Textos com assunto: violência contra a mulher

Tolerância social à violência contra as mulheres no Brasil

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Edição: Ano 23 nº 05 – 2014

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Em maio e junho de 2013, o Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) entrevistou 3.810 pessoas, apresentando 27 questões sobre o tema “Tolerância social à violência contra as mulheres”. Os entrevistados deveriam optar por concordar total ou parcialmente, discordar total ou parcialmente ou nem concordar nem discordar das questões apresentadas. Para a seleção da amostra, foi utilizado o método usual de amostragem probabilística com margem de erro de 5% e nível de confiança de 95% para o Brasil e para as cinco grandes regiões (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul). Esse estudo permitiu uma avaliação das diferenças de opinião sobre o tema entre os gêneros, os diferentes níveis de renda domiciliar, a escolaridade, as raças, as religiões, as idades e as regiões do País. Em novembro de 2012, o SIPS-IPEA já havia apresentado algumas questões semelhantes no estudo Valores e Estrutura Social no Brasil, tais como “em alguns casos de estupro, a mulher também tem culpa porque veste roupa provocante” (31% dos respondentes concordaram, e 57% discordaram) e “em algumas situações, a mulher deve tolerar a violência de seu companheiro, em nome da união da família” (5% de concordância e 89% de discordância), com resultados similares aos mais recentes, indicando que não ocorreram mudanças significativas na percepção da sociedade brasileira sobre o tema desde então.

Embora o brasileiro expresse intolerância à violência contra a mulher, atribui, ao mesmo tempo, parte da culpa dos estupros às suas vítimas e discorda que casos de violência doméstica devam ganhar publicidade. Não deixa de ser contraditório que, simultaneamente, 91,4% dos respondentes concordem que “homem que bate na esposa tem que ir pra cadeia”, 78,6% concordem que “o que acontece em casa não interessa aos outros”, e 89,0% afirmem que “a roupa suja deve ser lavada em casa”.

Os percentuais de mulheres que concordaram total ou parcialmente com algumas afirmações polêmicas foram superiores aos dos homens. Na questão “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”, o percentual de aceitação entre as mulheres foi de 27,3%, contra 23,4% entre os homens. O mesmo pode ser observado nas questões “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros” (59,4% de aceitação entre mulheres e 56,7% entre homens), “roupa suja deve ser lavada em casa” (89,4% entre mulheres e 88,2% entre homens) e “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar” (66,0% entre mulheres e 63,2% entre homens).

O rendimento domiciliar per capita médio dos respondentes que concordaram que as “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” e que “se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros” é inferior ao dos que discordaram. Mas isso não significa que as classes mais pobres sejam mais coniventes com a violência, pois o rendimento domiciliar per capita médio dos respondentes que concordaram com questões como “homem que bate na esposa tem que ir pra cadeia”, “é violência falar mentiras sobre a mulher” e “quando há violência os casais devem se separar” também é inferior ao dos que discordaram. Além disso, o rendimento domiciliar per capita médio dos respondentes que concordaram que “o homem pode xingar e gritar com sua mulher”, “em briga de marido e mulher não se mete a colher” e “mulher que apanha em casa deve ficar quieta para não prejudicar os filhos” é superior ao daqueles que discordaram.

Analisando-se a escolaridade dos entrevistados, o único grupo em que a maioria discordou que “o homem deve ser o cabeça do lar” e que “se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros” foi o de nível superior concluído (55,1% e 58,0% respectivamente).

A maioria dos respondentes de todas as raças concordou com o item “se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros”, à exceção da raça amarela, que apresentou 51,7% de discordância.

Os respondentes de todas as religiões, em sua maioria, concordaram que os “casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família” e que “mulher que permanece com o parceiro que a agride gosta de apanhar”, à exceção dos espíritas (50,8% e 55,7% discordaram, respectivamente). Os respondentes de religiões afrobrasileiras foram os únicos cuja maioria discordou da afirmação que o homem deve ser o cabeça do lar (64,3%).

Enquanto houve grande concentração de adultos (30 a 59 anos) e idosos (60 anos de idade ou mais) concordando totalmente que “se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros” (36,2% e 40,2% respectivamente), as respostas dos jovens (16 a 29 anos) concentraram-se no extremo oposto, discordando totalmente dessa afirmação (35,3%). Mas não se pode afirmar que os mais jovens mostrem mais respeito à igualdade entre gêneros, pois os jovens foram os que mais concordaram que os “homens podem xingar e gritar com suas mulheres” (10,5% dos jovens, 9,1% dos adultos e 5,8% dos idosos).

No caso dos moradores da Região Sul, embora discordem mais do que os brasileiros em geral que as “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” (78,9%), concordam mais que “se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros” (59,1%). Além disso, uma maior proporção entende que “um homem que cresceu em uma família violenta agrida sua mulher” (42,3%) e concorda que “o que acontece com os casais em casa não interessa aos outros” (84,9%).

Tolerância social à violência contra as mulheres no Brasil

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