Textos com assunto: inovação tecnológica

O debate sobre o papel do Estado na inovação tecnológica, no Rio Grande do Sul

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Edição: Ano 26 nº 10 – 2017

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Atualmente, é comum ouvir, com veemência, a ideia de que o setor público possui um papel secundário na economia e, principalmente, na promoção e no desenvolvimento de inovações tecnológicas. No âmbito econômico, o Estado teria que tão somente fazer os ajustes necessários macroeconômicos (como no câmbio, nos juros, etc.) para garantir o bom desempenho das atividades produtivas. No campo das inovações, esse pensamento também se apresenta, com o Estado sendo visto como um mero apoiador indireto dos processos inovadores ou, vulgarmente, estando associado à afirmação “se não atrapalhar já está bom”. Tal concepção tem por base o pressuposto de que a empresa privada é o agente inovador por excelência.

Diversos estudiosos dos mais diferentes países e campos do conhecimento, reunidos na área que se convencionou chamar de Estudos da Inovação, vêm combatendo esse ideário com outra perspectiva: a de que as atividades de inovação ocorrem em um contexto de alinhamento dos setores público e privado e da sociedade civil, cabendo, sim, um papel importante ao Estado. Como exemplo dessa visão, recentemente foi fundado o Instituto para a Inovação e o Propósito Público (Institute for Innovation and Public Purpose) na University College London, na Inglaterra, o qual, como fica subentendido pelo próprio nome, pretende fomentar a discussão, em âmbito internacional, sobre as atribuições do Estado nos processos de inovação, e é integrado por uma equipe qualificada de pesquisadores de várias partes do mundo.

No RS, como no Brasil, esse debate se faz necessário também, apesar das dificuldades e complexidades de realizá-lo. Nesse sentido, parece válido observar alguns indicadores sobre o apoio do Governo para a inovação, presentes na Pesquisa de Inovação, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que nos mostram algumas tendências interessantes e, ao mesmo tempo, preocupantes. Com referência às empresas industriais gaúchas e brasileiras, no Gráfico 1, podemos ver os percentuais de financiamento das atividades internas de pesquisa e desenvolvimento (P&D) provenientes de fontes públicas. No Brasil, há um comportamento constante, em todo o período considerado (2003 a 2014), de crescimento do apoio governamental às atividades inovadoras, tendência também seguida pelo RS até 2008. Após esse período, há uma significativa diminuição desse tipo de auxílio no Estado, o que tem diversas explicações, entre as quais a mais importante é a falta de interesse das empresas gaúchas nesse tipo de ajuda. Trata-se de uma retração que alcançou quase 11 pontos percentuais, de 28,2% em 2008 para 17,5% em 2014, porém com valores ainda superiores aos nacionais (14,7%). Se prosseguir essa tendência, na próxima edição da pesquisa, o RS ficará abaixo da média nacional. Tal fato é preocupante porque, frequentemente, o investimento público tem-se notabilizado como aquele voltado aos projetos mais complexos e de maior risco (econômico e/ou técnico) e, portanto, de maiores impactos positivos, quando exitosos.

Além disso, os dados mais desagregados do apoio estatal à inovação mostram um fato inquietante de caráter estrutural (Figura 1). A grande maioria das empresas inovadoras obtém financiamento governamental para a aquisição de máquinas e equipamentos para inovar, tanto no País (77,8%) como no Estado (78,1%). Isso demonstra a baixa capacidade do tecido produtivo local de produzir efetivamente suas inovações (preferem comprar os artefatos tecnológicos prontos), em detrimento de outros tipos de apoios mais relevantes em termos de alcance e impacto das novidades, como são os projetos de P&D e inovação em colaboração com universidades (ambos, Brasil e RS, na faixa dos 2 a 3%). Ademais, o segundo programa mais utilizado pelas empresas gaúchas e brasileiras é o de incentivos fiscais (14,7% e 10,5% respectivamente), um tipo de auxílio que vem sofrendo críticas de especialistas de várias nações pela sua pouca efetividade em promover, realmente, os processos de inovação, pois acaba sendo, simplesmente, uma forma de substituir os recursos próprios das firmas para inovação por meio desse incentivo e não de aumentar o montante geral de investimentos.

Os dados aqui apresentados reforçam, principalmente para o RS, a necessidade do debate a respeito das atribuições estatais, em todas as suas esferas (municipal, estadual e federal), na efetivação das atividades de inovação como uma prática sistemática da estrutura produtiva (privada e pública), no quadro de uma economia moderna, que depende enormemente do conhecimento e da aprendizagem para o desenvolvimento econômico e social geral.

