Textos com assunto: Inflação

Performance recente dos preços das commodities

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Edição: Ano 21 nº 02 - 2012

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Acompanhar o comportamento das commodities é relevante devido ao seu impacto na inflação e nas exportações. As commodities iniciaram movimento próspero de preços desde 2002 — com alta mais consistente a partir de 2003 —, relacionado, principalmente, com a retomada do crescimento econômico mundial, com destaque para a robusta demanda chinesa por matérias-primas.

Em julho de 2008, os preços dos não energéticos mais que dobraram em comparação com janeiro de 2003. Ao incluir os preços de energia — leia-se carvão, gás e petróleo —, a elevação foi de 3,3 vezes para o mesmo período. Entretanto, a partir de agosto de 2008, os preços começaram a cair, em decorrência da crise econômica mundial, mas logo se recuperaram.

Em dezembro de 2008, a cotação das commodities não energéticas diminuiu 34,80% em relação a julho do mesmo ano, mas subiu 32,84% de dezembro de 2008 a dezembro de 2009. De julho a dezembro de 2010, permaneceu em rota ascendente, e um novo patamar foi atingido em abril de 2011. A partir de maio de 2011, iniciou-se movimento baixista. Em dezembro de 2011, diminuiu 19,73% em relação a abril do mesmo ano. Apesar disso, ainda permanece elevada em comparação com os preços históricos e levemente abaixo do ápice de 2008. Se continuar a cair, podem ser arrefecidas as pressões inflacionárias. Por outro lado, o saldo comercial brasileiro, favorecido nos últimos anos pelos altos preços das commodities, poderá deteriorar-se.

Performance recente dos preços das commodities

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O Brasil e o medo da inflação (e do futuro)

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Edição: Ano 20 nº 12 - 2011

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Em 2008, o estouro da bolha imobiliária norte-americana marcou o início de uma prolongada estagnação nos países do centro. Em 2010, presenciou-se um novo capítulo da crise inacabada, desta vez com foco na situação fiscal de diversos países, mais notadamente na Europa. Como resultado, o medo voltou a rondar as portas da economia brasileira.

O Brasil apresentou uma recuperação relativamente rápida do choque de 2008, resultado, em grande parte, da combinação das políticas de renda mínima com um manejo eficiente da política de crédito, que garantiu o fortalecimento do mercado interno nacional. Hoje, diante da crise que vem afetando os países europeus e da estagnação norte-americana, o País tem apresentado considerável estabilidade nos principais indicadores econômicos. Porém o debate nacional estimulado por parte dos analistas e dos economistas brasileiros tem levantado a possibilidade de que a situação econômica venha a retroceder a qualquer momento. O foco atual das preocupações é o risco do descontrole inflacionário por conta de um governo pouco comprometido com seu combate. Contudo, através de uma análise mais atenta, pode-se verificar que, com a devida cautela de não minimizar problemas evidentes, há um exagero nas previsões mais pessimistas.

Em 2011, o Brasil crescerá acima da média mundial, como já havia ocorrido em 2010. Além disso, o País apresenta, atualmente, a menor taxa de desemprego da série histórica do IBGE após a mudança da metodologia em 2002, justamente em um momento em que esse problema assola grande parte dos países do mundo. Quanto à proteção aos mais pobres, os mais afetados pela inflação, as políticas sociais de valorização do salário mínimo do Governo fizeram com que milhões de brasileiros ascendessem socialmente. A relação dívida líquida/PIB, que vem caindo ao longo dos anos, chegando a 40,9% em 2010 — era de mais de 50% antes de 2002 —, mais o fato de se ter cumprido todas as metas de superávit primário desde o Governo Lula, não corrobora a tese de um governo perdulário.

