Textos com assunto: produção industrial

O ajuste da indústria brasileira em 2015

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Edição: Ano 24 nº 12 – 2015

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A indústria de transformação brasileira vem passando por um processo de estagnação da sua produção ao longo dos últimos sete anos. Apesar do elevado crescimento observado em 2010, o fato é que a produção física industrial em 2014 encerrou 1,3% abaixo da de 2008. Esse fraco desempenho da produção resultou, nesse mesmo período, num baixo crescimento da produtividade industrial. Concomitantemente a isso, as baixas taxas de desemprego que se mantiveram até dezembro de 2014 forçaram os empresários a pagarem salários reais mais elevados aos trabalhadores. Assim, enquanto a produção se mantinha praticamente estagnada e a produtividade com baixo crescimento, tal fenômeno não ocorria com o salário real na indústria, o qual vinha numa trajetória constante de crescimento desde 2004. Esses três fatores, em conjunto, implicavam um aumento dos custos, pressionando ainda mais o índice de inflação.

A saída desse quadro implicaria, necessariamente, uma retomada da produção que levasse a um aumento da produtividade e, com isso, permitisse a continuidade da elevação do salário real. No entanto, para que isso ocorresse, far-se-ia necessária a existência de um conjunto de elementos favoráveis tanto no âmbito externo quanto no doméstico. Como tal cenário não se fez presente, o ajuste, em 2015, acabou sendo, necessariamente, recessivo.

Se, por um lado, a desaceleração do crescimento da produção industrial coincide com o desenrolar da crise econômica mundial que se iniciou em 2007-08, também é verdade que fatores de natureza interna, como a restrição ao crédito e a retomada de um novo ciclo de crescimento das taxas de juros em meados de 2013, contribuíram para agravar um quadro já desfavorável. Em 2015, o ajuste fiscal promovido tanto pelo Governo Federal quanto pelos governos estaduais, associado com a continuidade da elevação da taxa de juros, a acelerada elevação do desemprego e o recrudescimento inflacionário, contribuíram para acelerar a queda da produção, do emprego e dos salários na indústria. Assim, até setembro deste ano, a produção física da indústria de transformação brasileira havia caído 9,2% em relação ao mesmo período do ano anterior. Nesse mesmo período, o emprego industrial apresentou uma retração de 5,8%. Com isso, observou-se uma diminuição de 3,6% na produtividade, enquanto os salários reais por trabalhador apresentaram uma queda de apenas 1,0%. Assim, o ajuste que vem ocorrendo na indústria brasileira tem sido desfavorável tanto para os trabalhadores, os quais têm perdido seus empregos e visto uma deterioração do poder aquisitivo do seu salário, quanto para os empresários, que têm observado uma queda acentuada na produtividade.

Esse cenário se torna ainda mais preocupante quando se observa a dimensão da crise em setores mais dinâmicos, como, por exemplo, as indústrias de bens de capital e de bens de consumo duráveis, que, até setembro deste ano, tinham acumulado uma queda na produção física de 23,5% e 15,8% respectivamente. Já a indústria de bens de consumo não duráveis, a qual havia apresentado um crescimento de 3,7% na produção física em 2014, em 2015 acabou sucumbindo ao efeito da aceleração no crescimento do desemprego e, até setembro, havia apresentado uma retração de 9,6%.

Se essa conjuntura se mantiver no último trimestre de 2015, a produção industrial brasileira vai terminar o ano com o mesmo nível de 2005, e o emprego industrial terminará no menor nível histórico da série da Pesquisa Mensal de Emprego e Salário, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (Gráfico). Assim, o cenário atual sinaliza um ajuste de mais longo prazo quando se iniciar o processo de recuperação, uma vez que a necessidade de recuperação dos níveis de produtividade e de redução dos custos deverá implicar uma baixa absorção do emprego e também do crescimento do salário real. Por outro lado, mesmo depois de iniciada a recuperação, deverá haver uma grande defasagem, até que os investimentos sejam retomados na indústria. Dessa forma, a crise industrial, que já havia sido grande em 2014 e que se aprofundou em 2015, deverá ter impactos de longo prazo na economia brasileira. Tais fatores deverão agravar as “doenças” que vêm acumulando-se no tecido industrial brasileiro ao longo dos últimos anos, geradas pelos baixos níveis de investimentos, pelo cenário macroeconômico ainda bastante instável, pelos vários anos de desvalorização cambial e, como decorrência, de baixa competitividade internacional. Nesse contexto, não é de surpreender que mesmo a desvalorização cambial observada no último ano tenha tido efeitos imperceptíveis sobre as exportações industriais e sobre o aumento da produção doméstica.