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Cooperação para inovar nas empresas gaúchas: avanços recentes frente aos desafios atuais

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Edição: Ano 26 nº 3 – 2017

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A última e recém-lançada Pesquisa de Inovação (Pintec), organizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), traz importantes informações sobre as empresas brasileiras, por meio de diversos indicadores, a respeito das inovações de produto, de processo, organizacionais e de marketing. Dentre os dados coletados no triênio 2012-14, merecem atenção os referentes às relações de cooperação para inovação entre empresas e destas com outras organizações, com ou sem o objetivo de obter benefícios econômicos imediatos. Essa importância é apontada pela literatura internacional vinculada ao campo dos estudos de inovação, ressaltando como muitas das principais inovações originam-se de processos cooperativos dentro das firmas (entre funcionários, departamentos, etc.) e/ou com outras organizações (empresas concorrentes, fornecedores, clientes, governos, universidades, instituições de pesquisa, etc.).

Ao longo de suas seis edições, abrangendo o período de 1998 a 2014, a Pintec vem mostrando informações interessantes com respeito às empresas das indústrias extrativa e de transformação do Brasil e do Estado do RS, como a que consolida o RS como líder, no País, em termos de cooperação em projetos de pesquisa e desenvolvimento e de inovação em parceria com outras organizações. Como se pode ver na Figura 1, em todo esse tempo, o percentual de empresas que cooperaram foi maior no RS do que em todo o Brasil, com exceção do triênio 2009-11. É importante destacar que, nesta última edição da Pintec (2012-14), o RS alcançou sua maior taxa de cooperação, de 19,7%, o que equivale, em números absolutos, a 915 firmas, juntamente com um aumento apreciável em relação ao período anterior (2009-11), quando apresentava apenas 9,3% (um pouco mais de 10 pontos percentuais de aumento, mais que duplicou). Além disso, na última edição da Pintec, na comparação com os principais estados do País, o RS novamente assumiu uma posição de destaque, seguido de perto por Minas Gerais, Rio de Janeiro, ambos com aproximadamente 17%, São Paulo (15,4%) e as outras unidades da Região Sul, Paraná (14,1%) e Santa Catarina (12,6%).

Olhando somente o Rio Grande do Sul (Figura 2), no último período, percebe-se que os principais parceiros das empresas inovadoras foram os fornecedores e os clientes ou consumidores, para, respectivamente, 82% e 77% dessas empresas, e, logo após, as instituições de testes, ensaios e certificações, com 58%. A liderança dos dois primeiros — fornecedores e clientes — é geralmente encontrada em outros países, o que enfatiza a relevância desses atores para as empresas. Outro dado importante é que, de maneira geral, as taxas de cooperação gaúchas por tipo de parceiro eram um pouco superiores às do País, à exceção de concorrentes e de outras empresas do grupo.

Apesar do valor que todos os tipos de parceria possuem para as atividades de inovação, há um que é especialmente relevante para a geração das inovações mais radicais: universidades e institutos de pesquisa. Efetivamente, as regiões e os países mais inovadores apresentam frequentemente importantes projetos de inovação vinculados ao trabalho conjunto de empresas com instituições de pesquisa e/ou de ensino superior. Nesse quesito, o RS também exibe uma situação de realce no cenário nacional. Acompanhando as tendências gerais das taxas globais de cooperação, as percentagens de empresas que têm parcerias com essas instituições são, em geral, maiores no RS do que no País, ao longo de todo o período das pesquisas da Pintec, excluindo o triênio 2009-11 (Figura 3). Verifica-se, igualmente, que o Estado apresentou, no último período (2012-14), o maior percentual da série, de 5,2%.

Apesar desses dados positivos, deve-se salientar que todos esses percentuais estão muito abaixo dos de nações líderes em inovação. Por exemplo, no ano de 2012, na União Europeia (UE), em torno de 13% das firmas inovadoras cooperaram com instituições de ensino superior, enquanto, na Alemanha, chegou-se aos 14,3% e, no Reino Unido, a quase 20% — dados do órgão de estatística oficial da UE (Eurostat) —, alcançando, portanto, valores bem superiores aos brasileiros e gaúchos, sem considerar a qualidade e a densidade das parcerias.

Embora os números da Pintec indiquem uma tendência de aumento dos índices e de uma superioridade do RS no Brasil na relação cooperação-inovação de suas empresas, essa condição favorável pode ser influenciada negativamente, em 2015 e 2016, no Estado e no País, pela atual crise econômica, logo após a última edição da pesquisa (2012-14). Além disso, os patamares dessas cooperações são substancialmente inferiores aos das principais nações em desenvolvimento de inovações. Portanto, as firmas gaúchas e brasileiras têm muito espaço para avançar em atividades colaborativas com outras organizações, principalmente com universidades e instituições de pesquisa. À luz da literatura dos estudos de políticas de ciência, tecnologia e inovação, uma leitura possível desse quadro contraditório e preocupante (crise e cooperação no RS e no Brasil, em comparação a outros países) é a de que o aumento da cooperação discutido neste texto se configura como uma possibilidade de enfrentamento à crise atual e à persistente baixa capacidade de inovar das empresas.