Quando, em agosto do corrente ano, o Bacen começou a reduzir a Selic, diversos analistas e periódicos alertaram para o fato de a inflação sair de controle. Contudo o Governo teve um entendimento que considerava o impacto da economia mundial sobre a brasileira: tanto a produção industrial quanto os índices de preços e expectativas de inflação futura estavam em desaceleração. Cabe notar, ainda, que a decisão de reduzir a taxa de juros foi tomada dias após o corte de R$ 50 bilhões nos gastos governamentais, mostrando uma afinidade entre a política fiscal e a monetária que não era vista há anos. Quando o medo era de superaquecimento da economia, como no início de 2011, o crédito foi restringido. Agora, neste novo cenário mundial e brasileiro, tais restrições começam a ser retiradas.

Não se atendo a fatores de longo prazo, mais notadamente ao problema do crescente déficit de transações correntes (Carta de Conjuntura FEE, ano 20, n. 10, out./11), a tabela abaixo mostra que a economia brasileira, quando tomada no seu conjunto, apresenta indicadores que não só não destoam das principais economias mundiais, como sinalizam um cenário de estabilidade econômica. Pelo menos por enquanto, não há motivos para pesadelos.

O Brasil e o medo da inflação (e do futuro)

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=ZvOKwEUR3-g]

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A taxa de juros e a “independência” do Banco Central

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Edição: Ano 20 nº 10 - 2011

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Pela primeira vez desde a instituição do sistema de metas de inflação, o Comitê de Política Monetária surpreendeu o “mercado” numa decisão sobre o nível da taxa de juros. Fazendo eco à opinião de economistas que atuam como consultores de instituições financeiras, muitos com passagens anteriores pelo próprio Banco Central do Brasil (BCB) ou por ministérios da área econômica, uma quase unanimidade de órgãos de imprensa e colunistas especializados criticou duramente a redução de 0,5% na taxa Selic. Para além do óbvio interesse de bancos e demais agentes financeiros em juros elevados, por que tamanha grita, com acusações de fraqueza, subserviência política, irresponsabilidade para com os fundamentos macroeconômicos e outros epítetos infamantes?

O regime de metas de inflação foi implantado no Brasil como garantidor da estabilidade perdida com o fracasso da âncora cambial na crise de 1999. O desajuste do Balanço de Pagamentos tornou inviável a manutenção do real valorizado. Sem o câmbio quase fixo, uma equação alternativa de equilíbrio macroeconômico tornou-se necessária para manter a inflação baixa. Um novo arrimo para o sistema de preços foi construído com o uso da taxa de juros objetivando manter a demanda interna contida e — indiretamente, via atração de fluxos financeiros do exterior — sustentar o valor da moeda. O mecanismo real que manteve a inflação baixa foi o mesmo: a repressão do comportamento formador de preços dos agentes domésticos da economia, seja pela concorrência das importações, seja pela contenção da renda real dos consumidores.

Entretanto, no elegante mundo da teoria, o sistema é justificado por suas qualidades ímpares de transparência — o que lhe asseguraria a compatibilidade com o regime democrático — e previsibilidade — o que, por sua vez, lhe garantiria o poder de debelar as incertezas inerentes à opacidade da economia de mercado. Os modelos econométricos usados para realizar as previsões sobre o comportamento das variáveis descritivas do funcionamento da economia e suas tendências foram divulgados; as reuniões do Copom passaram a ter agenda e atas publicadas; e foi criado um instrumento de acompanhamento das expectativas dos agentes econômicos tidos como relevantes através da pesquisa Focus, a qual colhe a opinião de analistas vinculados ao âmbito financeiro. Consolidou-se um ritual em que, na data prevista, o colegiado encarregado de executar a política monetária se reúne para decidir seu rumo, tendo em mãos os resultados da impressão do “mercado” sobre um conjunto de variáveis relacionadas a crescimento, emprego, inflação e juros, além dos estudos econométricos desenvolvidos por sua assessoria. Por votação, é decidido o patamar da taxa de juros a vigorar no período subsequente. Tudo para manter o índice de inflação dentro do intervalo previamente estabelecido e o mais próximo do centro da meta.