Esse quadro de deterioração industrial irá, necessariamente, criar problemas ainda maiores para a política econômica em 2016. Caso o Governo opte pela continuidade das políticas monetária e fiscal que dominaram em 2015, poder-se-á esperar um agravamento do panorama descrito acima. Se, por um lado, é verdade que tem ocorrido uma piora nas contas públicas nos últimos anos, também é verdade que o ajuste fiscal dificilmente terá sucesso em uma economia que atravessa uma recessão tão profunda. Uma recuperação mais robusta da economia mundial poderia ser um ingrediente-chave para o início de um processo de recuperação. Mas esse cenário parece que também não está no horizonte.

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Evolução e níveis de produtividade da indústria de transformação gaúcha

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Edição: Ano 23 nº 10 – 2014

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Avaliando os dados fornecidos pela Pesquisa Industrial Anual Empresa, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pode-se obter uma medida para a produtividade média do trabalho da indústria de transformação do Brasil e de seis estados disponibilizados pela pesquisa, incluindo o RS. Essa medida é obtida através da razão entre o Valor de Transformação Industrial (VTI) e o total de pessoal ocupado no último dia de cada ano. Os dados com a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE 2.0) estão disponíveis para o período compreendido entre 2007 e 2012.

Na classificação pela produtividade do trabalho da indústria de transformação, o Rio Grande do Sul aparece no quinto lugar entre os seis estados pesquisados entre 2007 e 2011, subindo para quarto em 2012, ultrapassando Minas Gerais. Santa Catarina ocupa a sexta colocação, enquanto Rio de Janeiro e São Paulo são os dois primeiros.

O Rio Grande do Sul é o estado que apresentou a maior taxa de crescimento na produtividade do trabalho de sua indústria de transformação no período analisado (49,0%), seguido por Santa Catarina (47,0%), Rio de Janeiro (38,7%), Paraná (37,8%), São Paulo (27,8%) e Minas Gerais (15,0%). O crescimento da produtividade brasileira foi de 31,9%. Esse incremento gaúcho, superior à média nacional, deve-se, sobretudo, ao diferencial de crescimento, favorável ao RS, na produtividade dos setores de fabricação de máquinas e equipamentos, de produtos derivados do petróleo e de veículos automotores.

Contudo, apesar desse crescimento superior ao observado nos outros cinco estados, o nível de produtividade do trabalho gaúcho, em 2012, ainda era bastante inferior ao alcançado em alguns estados, como Rio de Janeiro e São Paulo, que tornaram a média brasileira superior à do RS. Isso se deve ao fato de que alguns setores industriais gaúchos possuem menor produtividade do trabalho que no Brasil, além de questões relativas a uma maior especialização gaúcha em atividades que são por natureza mais intensivas em fator de produção trabalho e uma menor especialização em certas atividades que são mais intensivas em capital. Em 2012, a produção por trabalhador da indústria de transformação gaúcha era de R$ 93.988; já a brasileira atingia o valor de R$ 105.695.

A principal justificativa para as diferenças nos níveis de produtividade do trabalho reside no fato de a atividade de fabricação de produtos derivados de petróleo, a qual é uma das que possuem mais alta produtividade do trabalho da indústria de transformação, ser muito mais representativa para o Brasil do que para o RS. Para o Brasil, em 2012, a atividade participava com 10,4% do VTI total, enquanto, no RS, a mesma foi responsável por apenas 2,8% do VTI total. Isso reflete uma maior especialização dessa atividade no Brasil, colaborando para uma maior diferença pró Brasil nos níveis da produtividade do trabalho. O Rio de Janeiro possui o maior VTI por trabalhador entre os estados brasileiros, justamente devido à elevada importância do refino do petróleo na sua indústria de transformação.

