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Janet Yellen em manobra de risco máximo

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Edição: Ano 23 nº 03 – 2014

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O Federal Reserve (FED) é a instituição econômica mais poderosa do planeta. Essa posição, advinda da gerência da remuneração paga aos detentores da moeda reserva mundial, o dólar norte-americano, consolidou-se a partir do final dos anos 70 do século XX, com a internacionalização da dívida pública estadunidense e a crescente abrangência geográfica da integração financeira mundial. Nas últimas décadas, uma decisão do FED afetou imediatamente a valorização de todos os ativos financeiros no mundo. Considerando que um dos aspectos mais relevantes da dominância financeira específica ao capitalismo contemporâneo é sua capacidade de impingir uma medição financeira ao valor de ativos de natureza não financeira (terra, commodities e empresas em geral, para citar alguns), temos que a decisão do FED quanto ao valor a ser pago aos detentores de dólares tem reflexo global e sobre toda a atividade econômica. Somando-se a isso o papel do Banco Central estadunidense na regulação e solvência do sistema financeiro mundial, expresso repetidamente nos episódios subsequentes à crise financeira ocorrida em 2007- -08, temos uma noção da importância do FED para a tranquilidade das operações econômicas no planeta.

É dessa instituição que Janet Yellen tornou-se a primeira mulher presidente, a partir do mês de fevereiro. No cargo, ela será encarregada de capitanear o retorno a uma política monetária “normal” — ou seja, que remunere os detentores de títulos do Governo com juros reais positivos —, após os diversos programas de resgate e de estímulos lançados por seu antecessor, Ben Bernanke, no combate aos efeitos da crise financeira mundial. Esses programas ampliaram o volume dos ativos detidos pela instituição a mais de US$ 4 trilhões em 2014, frente aos cerca de US$ 850 bilhões anteriores a 2007. Essa brutal injeção de liquidez permitiu que a economia operasse com uma aparência de normalidade e que, aos poucos, os preços dos ativos financeiros se recuperassem, como atestam os sucessivos recordes obtidos pelas cotações em Wall Street a partir de 2013, saneando, assim, os balanços das instituições financeiras. A taxa de desemprego recuou a 6,5%, frente aos mais de 10% apresentados no auge dos efeitos da crise, a inflação manteve-se moderada e em território positivo, e a economia segue em um avanço modesto, porém contínuo. Entretanto esses resultados foram obtidos no contexto da manutenção de taxas de juros muito próximas a zero, uma política monetária “incomum”, segundo adjetivou a própria Yellen em seu testemunho perante o Congresso.

Essa operação de retorno à normalidade tem-se mostrado extremamente arriscada. Em maio de 2013, quando Bernanke anunciou que o FED começaria a reduzir a recompra mensal de títulos privados, houve reação imediata, tanto no front doméstico quanto no cenário internacional. Nos EUA, as taxas de juros de longo prazo subiram, e o dólar valorizou- se frente às moedas dos países emergentes, trazendo lembranças — exageradas — da década de 90. Assim, já em julho, Bernanke foi obrigado a realizar novo pronunciamento tranquilizador, sinalizando a permanência das compras de títulos ao longo do ano passado. Com a aproximação da troca de comando no FED, o tema retornou à pauta e, em dezembro de 2013 e janeiro de 2014, finalmente o Banco reduziu o volume de estímulos mensais em US$ 10 bilhões, diminuindo a US$ 65 bilhões o total mensal de compras de títulos. Espera-se uma redução progressiva desse volume ao longo de 2014, com uma normalização da política monetária propriamente dita ao longo de 2015, o que dependerá fundamentalmente de que o emprego e o crescimento da economia norte-americana se mostrem ao menos resistentes no período. Caso a manobra ocorra como esperado pelo FED, uma das experiências de intervenção econômica mais espetaculares da história terá sido finalizada com êxito, dado o tamanho do desafio imposto pelas proporções e pelo ineditismo da crise financeira de 2007.

Mas a capitã Yellen não enfrentará apenas calmaria em sua tentativa de conduzir a economia a salvo nessa travessia. Dentre os múltiplos fatores que vêm moldando o desempenho da economia mundial após 2007, podemos destacar: (1) a fraqueza da recuperação econômica mundial, marcada por sucessivos desapontamentos quanto às taxas de crescimento da produção e dos investimentos na fase de recuperação após 2011, sobretudo nas economias avançadas. Nesse sentido, 2014 tem sido marcado por discussões quanto aos riscos de deflação em uma Europa em tímida recuperação e pelos perigos da “secular stagnation” (termo cunhado pelo Economista Larry Summers, também candidato ao cargo de chairman do FED), em que, doravante, o baixo crescimento seria o comportamento normal da economia dos países avançados, dada a impossibilidade de reconstituição rápida de novas fontes de dinamismo e a desmontagem das estruturas que davam sustentação ao crescimento anterior à crise de 2007; (2) o enfraquecimento do ímpeto do avanço econômico nas economias emergentes, com ênfase na paradoxal situação da China, que, apesar de sua manutenção como centro do dinamismo econômico mundial, vê aumentados os questionamentos tanto a respeito da possibilidade de mudança do centro dinâmico interno em direção ao consumo, quanto em relação a uma possível dificuldade advinda do gerenciamento pelo sistema financeiro doméstico do crescimento abismal do crédito ocorrido após 2008; (3) a própria natureza da recuperação do sistema financeiro, indutora de uma nova “bolha” de ativos e que propiciou a renovação recente de práticas de securitização de ativos de qualidade duvidosa em níveis similares àquelas de 2007, com um sistema bancário ainda mais perigosamente concentrado, somados à presença cada vez mais importante e abrangente dos fundos de private equity, alavancados e inadequadamente regulados; (4) a dificuldade em deslanchar, em larga escala, os processos de inovação necessários para destravar o investimento produtivo, o que pode ser atribuído, simplificadamente, à falta de coordenação estatal mundial na promoção das infraestruturas adequadas ao rápido avanço dos novos produtos de base tecnológica, às características da apropriação dos ganhos com as atuais tecnologias (fenômeno winner-take-all) e à persistência da forma financeira da governança corporativa, que tem levado as empresas a utilizarem seus imensos recursos sobrantes na distribuição de dividendos ou em recompras de ações.

Se considerarmos apenas esses fatores, os quais estão longe de exaurir todos os riscos potenciais, vê-se que o experimento estadunidense de condução de um retorno à política monetária “normal” não é trivial.

Em seu testemunho ao Congresso, Janet Yellen declarou ser uma comandante “sensível”. É razoável desejarmos que assim seja.

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