Desde a inauguração do regime, o mandato da direção do BCB tem como objetivo exclusivo conseguir que a variação dos preços seja a mais próxima possível do centro da meta, não importando seus custos no que diz respeito ao emprego e à renda. Essa mudança dos objetivos a serem seguidos pelas autoridades monetárias criou um novo padrão de política econômica, seguindo um modelo que se difundiu por boa parte do mundo. A prioridade para a manutenção, a qualquer custo, do valor da moeda é consequência dos interesses que se tornaram hegemônicos nesses tempos da globalização: aqueles dos detentores da riqueza financeira. Por todos os lugares, governos estão prontos para sacrificar o emprego e a renda, não vacilando em provocar recessões ou em manter suas economias por largos períodos em situação de estagnação, em favor da valorização de suas moedas. Esse fenômeno chama-se financeirização, a subordinação não apenas dos gestores da política, mas de toda a atividade econômica, inclusive da produção, ao desígnio da valorização da finança. Para as empresas, o que vale não é mais crescer e conquistar mercados, mas valorizar suas ações nas bolsas. É o “valor do acionista” que põe a especulação à frente da produção.

Da mesma forma, para os governos, além das “metas de inflação”, o que vale é a redução de impostos, para os ricos evidentemente, e sua consequência, o aumento do endividamento. A redução da receita ainda é potencializada pela ausência de crescimento e precisa ser compensada com queda no lado da despesa. Os gastos sacrificados são educação, saúde e seguridade social, tudo o que interessa à maioria da população, mas é assegurado o pagamento em dia dos juros da dívida. No entanto, se o crescimento da dívida pública faz aumentar os lucros dos seus credores, também amplifica os riscos do mercado financeiro. Para apaziguar os espíritos apreensivos dos especuladores, estabelecem-se metas fiscais para o controle do déficit orçamentário e da relação dívida/PIB. O exercício da soberania dos Estados fica condicionado à necessidade de preservar sua credibilidade.

Aqui, como alhures, a credibilidade da autoridade monetária deve ser afirmada reiteradamente através do ritual “previsível” e “transparente”, em que, num processo circular e tautológico, os agentes financeiros são auscultados sobre o desempenho macroeconômico e seus efeitos nas tendências da inflação, indicando em que nível deve ser fixada a taxa de juros. Em razão disso, a decisão tomada é exatamente a que o “mercado” deseja, e a isso, ironicamente, se quer definir como independência.

A mesmice dessa política, que só vê uma fonte de instabilidade para o sistema econômico, a inflação, permitiu razoável estabilidade à economia ao longo dos períodos em que houve baixo crescimento e em que se desenvolvia o inchaço da valorização especulativa de bolsas, derivativos e outros ativos. Entretanto, quando os fatores de perturbação da estabilidade do sistema são o colapso súbito da valorização dos ativos, formando uma crise financeira, ou a falência do crescimento, gerando recessão e desemprego, a inflação torna-se um não problema, sendo possível, inclusive, que ocorra o seu inverso, a deflação.

Foi exatamente em razão do apego a fazer o previsível que as decisões sobre juros em 2008, em plena turbulência da crise iniciada com a inadimplência dos contratos subprime no mercado financeiro norte-americano, contribuíram para amplificar a queda do PIB brasileiro em 2009. Quando, desta vez com razão, sua diretoria lembra que o Banco Central é do Brasil e que, para o povo brasileiro, interessa preservar o crescimento e a geração de emprego e proteger-se da crise que se propaga nos centros financeiros internacionais dos EUA e da Europa e, por isso, decide reduzir a taxa de juros na tentativa de evitar que uma recessão se instale no País, aos ouvidos arrogantes dos guardiões das verdades econômicas sua atitude soa como insensatez ou despautério, quando, de fato, traduz apenas uma simples lição de cidadania e uma modesta dose de patriotismo. Para decepção dessas vozes sempre presentes na mídia, foi uma decisão de fato independente, independentemente das pretensões dos mercados financeiros.

