indústria oceânica em nível nacional, e seu dinamismo está espraiando-se por outras regiões do Estado. Porém, para que a retomada da indústria seja sustentável, alguns desafios devem ser enfrentados, tais como a qualificação da mão de obra, a incorporação de tecnologia mais avançada, o adensamento da cadeia produtiva e a redução de custos. Investir em capacitação e tecnologia é fundamental para aumentar a competitividade e para poder disputar o mercado global. Além disso, o crescimento acelerado do polo pode trazer deseconomias de aglomeração às zonas urbanas de Rio Grande e Pelotas; portanto, urge fazer-se um planejamento ordenado das cidades e das áreas portuárias, para evitar que a expansão crie obstáculos incontornáveis.

Rio Grande é uma cidade estratégica para o desenvolvimento da Região Sul do Estado, e as áreas de ciência, tecnologia e inovação são segmentos importantes para tornar esse desenvolvimento permanente e não apenas um ciclo. Alguns dos desafios pela frente estão relacionados com as navipeças, que enfrentam gargalos de escala e tecnológicos, ainda que, com o aumento da produção, cresça a possibilidade de fornecimento local. O principal desafio é o desenvolvimento da gestão de engenharia de processo, um conhecimento que pouco avançou nos anos em que a indústria naval brasileira ficou paralisada. A concretização de alguns projetos, como um curso de engenharia naval na Universidade Federal do Rio Grande e a implantação do Parque Científico e Tecnológico do Mar, poderá contribuir para preencher essa lacuna.

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