Textos com assunto: setor primário

Brasil: orientação dos investimentos e (in)sustentabilidade

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Edição: Ano 23 nº 04 – 2014

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Os atuais limites à acumulação de capital devido ao esgotamento dos espaços para o investimento produtivo, numa combinação nefasta com a financeirização globalizada, propiciaram a organização de uma divisão internacional do
trabalho com fortes traços do período colonial. A competitividade baseada em baixos salários e no fim da regulamentação do mercado de trabalho, a concentração do conhecimento pelas multinacionais e pelos países mais ricos e a nova forma de participação dos Governos na economia geram uma incapacidade de desenvolvimento, no sentido cepalino do conceito, difícil de ser contornada pelas políticas econômicas tradicionais, por mais heterodoxas que o sejam. A América do Sul e a América Central aprofundam sua especialização em commodities minerais e agroindustriais, apresentando características do antigo modelo agroexportador.

A economia brasileira insere-se nessa lógica, baseando seu crescimento na produção e na exportação de commodities, particularmente insumos de origem mineral e produtos agroindustriais. Essa especialização é liderada pela orientação dos investimentos estrangeiros diretos (IED). Em que pese aos esforços do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), em apoiar investimentos sustentáveis e em diversificar a economia, o Banco acaba centrando sua política no apoio, direto ou indireto, às atividades de mineração e ao agronegócio.

Para ilustrar essa tendência, é importante analisar a entrada de IED no período 2001-13, no Brasil. As informações do Banco Central revelam que o grupo agricultura, pecuária e extração mineral ampliou sua participação de 7,1% para 20,2%. Dentro desse grupo, a atividade de extração de petróleo foi a que atraiu o maior fluxo de IED. A indústria, como um todo, reduziu essa participação de 33,3% para 20,5%, sendo que metalurgia básica, uma commodity por excelência, foi o segmento que mais atraiu esses investimentos. Dentro do grupo serviços, para onde se dirige a maior parcela dos IED, os segmentos mais focados estão relacionados à atividade financeira, refletindo o peso dessas entradas de valores em comparação com aqueles voltados à produção.

Por outro lado, o BNDES busca efetuar um contraponto a essa tendência, com programas de apoio à inovação e à diversificação da economia. Entretanto os desembolsos efetuados pelo BNDES em 2013 revelam outra realidade. Esses desembolsos centraram-se no apoio à produção de commodities, como as do setor petroquímico, da mineração e da siderurgia, no caso das indústrias de transformação e extrativa mineral.

Além disso, os maiores desembolsos efetuados pelo BNDES em 2013 registram a liderança dos investimentos em infraestrutura, por conta do financiamento ao Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). Embora a expansão da infraestrutura não tenha uma relação direta com a entrada de IED, é inegável que a ampliação da oferta de energia e de estradas nas Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, cria um ambiente favorável ao desenvolvimento do agronegócio e da mineração. Do total de desembolsos realizados para as Regiões Norte e Nordeste, 58% foram para as usinas hidroelétricas de Belo Monte, Santo Antônio, Jirau, Teles Pires e Estreito, para a transposição do rio São Francisco, para a estrada de ferro Carajás e para linhas de transmissão de energia elétrica.

Esse crescimento revela a intenção da política econômica em apoiar o agronegócio e a mineração, uma vez que essas regiões concentram a atividade de mineração (Norte), de commodities agroindustriais, particularmente soja e gado (Norte e Centro-Oeste) e cana-de-açúcar para biocombustíveis e outras monoculturas (Nordeste). Todas essas atividades são importantes consumidoras de água e de energia e demandantes de grandes extensões de terra.

Observe-se que, no Brasil, após o esgotamento das terras utilizadas pela extração mineral, essas atividades migram para outros espaços sem a menor preocupação de recuperação dos territórios degradados. No caso do agronegócio, o quadro que vem definindo-se é o de ocupação extensiva de terras, avançando sobre matas nativas, para o plantio de monoculturas voltadas para exportação, competindo com a produção de alimentos para o mercado interno. Essa expansão é fruto das associações dos latifundiários com empresas multinacionais que não hesitam em invadir áreas de preservação ambiental, de propriedade do Estado ou destinadas originalmente à reforma agrária.

Embora o apoio à produção de commodities seja favorável do ponto de vista de atração de investimentos externos e propicie o alcance de superávits comerciais, no longo prazo tende a tornar o País mais vulnerável às oscilações do comércio mundial, além de acelerar a destruição ambiental e aprofundar as desigualdades sociais.