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Inflação, valorização monetária e crise: as lições que vêm dos EUA, da Europa e da China

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Edição: Ano 20 nº 08 - 2011

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A hegemonia política pressupõe uma subordinação que é, pelo menos em parte, consentida. E uma dominação só é efetivamente consentida quando ela traz progresso para o dominado, capacitando-o à autonomização. A verdadeira hegemonia promove, pois, a sua crise. E, quando a crise se impõe, só sobra a dominação sem máscaras. Os que se surpreendem com a crescente displicência dos EUA para com os interesses da periferia ainda não se conscientizaram do tamanho de sua crise. O cobertor fiscal norte-americano já está tão curto que não dá sequer para manter o padrão de vida de sua classe trabalhadora. Como se surpreender que eles não possam mais exportar benefícios?

Incrível é que os EUA tenham conseguido impor suas regras até aqui. A revalorização do dólar ao longo dos anos 90 ampliou o poder de compra norte-americano, via barateamento dos importados, e viabilizou o que parecia impossível: consumismo e excesso de poupança financeira. Foi o que alimentou a loucura da Bolsa dos anos 90 e a recente loucura imobiliária nos EUA. Enquanto a “pirâmide” funcionava, todos acreditavam estar mais ricos e consumiam “por conta” tudo o que os chineses produziam.

A China vendia seus produtos intensivos em mão de obra a preços ínfimos, sustentando sua competitividade na desvalorização deliberada de sua moeda (o RMB) frente ao dólar. Com o estouro da bolha, os EUA precisam desvalorizar o dólar e demonizam a “ditadura chinesa” por administrar o seu câmbio, mantendo o RMB barato.

Obedientes são a Europa e o Brasil, que fazem a política dos EUA, valorizando suas moedas e assumindo o ônus da depreciação do dólar. A China é o filho rebelde. Ao contrário do Japão — que concordou em valorizar o yen em 200% frente ao dólar, entre 1985 e 1990, e até hoje paga o preço! —, a China não se deixa enquadrar. Tal como se vê na tabela, entre 2002 e 2010, o RMB foi a moeda que menos se valorizou frente ao dólar. Nesses nove anos, a China cresceu 150% (com inflação de 23%); o Brasil, 40% (com 78,28% de inflação); a Grécia, 21% (35% de inflação); e a Itália, menos de 1% (com 22% de inflação).

Os diferenciais de inflação no interior da Europa só podem surpreender aqueles que acreditam que a inflação é função da (e pode ser controlada pela) política monetária, unificada pelo Banco Central Europeu desde 2002. Como se pode observar, a inflação acumulada pela Grécia em nove anos de euro foi 20% superior à alemã. E a inflação chinesa foi similar à italiana, a despeito de a China haver crescido 200 vezes mais. Por quê?

A unificação econômica europeia levou a uma nova divisão do trabalho entre o núcleo industrial e a periferia na Zona do Euro. A indústria de transformação intensiva em capital e tecnologia e as commodities (importadas por portos e sistemas logísticos e de distribuição do Mar do Norte) ficaram sob o controle dos ricos, enquanto as periferias mediterrânica e atlântica se especializavam em serviços (com ênfase no eixo turismo-gastronomia) e construção civil.

O resultado aparece na evolução do saldo da balança de transações correntes. Enquanto Alemanha, Holanda e China acumulam saldos positivos e crescentes, todos os demais acumulam saldos negativos.

Quando os países periféricos europeus abriram mão de sua autonomia cambial, os apologetas da nova ordem anunciavam uma redivisão pós-moderna do trabalho: os mediterrânicos e os atlânticos assumiam suas vantagens de prestadores de serviços, enquanto os ricos buscavam salvar a sua tradicional hegemonia industrial. De fato, sobrava para a periferia aquilo que escapava à pressão competitiva do câmbio por não se poder importar: os serviços e os imóveis. O resultado foi a exponenciação da valorização monetária do euro nos países de maior inflação, aprofundando a exposição competitiva de sua indústria, o que os envolveu num “redemoinho vicioso”.

Nem os EUA conseguem sustentar uma economia movida por déficits crescentes em suas contas externas, explosão de consumo e investimento em imóveis. Em 2008, entrou em crise. E, desde então, vem aprofundando os esforços para valorizar as demais moedas frente ao dólar. A Grécia recusou-se a ver a crise que se anunciava pela hipervalorização de sua moeda e caiu no abismo.