Como citar:

TARTARUGA, Iván Gerardo Peyré. Cooperação para inovar nas empresas gaúchas: avanços recentes frente aos desafios atuais Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/cooperacao-para-inovar-nas-empresas-gauchas-avancos-recentes-frente-aos-desafios-atuais/>. Acesso em: 11 de dezembro de 2017.

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RS é um dos Estados que mais inova no Brasil, porém…

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Edição: Ano 23 nº 01 – 2014

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A colocação de destaque do RS, com a segunda melhor taxa de inovação entre os estados do Brasil, tem origem na última edição da Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec) do IBGE, que é a maior e mais completa pesquisa sobre inovação das empresas instaladas em território brasileiro, compreendendo o setor industrial no período 2009-11. As empresas gaúchas, nesse período, apresentaram uma taxa de inovação de 42,2%, ou seja, 4.627 empresas, do universo de 10.955, declararam implementar algum tipo de melhoria significativa ou novo produto e/ou processo produtivo. Per-centual este acima do valor nacional, que foi de 35,6%. Nessa mesma linha, as taxas desagregadas (de produto e de processo) do RS possuem índices maiores que os nacionais.

Mais interessante é o dado referente à taxa de inovação de produto e/ou processo novo para o mercado nacional. Esse indicador mostra o grau de radicalidade ou de alteração nos produtos e processos novos ou aperfeiçoados. No RS, 5,5% das firmas inovaram com produtos novos para o País, ao passo que, no Brasil, somente 3,7% do conjunto das empresas. Em termos de processo produtivo, a taxa do RS também foi maior do que a do País, porém com uma pequena diferença, 2,3% para o ente estadual e 2,1% para o nacional. Portanto, as empresas gaúchas, de modo geral, parecem possuir um comportamento inovador mais vigoroso do que a média nacional.

Contudo, ao se compararem essas taxas de inovação com as da edição anterior da Pintec (2006-08), verificou-se uma retração generalizada e importante, tanto no País como no Estado. No tocante ao Brasil, a taxa de inovação, que era de 38,1% em 2008, caiu para 35,6% em 2011, uma queda de 2,6 pontos percentuais, quebrando uma série histórica de aumentos constantes desde a primeira Pintec, em 1998. Já a taxa do Estado passou de 44,1% em 2008 para 42,2% em 2011, uma diminuição de 1,9 ponto percentual, um pouco menor que a do País. Essa evolução permite inferir que a capacidade de gerar inovações das empresas gaúchas, embora esteja entre as melhores do País, se encontra, na verdade, estagnada.

Entre as principais explicações para tal declínio estão: (a) a crise financeira internacional de 2008, que coincidiu com o período de referência da pesquisa (2009-11); e (b) a estrutura produtiva especializada em setores de menor inten-sidade tecnológica. Somam-se a essas os obstáculos para a realização de inovações indicados pelas empresas em todas as cinco edições da Pintec: os riscos econômicos excessivos, os custos elevados para inovar, a escassez de fontes de financiamento e de serviços técnicos externos à empresa adequados, dentre outros.

Outro problema importante a destacar é o de que uma grande parcela das empresas, tanto brasileiras como gaúchas, apontou a aquisição de máquinas e equipamentos como principal meio de acesso ao conhecimento tecnológico para inovar. Essa tendência também se verificou nas edições anteriores da Pesquisa. Infelizmente, esse tipo de ação não favorece a geração de inovações próprias e, por conseguinte, uma maior independência tecnológica do País.

A qualificação das pessoas ocupadas em atividades in-ternas de P&D das empresas é outro aspecto relevante da Pintec. Nesse quesito, os resultados indicam, por um lado, que o RS necessita melhorar suas políticas públicas de for-mação de profissionais e, por outro, que as empresas gaúchas necessitam buscar trabalhadores mais preparados. Com efeito, os percentuais de pesquisadores nas empresas do Estado foram de 67,8% com graduação e de 7% com pós-graduação, enquanto, no País, alcançaram valores sensivelmente maiores, de 70,6% e 12,6% respectivamente.

Esse desempenho em inovação do País está apoiado nas suas estruturas empresarial, educacional e de C&T, ou seja, no tripé empresas-universidades-governos. Nesse sentido, evidencia-se a importância da promoção da organização empresarial, da melhoria quantitativa e qualitativa da formação profissional e científica e da ampliação da disponibilidade dos financiamentos (público e privado) de P&D e inovação. Esse conjunto de elementos se convencionou chamar de Sistema Nacional de Inovação, para ressaltar a importância das relações entre essas ações e instituições. Similares e igualmente relevantes são os Sistemas Regionais e Locais de inovação, estes nas escalas estadual e local, nas quais a proximidade geográfica entre os diferentes atores possibilita e estimula a cooperação. O desafio para os próximos anos, no País e no Estado, está na consolidação desses diversos sistemas como condição necessária para o desenvolvimento socioeconômico.

RS é um dos Estados que mais inova no Brasil, porém...

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