Outra atividade que contribuiu para uma menor produtividade média do trabalho no Estado é a fabricação de calçados, a qual é mais intensiva em trabalho e possui uma relevância maior para a indústria gaúcha. Esta, em 2012, era responsável por 5,2% do VTI gaúcho; já no Brasil, participava com 1,4% do VTI total, sendo mais um setor responsável por aumentar a disparidade entre os níveis de produtividade gaúcho e brasileiro.

Já na atividade de fabricação de produtos químicos, ocorreu o inverso do que aconteceu no setor calçadista. Desde 2007, a produtividade gaúcha obtinha um patamar superior ao brasileiro. Essa atividade, que é bastante significativa tanto para o Brasil quanto para o RS, concentrava, em 2012, 8,1% do VTI no RS e 7,4% no Brasil. A fabricação de veículos automotores, camionetas e utilitários é outra subatividade em que o RS superou o Brasil em termos de produtividade do trabalho, também sendo relevante em termos de participação no VTI total. Entretanto, apesar de esses dois setores terem apresentado maior produção por empregado no RS, não foram capazes de compensar o efeito na produtividade decorrente dos diferenciais de participação da fabricação de produtos derivados do petróleo.

As três atividades com maior participação no VTI do RS, em 2012, foram fabricação de produtos alimentícios (16,1%), fabricação de produtos automotores, reboques e carrocerias (12,9%) e fabricação de máquinas e equipamentos (10,1%). A produtividade do trabalho dessas três atividades foi semelhante à brasileira. Outra atividade relevante para o RS foi a fabricação de produtos do fumo, sendo responsável por 47,2% do VTI brasileiro em 2012 e também apresentando produtividade semelhante à gaúcha. Portanto, são aquelas atividades mencionadas anteriormente que, de fato, explicam as diferenças de produtividade do trabalho existentes entre o Brasil e o RS.

Entre as subatividades de maior produção por trabalhador no RS, em 2012, encontram-se fabricação de resinas e elastômeros (R$ 1.284.601/trabalhador) e fabricação de produtos derivados do petróleo (R$ 1.266.883/trabalhador). As duas demandam elevada tecnologia e são muito especializadas, dependendo em maior grau do fator produtivo capital que trabalho para geração de valor.

Evolução e níveis

 

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Sinais de recuperação da indústria gaúcha

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Edição: Ano 22 nº 06 - 2013

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Após serem analisados os dados de produção física da indústria de transformação fornecidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para o período compreendido entre setembro de 2011 e abril de 2013, foram observados indícios de recuperação da indústria gaúcha no 1º quadrimestre de 2013.

A série do IBGE para o RS, a qual não apresenta ajuste sazonal, foi dessazonalizada. Também foi analisado o comportamento da série de produção da indústria de transformação do Brasil, com o objetivo de verificar se também há sinais de recuperação para a indústria nacional.

Na situação do RS, verifica-se um incremento na produção física de 6,1% no 1º quadrimestre, quando comparado ao quadrimestre imediatamente anterior. Contudo a base de comparação do 4º quadrimestre de 2012 é baixa nos seus dois últimos meses, devido à ausência de matéria-prima para o refino do petróleo gaúcho no período. Esse fato torna o crescimento de 6,1% menos representativo como evidência de uma recuperação.

Já na análise mensal, o crescimento sustentou-se em três dos quatro meses de 2013, o que reforça a hipótese de recuperação. Na comparação com os meses imediatamente anteriores, janeiro e fevereiro apresentaram crescimento de 7,8% e 2,3% respectivamente. Já no mês de março, houve uma queda de 0,6%. Entretanto houve retomada do crescimento em abril, apesar de reduzido (0,2%).

Outra evidência positiva decorre da comparação do 1º quadrimestre de 2013 com o mesmo período de 2012, visto que a produção cresceu 3,0% no Estado. Um dos setores que obteve grande destaque foi o de veículos automotores, com incremento de 17,3%. A alta desse setor pode ser explicada pelos elevados estoques de automóveis no 1º quadrimestre de 2012, fato que reduziu a sua produção no período, além da antecipação de consumo de peças e carrocerias de caminhões ocorrida nos últimos meses de 2011, reduzindo ainda mais a produção nos primeiros meses de 2012. O setor de refino de petróleo foi outro que apresentou crescimento no período, obtendo alta de 18,4%. Parte considerável do seu acréscimo pode ser explicada pela baixa produção do mesmo nos últimos meses de 2012, o que resultou na alta produção dos meses subsequentes.