Mas nem mesmo a Grécia foi tão longe quanto o Brasil. De 2002 a 2010, a valorização nominal do real foi de 66%. Mas, como a inflação brasileira é muito superior à norte-americana, a valorização real nesse período foi de 93%. E isso não é tudo: 2002 foi um ano eleitoral, e o real desvalorizou-se por um ataque especulativo. Se se toma a dinâmica entre 2003 e 2011, a valorização real do real foi de 191%, similar à valorização do yen no final dos 80, que pôs o Japão em crise. Como o Brasil conseguiu essa proeza? Abrindo mão de qualquer política de controle de preços a partir da defesa e do aprofundamento da concorrência interna (como faz a China) e entregando-se integralmente à âncora monetário-cambial. Mas, como a inflação é capitaneada pelos serviços, a depressão dos preços dos importados não a afeta, e ela cede pouco. Até quando a indústria aguentará antes de o Brasil virar a Grécia da vez?

Inflação, valorização monetária e crise as lições que vêm

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O recrudescimento inflacionário e a política econômica

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Edição: Ano 20 nº 01 - 2011

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A inflação oficial medida pelo IPCA voltou a acelerar-se a partir de setembro de 2010, apontando um crescimento dos preços acumulado no ano que ficará acima da meta estabelecida pelo Banco Central, embora esta deva ficar situada dentro da banda. Assim, de janeiro a novembro, a inflação acumulada esteve em 5,2%. Quando analisado por grupos de produtos, verifica-se que esse percentual tem sido puxado por alimentação e bebidas (8,9%), despesas pessoais (6,8%) e vestuário (6,1%). Também merece destaque o setor serviços, o qual acumulou, nesse mesmo período, um crescimento de 7,0%.

Essa trajetória aceleracionista da inflação voltou a levantar rumores e a criar expectativas sobre a necessidade de o Banco Central elevar as taxas de juros tal qual vinha ocorrendo desde a implementação do Regime de Metas Para a Inflação. Tal medida, no entanto, não foi adotada na reunião de dezembro do Copom. Com isso, essas expectativas acabaram sendo transferidas para a reunião de janeiro.

O crescimento nas taxas de inflação, no entanto, não temsido uma peculiaridade brasileira. Uma análise da evolução dos preços no mercado internacional demonstra que a inflação brasileira vem refletindo a trajetória da inflação mundial, onde os preços dos alimentos e do vestuário têm apresentado alta expressiva ao longo dos últimos dois anos. A inflação no mercado internacional tem resultado do crescimento da demanda mundial por alimentos, bem como da elevação do preço das commodities. O preço destas últimas reflete não só o aumento na demanda, como também o fato de esses produtos terem o seu preço atual influenciado pela especulação no mercado futuro. Ou seja, até mesmo a inflação passa a refletir o processo de financeirização. Numa economia integrada ao comércio mundial e com empresas internacionalizadas, como é o caso da brasileira, a inflação externa acaba por refletir-se diretamente sobre os preços internos, pelo crescimento dos preços tanto dos bens finais como dos insumos. Assim, são justamente os bens comercializáveis os principais responsáveis pela aceleração inflacionária verificada nos últimos meses (gráfico).

Evidentemente, não se deve desconsiderar a chancela da demanda doméstica ao crescimento dos preços. De fato, o aumento no consumo das famílias, em virtude do crescimento e da distribuição da renda que vem ocorrendo nos últimos anos, associado ao crescimento do emprego, tem corroborado aquele processo. Mas trata-se de um equívoco atribuir ao crescimento da economia nacional e, mais especificamente, ao consumo das famílias o título de principal responsável pela aceleração inflacionária.