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A atratividade do Setor Primário gaúcho

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Edição: Ano 21 nº 09 - 2012

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Diversos trabalhos mostram que a trajetória da economia gaúcha tem vinculação direta com o desempenho de suas atividades primárias. Nesse sentido, compreender como a atratividade econômica desse setor vem evoluindo é estratégico para os tomadores de decisão. Ocorre que essa é uma tarefa difícil, na qual nem sempre é possível vislumbrar a direção correta, dada a complexidade dos fatores envolvidos. Se, por um lado, o aumento do crédito (para custeio e investimento) e a introdução de novas tecnologias tendem a favorecer o setor, por outro lado, o aumento das restrições ambientais, dos custos de insumos e mesmo a incidência de eventos climáticos extremos (enchentes ou estiagens) reduzem e, não raro, tornam negativa a sua rentabilidade. Tem-se, ainda, a desvalorização cambial, com resultado mais ambíguo, aumentando os preços tanto dos produtos como dos insumos utilizados.

Sabendo-se que a conjugação de todos esses fatores não é unívoca e com o objetivo de lançar luz sobre o assunto, o gráfico abaixo apresenta a evolução das relações de troca da agropecuária gaúcha de janeiro de 2000 a abril de 2012. Para tanto, divide-se o índice de preços recebidos (IPR) pelo índice de preços pagos (IPP) pelos produtores, calculados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Sua interpretação é direta, mostrando que, quando o índice é superior a 100, os produtores estão beneficiando-se nas suas trocas, e, quando é menor, ocorre o contrário.

Um primeiro ponto que se observa é que, com pequenas oscilações, a evolução positiva se mantém até o final de 2004. Destaques desse período, que favoreceram os preços recebidos, foram a desvalorização cambial de 2002 e o aumento das exportações, sobretudo de soja para a China. Do início de 2005 até o final de 2007, o indicador mostrou-se negativo aos produtores rurais. Esse resultado é ainda mais nefasto, se relembrarmos que, em 2005, uma forte estiagem atingiu o RS. Assim, não bastasse a importante quebra de safra — que, para os grãos de verão (soja, milho, feijão e arroz), foi de mais de um terço —, os produtores viram seus custos subirem mais que suas receitas. Não é de se estranhar que, em 2005, a economia gaúcha tenha decrescido 2,8%.

A partir de 2008 até meados de 2011, houve uma relativa estabilização dos termos de troca. A tendência de alta que então se apresenta é sustentada por aumento dos preços recebidos e pela estagnação dos preços pagos.

O indicador mostra, portanto, sinais de melhora na atratividade do segmento agropecuário estadual, sobretudo no período mais atual. Deve-se ressaltar, porém, que esses resultados devem ser analisados com cuidado, pois não captam diretamente a variação da produtividade e nem as particularidades das diferentes culturas agrícolas e das atividades pecuárias, que são consideravelmente heterogêneas.

Apesar dessas limitações, outros indicadores reforçam a existência de uma melhora na atratividade da agropecuária gaúcha. Por exemplo, o preço real médio do arrendamento de terras no RS, calculado pela FGV, aumentou cerca de 50% entre dezembro de 1999 e junho de 2010 — último dado disponível. Já o preço de venda da terra subiu ainda mais, com ganhos reais acima de 120% para terras de pastagens e de 140% para áreas de lavoura. A elevação do preço do arrendamento é indicativo do crescimento da renda operacional propiciada pela atividade. Já a alta do preço de venda da terra reflete também a expectativa de valorização da mesma.

A principal questão que se apresenta é se essa tendência positiva de preços tende a continuar. Fatores como preços internacionais em ascensão, aumento da demanda por carnes, soja e biocombustíveis, crescimento do crédito rural, desvalorização cambial, e, recentemente, a estiagem nos EUA, dentre outros, são sinais indicativos de continuidade dessa tendência, pelo menos no futuro próximo. Desse modo, o momento parece propício para que os investimentos (públicos e privados) sejam direcionados para a atenuação dos riscos climáticos (estiagens e enchentes), mitigando as oscilações negativas da produção, para que a melhoria de renda se torne uma realidade para os produtores rurais, beneficiando toda a economia gaúcha.

A atratividade do Setor Primário gaúcho

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