Algo que deve ser ressaltado na análise da série da indústria de transformação gaúcha é que o seu patamar referente ao mês de abril de 2013 está abaixo apenas do patamar dos meses de fevereiro de 2013 e outubro e dezembro de 2011, desde o início da série analisada. Esse fato é de extrema importância como evidência do início de uma recuperação nos primeiros meses de 2013.

Para o caso brasileiro, observou-se um acréscimo na produção física do 1° quadrimestre de 2013, em relação ao de mesmo período do ano anterior, atingindo 2,1%. Já na comparação do 1º quadrimestre de 2013 com o quadrimestre imediatamente anterior, houve um incremento de 1,9%, inferior ao gaúcho. Nos quatro primeiros meses de 2013, o seu patamar está acima do dos meses anteriores. Na comparação com os meses imediatamente anteriores, janeiro, março e abril apresentaram incremento nas suas taxas de 3,2%, 0,9% e 1,7% respectivamente. Somente em fevereiro houve decréscimo (-2,5%).

Ao analisar-se a série nacional, é possível perceber uma tendência de crescimento na produção da indústria. Em abril de 2013, a série atingiu o seu ponto mais alto desde setembro de 2011, revelando-se um indicativo de recuperação em nível nacional.

Os ramos industriais que mais contribuíram para o incremento da produção brasileira no 1º quadrimestre de 2013, em relação ao mesmo quadrimestre do ano anterior, foram os de veículos automotores, mobiliário e refino de petróleo e álcool.

Sinais de recuperação da indústria gaúcha

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A produção industrial brasileira em crise

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Edição: Ano 21 nº 12 - 2012

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A indústria brasileira voltou a apresentar, em setembro do corrente ano, taxas negativas de crescimento na sua produção física. Com isso, nos três primeiros trimestres de 2012, a indústria brasileira já acumulou uma queda de 3,5% na produção, em relação ao mesmo período do ano anterior. Tal desempenho só veio a confirmar as dificuldades de retomada do crescimento da economia do País no corrente ano, a despeito do esforço governamental em contrabalançar os efeitos da crise econômica mundial sobre a economia brasileira. Faltando apenas as informações do último trimestre do ano, esse fraco desempenho já sinaliza uma taxa negativa no acumulado do ano.

Outro indicador preocupante a respeito da produção industrial brasileira em 2012 são as acentuadas quedas na produção das atividades de material eletrônico e aparelhos de comunicações (-16,3%), veículos automotores (-15,4%), máquinas para escritório e equipamentos de informática (-13,0%) e máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-7,5%). No caso das indústrias de bens de consumo não duráveis, tiveram destaques negativos as atividades produtoras de fumo (-15,3%) e vestuário e acessórios (-11,2%).

No que se refere à produção industrial no Rio Grande do Sul, verifica-se que a mesma tem seguido a tendência apresentada pela sua congênere nacional, com uma queda acumulada de 3,1% na produção, nos nove primeiros meses do ano. No caso do Estado, no entanto, as atividades mais prejudicadas pela queda na produção foram as de metalurgia básica (-20,2%), veículos automotores (-16,6%) e fumo (-16,4%). A única atividade industrial no Estado que destoa do desempenho da indústria nacional é a de máquinas e equipamentos, que apresentou, no período em análise, um crescimento de 14,8%.

A análise estatística destacada acima parece evidenciar alguns fatos estilizados das realidades econômicas nacional e regional. Em primeiro lugar, tem ficado cada vez mais evidente que a economia brasileira é muito mais vulnerável à crise econômica internacional do que alguns analistas tentaram demonstrar depois do rápido crescimento econômico de 2010. De fato, em que pese aos enormes esforços realizados pelo Governo brasileiro nos últimos anos — no sentido de melhorar a distribuição de renda, estimular o consumo e os investimentos —, a dinâmica da economia brasileira em geral, e da indústria em particular, está fortemente condicionada pelos rumos da economia internacional, em especial dos Estados Unidos e da Europa. Embora “tecnicamente” a economia brasileira não esteja em recessão, pode-se afirmar que a mesma continua inserida na crise econômica mundial.