O cenário descrito acima parece sinalizar uma reduzida eficácia da política monetária enquanto instrumento de controle de uma inflação que reflete aspectos que operam em nível mundial e não apenas nacional. Além disso, os produtos responsáveis pela aceleração da inflação apresentam uma reduzida elasticidade-juro da demanda. Diante disso, o controle do preço dos alimentos via juros iria requerer uma variação extremamente elevada na taxa Selic, o que certamente iria trazer mais complicações em termos de taxa de câmbio e balança de pagamentos. Até mesmo medidas de restrição no crédito de bens duráveis terão uma eficácia limitada, principalmente porque o cenário futuro é de manutenção do crescimento do preço dos produtos alimentares. Assim, é de se esperar que a próxima reunião do Copom procure monitorar a inflação brasileira, levando em consideração os cenários macroeconômicos nacional e mundial, e não se limite à desgastada e ineficaz política de aumento dos juros.

O recrudescimento inflacionário e a política econômica

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Que meta têm as metas de inflação?

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Edição: Ano 14 nº 04 - 2005

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Instituído em junho de 1999 para suceder o câmbio fixo como âncora da estabilidade macroeconômica, o sistema de metas de inflação vem sendo alvo de críticas que o apontam como responsável pelas taxas de juros extremamente elevadas e, conseqüentemente, pelo baixo crescimento da economia brasileira. Nesse sistema, o Banco Central (Bacen) tem um único objetivo: manter a variação de preços dentro dos limites fixados pelo Conselho Monetário Nacional. Para tanto, o Bacen utiliza também um único instrumento, a taxa de juros, opção que tem duas justificativas. A primeira considera que a inflação resulta da expectativa de um excesso de demanda, e a segunda entende que a demanda é mais bem controlada pela taxa de juros, pois não há outra maneira de conter as ofertas de moeda e crédito em economias complexas como a brasileira.

A diretoria do Bacen acompanha a evolução das expectativas inflacionárias através de uma pesquisa realizada entre agentes do sistema financeiro e, em suas reuniões mensais, fixa a taxa de juros que seu modelo matemático define como adequada à consecução da meta. Há aqui um problema. Na aferição do excesso de demanda, o modelo utiliza a diferença entre o crescimento efetivo da economia e um máximo possível, definido em vista da variação pregressa do PIB trimestral. Como o índice reflete o período de baixo crescimento pós 1980, o conhecido temor de uma taxa maior do
que 3,5% resulta da própria especificação do modelo.

Conforme mostra o gráfico, no entanto, as altas da inflação, medidas pela taxa mensal anualizada do IPCA, estão relacionadas às desvalorizações do real e às acelerações na variação dos preços administrados. O efeito da demanda parece menos importante, mesmo porque, no período, apenas 2004 teve crescimento acima de 3,5%. De qualquer forma, na composição do IPCA, os preços administrados, assim como os dos bens duráveis, que não respondem a oscilações da demanda, significam 40,2% do índice. Uma contração de demanda só afetaria à parcela restante, correspondente a serviços e a bens não duráveis e semiduráveis, mesmo assim parcialmente, pois, nesse grupo, estão incluídos segmentos oligopolizados insensíveis às oscilações da procura, como o farmacêutico, e muitas commodities, responsivas ao mercado mundial.

O IPCA anual teve uma média de 8,6% desde junho de 1999, enquanto os preços administrados, 13,3%. A redução da inflação abaixo desse patamar não parece passível de ser alcançada via taxa de juros, pois essa não afeta os preços administrados, nem impede a desvalorização cambial. A redução da elevação dos preços administrados apenas seria factível através de uma mudança nas cláusulas de reajuste dos contratos. Quanto ao câmbio, a livre movimentação de capital o faz refém das avaliações de risco, que causaram as desvalorizações recentes, a despeito de juros tão atrativos.

O efeito anti-inflacionário mais eficaz da alta de juros parece ser indireto, via valorização cambial resultante no incentivo às aplicações em real. Usar o câmbio para reduzir a inflação, entretanto, e como mostra a história recente, pode ter efeitos devastadores sobre as contas externas do País. Assim, a política monetária parece presa à armadilha de manter os juros elevados e a economia em baixo crescimento, para garantir uma relativa valorização do real, que não alcança reduzir a inflação ao patamar desejado, mas mantém o mercado financeiro superaquecido. Aplicações em real são até transacionadas off shore. A meta que as metas de inflação conseguem atingir parece ser o crescimento exuberante do sistema financeiro.

