Textos com assunto: Modelo de desenvolvimento

O modelo de crescimento em xeque

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Edição: Ano 22 nº 12 – 2013

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A dinâmica do PIB em 2013, alternando períodos de crescimento e queda, trouxe novamente à tona o debate sobre o esgotamento do modelo de crescimento que vigorou entre 2004 e 2010, assim como as dificuldades associadas à consolidação de um novo modelo que permita a retomada do crescimento em ritmo mais elevado. Pelo menos três pilares do modelo anterior não estão mais presentes no contexto atual: o crescimento do consumo via crédito encontra limites no endividamento das famílias, deixando de ser um elemento impulsionador do crescimento e do investimento privado; a elevada liquidez mundial começa a escassear e traz incertezas aos mercados financeiros, limitando o papel da taxa de câmbio como âncora para os preços; e o ciclo de elevação dos preços das commodities mostra reversão, o que piora o déficit em transações correntes e ressuscita o risco de desequilíbrio externo e choque cambial.

A preocupação com a transição para um novo modelo de crescimento — com menor dependência do crescimento do crédito e do consumo e maior equilíbrio externo — já estava presente em 2011, quando ficou claro que a crise internacional se estenderia por mais alguns anos. Naquele período, o Governo buscou produzir uma depreciação cambial não inflacionária (isto é, combinada com medidas de contenção da demanda), com o objetivo de aumentar a proteção à indústria, tendo em vista a perda de competitividade acumulada ao longo dos anos e o acirramento da competição mundial. Porém, essas medidas, acrescidas do agravamento da crise internacional, provocaram a desaceleração no ritmo de crescimento. Em resposta a isso, o Governo retomou os incentivos ao consumo, dando reforço também às medidas de estímulo ao investimento e à recuperação da competitividade — dentre as quais se destacam o crédito a custos baixos do BNDES, a redução do preço da energia elétrica e a redução de impostos sobre a folha de salários. Ao longo de 2012, o consumo cresceu, mas esse crescimento foi, em sua maioria, atendido pela redução de estoques e pelas importações. Ou seja, não induziu a um aumento da produção. Por outro lado, os investimentos também ficaram estagnados, dado que havia capacidade ociosa, gerada no ciclo de investimentos de 2010, ainda a ocupar ao longo de 2012. Como resultado, a economia cresceu apenas 1,0%.

O problema é que o baixo crescimento do PIB e o cenário internacional adverso aceleraram a piora dos fundamentos macro. O volume de exportações tem oscilado em torno do mesmo nível desde meados de 2006, mas, até o ano passado, ainda havia crescimento das receitas em dólares, devido à elevação dos preços. Em 2013, os preços das exportações caíram, o que reduziu o saldo comercial e ampliou o déficit em transações correntes. Como agravante, a balança do petróleo apresentou piora considerável, por questões pontuais ligadas à produção da Petrobras e ao registro atrasado de importações. A queda do superávit primário, por seu turno, decorre menos de uma mudança na dinâmica dos gastos do que de uma redução nas receitas. Isso mostra que o custo-benefício dos estímulos já não compensa: eles não têm gerado crescimento suficiente para contrapor a renúncia das receitas. Finalmente, a taxa de câmbio deixa de ser um contrapeso no controle dos preços, o que torna a inflação mais resistente à queda em um cenário de manutenção do emprego e mudança estrutural no setor de serviços.

A novidade é que, em 2013, os investimentos mostram recuperação, com crescimento de 6,5% no ano. Essa recuperação pode ser explicada pela ocupação da capacidade gerada no ciclo de investimentos anterior, pelas medidas do Governo para a sua ampliação, incluindo as concessões em infraestrutura, e pela retomada das compras de veículos pesados. Os dados do PIB de 2013 não mostram uma economia estagnada ou em recessão. O que se observa é muita volatilidade na comparação trimestre contra trimestre imediatamente anterior. Esta pode ser atribuída, dentre outras razões, ao comportamento atípico da produção de petróleo e da agricultura no primeiro semestre deste ano. Ademais, toda comparação trimestral, mesmo que ajustada sazonalmente, está sujeita a uma maior oscilação, devido aos ciclos de estoque. A queda de 0,5% do PIB no terceiro trimestre insere-se também nesse contexto, uma vez que sucedeu um crescimento de 1,8% no trimestre anterior (o que equivale a uma expansão anualizada de 7,2%). No acumulado do ano, o crescimento é de 2,4%, e, no acumulado em quatro trimestres, a taxa tem aumentado, de 0,9% no terceiro trimestre do ano passado para 2,3% neste ano. Ainda que não possa ser considerado um desempenho espetacular, esse crescimento tem sido suficiente para manter o nível de emprego.

De toda forma, fica claro que a aceleração do crescimento não poderá ser alcançada com uma política de mais do mesmo. De um lado, não se pode contar com maiores estímulos vindos do consumo e da demanda externa. De outro, o mercado de trabalho segue aquecido, e o cenário externo não permite que a apreciação cambial seja acionada para compensar pressões inflacionárias. Nesse contexto, crescer mais sem inflação depende, cada vez mais, do aumento da produtividade.

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