Em segundo lugar, a simetria entre os desempenhos (ver gráfico) não é surpreendente, uma vez que o parque industrial do Estado mantém estreitas relações de compra e venda com o mercado interno nacional e tem sua inserção no mercado externo condicionada pelas mesmas variáveis que afetam a sua congênere nacional. Tais fatos demonstram que não se devem buscar na “economia gaúcha” as razões para o desempenho da indústria aqui instalada. Conforme foi apontado por outros estudos realizados pela FEE já nos anos 80, a atividade industrial que ocorre no território gaúcho nada mais é do que uma parte da indústria brasileira. E não se trata, aqui, de uma questão meramente estatística, onde o RS faz parte da média nacional. Ocorre que a indústria instalada no RS faz parte da estrutura da indústria nacional e se insere na divisão regional do trabalho da economia brasileira. Assim, o seu desempenho deve ser procurado dentro da lógica nacional de crescimento e acumulação, e não da regional.

Portanto, a retomada do crescimento da produção industrial em 2013 dependerá tanto da manutenção da atual política econômica quanto da recuperação da economia mundial.

A produção industrial brasileira em crise

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Consumo e produção: novamente andando juntos?

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Edição: Ano 21 nº 07 - 2012

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Durante os primeiros anos da década passada, o comércio varejista cresceu a taxas inferiores às da indústria brasileira. Essa diferença foi resultado, por um lado, de uma política econômica restritiva, associada ao cenário externo adverso, que se traduzia na escassez de divisas estrangeiras e impunha à economia um ritmo de crescimento do tipo stop and go, e, por outro, de uma taxa de câmbio em processo de desvalorização. Crédito restrito e juros altos inibiram a expansão do consumo doméstico. E a forte demanda externa e o real desvalorizado incentivaram as exportações industriais

A partir de 2004-05, as condições econômicas mudaram. Medidas como aumentos reais do salário mínimo, expansão do Programa Bolsa Família, aumento do crédito, reduções temporárias de impostos sobre o consumo e diminuição das taxas de juros obtiveram sucesso em expandir o consumo. Desde o quarto trimestre de 2003, esse item da demanda interna cresce ininterruptamente.

Na metade da década, também teve início o processo de valorização da taxa de câmbio. Como consequência, os produtos industrializados perderam competitividade no exterior, ao mesmo tempo em que a importação de bens de consumo era facilitada pelo barateamento do dólar. A maior competição à que a indústria nacional foi exposta, tanto no mercado externo quanto no doméstico, fez com que suas taxas de crescimento passassem a minguar.

O aumento do consumo passou, portanto, a ser suprido, em grande parte, pelas importações crescentes. Ao mesmo tempo, a conta externa era fechada pelas exportações de commodities agrícolas e minerais, cujos preços estavam em alta no mercado internacional, e pelo forte ingresso de capitais na conta financeira. Nesse contexto, a taxa de câmbio permanecia valorizada, apesar da deterioração crescente do déficit em transações correntes.

Esse arranjo chegou ao extremo durante a crise que seseguiu ao estouro da “bolha imobiliária” norte-americana em 2008. A produção industrial nacional despencou, como resultado da queda abrupta da demanda internacional. Visando manter a demanda interna aquecida e garantir o prosseguimento do crescimento econômico, o Governo aprofundou as medidas creditícias e fiscais de estímulo ao consumo. Deu resultado. O volume de vendas do comércio logo voltou a crescer às taxas anteriores.

A produção industrial demorou mais para se recuperar. Apenas no começo de 2010, o nível de produção de setembro de 2008 foi novamente alcançado. A partir desse ponto, entretanto, o setor parou. Não conseguiu mais crescer em meio às condições externas ruins, de baixa demanda nos países desenvolvidos, e de uma taxa de câmbio ainda apreciada. Como resultado, o diferencial de crescimento entre o comércio e a indústria aumentou.

Nos últimos meses, esse cenário sofreu algumas alterações. Pelo lado do consumo, já se discutem os limites do crescimento do comércio como decorrência de estímulos creditícios e fiscais, tendo em vista o aumento da inadimplência em alguns segmentos (notadamente o de crédito para compra de automóveis) e algumas evidências de saturação no consumo de bens duráveis. Pelo lado da indústria, a principal notícia é a desvalorização da moeda brasileira, que se soma às medidas de política industrial e à redução dos juros. Uma expansão marginal menor do comércio e uma retomada da produção industrial, voltada para atender parcelas do mercado interno antes ocupadas por importações, podem ser o resultado do novo patamar cambial mais depreciado.