Inflação, juros e câmbio no Brasil — jan./98-jan./05

FONTE: IPEADATA.

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O dólar e a inflação

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Edição: Ano 12 nº 05 - 2003

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O dólar, para o Brasil, não é apenas a divisa na qual são feitos nossos principais pagamentos externos. O dólar divide com o real as funções específicas do dinheiro: unidade de conta e reserva de valor.

Essa função dual do dólar — meio de pagamento externo e unidade de conta e de reserva interna — cria um link indissolúvel entre taxa de câmbio e inflação. A desvalorização do real pressiona os preços internos: (a) pelo aumento dos preços dos bens importados; (b) pela elevação do grau de monopólio dos produtores internos, derivada da depressão da concorrência com os similares “importáveis”; (c) pelo aumento dos custos de oportunidade dos bens exportados; e, last, but not least, (d) pelo “efeito expectativa”,que induz à elevação “preventiva” dos preços das mercadorias e serviços, transacionados em reais, mas cujos custos e valor (também) são contabilizados em dólar.

Por isso mesmo, não há como deixar de se saudar a política monetária adotada até aqui. Ao elevar a taxa de juros, o Governo puniu os que especulavam contra a moeda nacional e recuperou o controle sobre o dólar e sobre a inflação. De 30.12.02 a 30.04.03, o dólar recuou de R$ 3,53 para R$ 2,89.

Nada poderia ser mais alvissareiro. Nem mais preocupante. E isto porque, agora, corremos o risco oposto: o de perdermos o controle sobre a valorização do real e, por conseqüência, sobre a oferta futura de dólares. Expliquemo-nos.

A elevação da taxa de juros só é eficaz para o controle de câmbio no curto prazo. Ela deprime a demanda especulativa sobre o dólar e estimula o endividamento externo. Mas ela não garante a ampliação autônoma e sustentável da oferta interna de dólares. No Brasil, tal ampliação só pode ser conquistada por uma expressiva ampliação do saldo comercial.

O problema é que o saldo comercial é função positiva da taxa de câmbio e função negativa do nível de renda interno. Assim, a ampliação do saldo comercial depende ou da desvalorização do real, ou da depressão da renda.

Esse é o nó. Para controlar a inflação, temos de limitar a desvalorização do real frente ao dólar. Mas, para controlar o dólar de forma sustentável, é preciso ampliar o saldo comercial. E a ampliação do saldo comercial depende da desvalorização do real. O que fazer?

Desde logo, o Bacen tem de monitorar o câmbio, elevando a taxa de juros para limitar a desvalorização inflacionária e rebaixando-a para impedir a valorização recessiva e insustentável do real. Além disso, há que se implementar uma ampla política industrial de apoio às exportações e de depressão do grau de monopólio de setores estratégicos. Tal política permitiria a conquista simultânea de saldos comerciais maiores e taxas de inflação menores para uma mesma taxa de câmbio.

A urgência de uma tal política industrial pode ser percebida no quadro abaixo. Nele, procuramos estimar a taxa de crescimento do PIB (em 2003) e as paridades R$/US$ para 2003 e 2004 que seriam necessárias para a obtenção de saldos comerciais de U$ 17 bilhões, U$ 20 bilhões e U$ 25 bilhões nos próximos três anos e taxas de crescimento de 3% e de 5% em 2004 e 2005. E o resultado é uma taxa de crescimento negativa em 2003 (-0,85%) e uma taxa de câmbio de R$ 3,45 neste ano e de R$ 4,00 no próximo (na hipótese de a inflação interna igualar a norte-americana nesses dois anos!). Valores preocupantes, que apenas revelam o caráter emergencial de políticas industriais voltadas a desatar o nó supracitado.