Consumo e produção novamente andando juntos

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Desaceleração da indústria gaúcha em 2011

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Edição: Ano 20 nº 10 - 2011

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Depois da forte recuperação da atividade industrial que caracterizou o ano de 2009, a indústria gaúcha adentrou em um período de estagnação relativa, marcado por uma persistente trajetória oscilatória, com o agravante de ainda continuar abaixo do nível pré-crise de 2008. Nos últimos 18 meses, o indicador de produção física industrial do IBGE, na série livre de influências sazonais, alternou movimentos mensais de expansão e de queda, de modo a situar-se, em julho de 2011, apenas 1,2% acima do verificado em janeiro de 2010, último mês da trajetória ascendente pós-crise. No acumulado dos primeiros sete meses de 2011, comparado com igual período de 2010, a variação da produção da indústria de transformação foi de apenas 1,4%; no acumulado em 12 meses, houve recuo pelo nono mês consecutivo (1,5% em julho de 2011), evidenciando o quadro de desaceleração da indústria no Estado.

A continuidade da valorização cambial e o novo ciclo de elevação da taxa básica de juros Selic, paralelamente às medidas de restrição ao crédito adotadas, nos últimos meses de 2010, em resposta à deterioração do controle da inflação, configuraram um cenário desfavorável para a indústria gaúcha no período analisado.

A perda de dinamismo da atividade industrial também pode ser observada nos demais indicadores, mas, principalmente, na medida da produtividade do trabalho, obtida pela razão entre a produção industrial e o número de horas pagas. Assim, verifica-se que, na comparação dos primeiros sete meses de 2011 com o mesmo período de 2010, a produtividade apresentou uma queda de 0,9%. É a diminuição expressiva do ritmo de crescimento da produção física industrial no período que melhor explica essa diferença de resultados, uma vez que a evolução do número de horas pagas é mais estável. Já o comportamento do emprego foi positivo no acumulado do ano até julho, com expansão de 2,8%, o que se converteu em elevação da folha de pagamento e, em consequência, dos custos da mão de obra industrial, uma vez que não foi acompanhada por aumento de produtividade.

Dos ramos industriais pesquisados mensalmente pelo IBGE, 50% apresentaram redução da atividade no acumulado dos primeiros sete meses de 2011, em comparação com igual período de 2010, com destaque para refino de petróleo e álcool (-9,8%), celulose, papel e produtos de papel (-6,8%) e metalurgia básica (-5,7%). Dentre os que mantiveram uma trajetória ascendente, sobressaem-se máquinas e equipamentos (12,0%), fumo (10,3%) e alimentos (5,1%).

A maior parte dessas atividades teve perda de produtividade em 2011, sendo a mais expressiva o refino de petróleo e álcool, que, inclusive, já havia registrado perdas em 2010, por conta de problemas vinculados à exportação e à diminuição da produção de óleo diesel e naftas para a petroquímica. Também foi a queda na produção que motivou as perdas na produtividade do trabalho das atividades de fabricação de celulose e papel e metalurgia básica. Já o recuo em alimentos e bebidas parece ter sido motivado pelo incremento no pessoal ocupado e pelo número de horas pagas em intensidade superior ao crescimento da produção industrial. Os maiores ganhos ocorreram no segmento de fumo, porém em decorrência da combinação de aumento na produção e diminuição de número de horas trabalhadas e de pessoal ocupado.

Um dos principais desafios das indústrias gaúcha e brasileira é, pois, aumentar sua produtividade, o que passa pelo aumento de investimentos em tecnologia e em inovação, de modo a capacitar as empresas a enfrentarem a concorrência, cada vez mais acirrada, no mercado tanto externo como interno. O Plano Brasil Maior e suas medidas destacam-se ao reconhecer a importância do setor industrial para a sustentação do crescimento econômico, podendo contribuir para o processo de recuperação da competitividade de importantes setores da indústria nacional.

Nos próximos meses, dificilmente a atividade industrial gaúcha irá alterar de modo significativo sua trajetória de desaceleração, não obstante a nova política industrial, a queda na taxa de juros e a desvalorização do real, em virtude dos seus efeitos retardados sobre a produção.

Desaceleração da indústria gaúcha em 2011

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Nível de atividade da economia gaúcha desacelera

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Edição: Ano 19 nº 08 - 2010

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Após a forte queda do nível de atividade observada no último trimestre de 2008 e no primeiro de 2009, que resultou do agravamento da crise do subprime em nível mundial, a economia brasileira ingressou num processo acelerado de recuperação do nível de atividade. Entre mar./09 e mar./10, a produção nacional da indústria geral (indústria de transformação e extrativa mineral) cresceu, em média, 18,2% (anualizado), acumulando, de janeiro a maio de 2010, um crescimento de 16,5% em relação ao mesmo período do ano anterior (gráfico). De modo geral, a economia gaúcha acompanhou o desempenho da economia nacional durante e após o período de crise. Entre mar./09 e mar./10, a produção da indústria geral no Estado cresceu, em média, 14% (anualizado), acumulando, de janeiro a maio de 2010, um crescimento de 12,3% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Observa-se, no entanto, uma desaceleração da produção da indústria geral na margem, em nível tanto nacional como estadual (gráfico). No País, a produção da indústria geral ficou estagnada, em abril e maio, no mesmo nível de produção alcançado em março de 2010. Esse nível, por seu turno, também é bastante próximo do nível de produção alcançado no período pré-crise (3º trim./08). No Estado, a desaceleração começou antes, de modo que, em médias móveis trimestrais, a produção se encontra estagnada desde fevereiro deste ano, num nível ainda inferior ao alcançado no período que antecedeu a crise. Embora ainda bastante incipiente, a desaceleração do nível de atividade na economia brasileira pode estar refletindo a proximidade do fim do ciclo de crescimento proporcionado pela utilização da capacidade ociosa criada durante a crise e a adoção de políticas monetária e fiscal contracionistas. No caso da economia gaúcha, soma-se a esses dois fatores a queda do volume das exportações no primeiro semestre.

Nível de atividade da economia gaúcha desacelera

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Persistem as dificuldades da indústria gaúcha

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Edição: Ano 14 nº 11 - 2005

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A evolução da produção física industrial mensal dos estados da Região Sul mostra uma tendência declinante ao longo dos últimos 12 meses, embora em patamares e variações mensais relativamente distintas, refletindo uma reação diferenciada aos fatores conjunturais que vêm influenciando o comportamento do setor. Nesse sentido, o melhor desempenho pertence à indústria do Paraná, e o pior, à do Rio Grande do Sul.

A sucessão de taxas negativas experimentadas pela indústria gaúcha em 2005 reflete peculiaridades regionais, como a forte vinculação com a agropecuária, que potencializa a repercussão da valorização cambial e dos efeitos diretos e indiretos da estiagem deste ano. A indústria de máquinas e implementos agrícolas, principalmente o segmento fabricante de colheitadeiras automotrizes, representando quase 10% do valor de transformação industrial (VTI) estadual e que se constitui no maior produtor desses bens no País, tem acumulado elevadas taxas negativas, com reflexos sobre o desempenho de outras atividades, tais como a metalurgia básica.

Nesse contexto, o resultado positivo do mês de agosto (1,1%) provavelmente não deverá significar uma reversão da situação desfavorável da indústria gaúcha. Faltando apenas poucos meses para o final do ano, é pouco provável que sejam recuperadas as perdas significativas impostas ao setor, decorrentes da frustração da safra, da apreciação da moeda nacional e da política de juros elevados.

Persistem as dificuldades da indústria gaúcha

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Constrangimentos à continuidade do crescimento industrial

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Edição: Ano 13 nº 10 - 2004

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A atividade econômica vem mantendo, ao longo de 2004, uma trajetória de expansão, impulsionada pelos sucessivos recordes nas exportações e pela moderada recuperação do mercado interno.

No indicador acumulado jan.-ago./04, a produção industrial brasileira cresceu à taxa de 8,8% em relação a igual período do ano anterior, registrando taxas elevadas em quase todas as categorias de uso, com destaque para os bens de capital e para os bens duráveis de consumo. A retomada da trajetória de crescimento estimulou o aumento das horas trabalhadas e elevações, embora menos expressivas, nos níveis de emprego e salários, disseminando, para outros setores, a expansão da atividade fabril. Com efeito, a partir do segundo trimestre, observa-se uma recuperação modesta das atividades mais dependentes da demanda interna.