O dólar e a inflação

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Mesmo acima da meta, inflação desacelera

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Edição: Ano 11 nº 06 - 2002

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O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de abril fechou em 0,80%, acumulando uma inflação de 2,30% nos primeiros quatro meses do ano. Nesse mês, os preços administrados da gasolina e do gás participaram com 0,48% para a taxa alcançada. Assim como no mês anterior, quando o núcleo da inflação calculado pelo método das médias aparadas registrou um incremento de 0,58%, em abril o comportamento desse indicador se manteve em 0,57%. Isso demonstra que o núcleo da inflação se manteve elevado.

O mês de maio chegou ao final com o IPCA-15 — índice que converge com o IPCA, mas é medido do meio de um mês ao meio do mês seguinte — registrando um incremento de 0,42%, o que corresponde à expectativa de mercado de variação mensal de 0,41%. Responsável pelo maior impacto sobre o valor total obtido, a gasolina contribuiu com 0,15% na formação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo.

Instrumento utilizado pelo Bacen para o monitoramento do sistema de metas, o IPCA acumulou 7,98% nos últimos 12 meses e chegou a um ponto-limite. Isto porque os valores realizados até o corrente mês estão além daqueles esperados quando do início do corrente exercício.

Efetivamente, no início do corrente ano, as autoridades monetárias trabalhavam com a meta de 3,5% para o IPCA de 2002, implicando um limite superior de 5,5%. Todavia o valor acumulado nos últimos 12 meses alcançava uma taxa próxima a 8% em abril. A presença dessa diferença entre os valores esperados e realizados para o índice de inflação já ocorrera no exercício de 2001, ocasião em que a diferença alcançou cerca de dois pontos percentuais — acima do limite superior.

Para 2003, o Conselho Monetário Nacional trabalha com a hipótese de IPCA de 3,25% contra a estimativa do FMI de 3,9%. Neste final de junho, o País deverá fazer uma opção importantíssima, ao fixar a meta da inflação para o exercício de 2004. Dadas as condições atuais de aumento do Risco-País, de manutenção da taxa de juros em patamar elevado, de proximidade de uma sucessão presidencial e de um ambiente externo incerto, fica a dúvida sobre se as autoridades monetárias sinalizarão uma inflação ainda menor para 2004.

Quanto à comparação da inflação brasileira com o comportamento dos preços nos países desenvolvidos, vale lembrar as previsões para o biênio 2002-03, constantes do Panorama Econômico Mundial, publicado pelo FMI, em sua versão de abril. No âmbito dos países do G-7, a previsão de inflação mais elevada alcança 2,5% ao ano e refere-se ao Reino Unido em 2003. Isso significa que os valores da inflação brasileira para o corrente ano, embora reduzidos para a memória nacional, estão muito acima dos padrões vigentes no Primeiro Mundo.

Mesmo acima da meta, inflação desacelera

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A queda da taxa de juros e a inflação

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Edição: Ano 11 nº 04 - 2002

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O Comitê de Política Monetária do Banco Central, após manter a taxa de juros Selic, de julho de 2001 até janeiro deste ano, em 19% a.a., baixou-a, em fevereiro, para 18,75% a.a. e, em março, para 18,5% a.a.

Em princípio, não haveria impacto significativo sobre a inflação, tendo em vista o baixo nível de atividade da economia nacional. Tal desaquecimento, justamente, é que poderia agravar o quadro econômico, por reduzir a arrecadação tributária e piorar o resultado primário do setor público consolidado. Ademais, a manutenção da taxa Selic em 19% a.a., ou sua elevação, aumentaria a pressão sobre a dívida pública e sobre o déficit nominal, afetando o resultado fiscal global.

Todavia outros fatores potencialmente inflacionários têm emergido na conjuntura, como a elevação do preço internacional do petróleo, empurrando as expectativas de variação dos índices de preços para patamares próximos ao teto fixado. A autoridade monetária afirma que não está recuando de seu comprometimento com as metas inflacionárias, alegando ter mudado o enfoque, passando a considerar a tendência da inflação num período maior (18 a 24 meses) e não mais em 12 meses. Na prática, isso significa que o Bacen aplica certo afrouxamento, no curto prazo, à política monetária, para estimular a redução do custo de financiamentos e crediários e a retomada da produção.

A queda da taxa de juros e a inflação

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