Tal expansão elevou os níveis de utilização da capacidade instalada do setor industrial (grau médio de 83,9% em agosto), aproximando muitos setores dos seus limites, como é o caso do segmento de bens intermediários, especialmente metalurgia, papel e papelão, borracha, petroquímica e têxtil.

O mesmo comportamento expansionista é observado em todos os estados pesquisados pelo IBGE, com exceção do Rio de Janeiro. No Rio Grande do Sul, o indicador acumulado alcançou a taxa de 8,2%, ligeiramente inferior à média nacional. Os melhores desempenhos ficaram com os setores exportadores (agroindústria e máquinas e equipamentos), dando continuidade a uma tendência já diagnosticada anteriormente. O segmento produtor de bens semiduráveis e não duráveis, à exceção de fumo e bebidas (respectivamente, 31,08% e 6,50%), repete o fraco desempenho observado em anos anteriores (vestuário e acessórios, -4,4%; alimentos, -0,16%).

Embora haja uma previsão de continuidade de crescimento no curto prazo, a questão que se coloca é sobre até quando será possível mantê-lo. O segmento produtor de bens intermediários, um dos principais gargalos do crescimento industrial, apesar de registrar taxas elevadas de expansão em quase todas as atividades, vem tendo dificuldades em suprir a demanda da indústria. O indicador acumulado jan.-ago./04 mostra um bom desempenho nas atividades produtos de metal e borracha e plástico, em nível tanto nacional quanto regional.

Apesar desse bom desempenho, a produção de bens intermediários, no Rio Grande do Sul, representa apenas 6%
da produção nacional desses bens, mas, na estrutura industrial gaúcha, ocupa a segunda posição (29%), com destaque para outros produtos químicos e produtos de metal.

Parte das dificuldades vêm sendo sanadas pelo aumento das importações de insumos, matérias-primas, máquinas e equipamentos e pela retomada dos investimentos, porém ainda em níveis insuficientes para garantir uma retomada sustentada do crescimento.

Os gargalos de infra-estrutura e de insumos básicos podem já, no médio prazo, comprometer as exportações e limitar o crescimento potencial, exigindo, portanto, medidas de apoio, públicas e privadas, para o equacionamento dos entraves.

O passo inicial foi dado com a modernização e a ampliação dos portos, viabilizadas pelo programa Reporto, enquanto o transporte rodoviário, dependente da implementação de programas do tipo parceria público-privada, continua aguardando decisões do Legislativo. Os fabricantes de insumos básicos, por sua vez, além das reivindicações de juros menores, solicitam políticas específicas para o setor.

Produção física industrial e valor da transformação industrial total e dos bens intermediários no Brasil e no Rio Grande do Sul — 2002 e jan.-ago./04

Constrangimentos à continuidade do cr

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Retomada do crescimento da produção industrial gaúcha em 2002

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Edição: Ano 12 nº 03 - 2003

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Em 2002, a produção física da indústria do RS alcançou a expressiva taxa de crescimento de 4,0%, refletindo o bom desempenho observado em grande parte dos gêneros industriais, sobretudo naqueles vinculados à agroindústria. Na comparação com os outros estados pesquisados pelo IBGE, o setor industrial gaúcho atingiu o terceiro melhor resultado, perdendo apenas para o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, cujas elevadas taxas de expansão são explicadas pela performance favorável da indústria extrativa.

Uma análise mais desagregada dos indíces do IBGE permite observar que a atividade industrial foi fortemente influenciada pela evolução da produção de colheitadeiras agrícolas e de ônibus, reboques e semi-reboques, produtos integrantes dos gêneros mecânica (18,4%), material de transporte (9,2%) e metalúrgica (4,0%). Além destes, deve-se destacar o comportamento do gênero fumo, com taxa de crescimento anual de 33,6%, em virtude dos avanços no beneficiamento e na exportação do fumo em folha.

Esses gêneros poderão repetir o bom desempenho nos primeiros meses de 2003, beneficiados pela continuação do apoio à renovação do parque de máquinas agrícolas, através do Moderfrota, e pela expansão das exportações desses produtos.

Retomada do crescimento da produção industrial gaúcha em 2002

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