Textos com assunto: conjuntura econômica

O desempenho exportador do Rio Grande do Sul em 2016

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Edição: Ano 26 nº 2 – 2017

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Em 2016, as exportações gaúchas totalizaram US$ 16,578 bilhões, uma redução de US$ 939,9 milhões (-5,4%) em relação a 2015. A retração das receitas ocorreu a despeito do crescimento de 2,5% nos preços médios dos produtos exportados, sendo ocasionada pela queda de 7,6% no volume embarcado ao exterior. Enquanto o valor auferido em 2016 alcançou o menor patamar desde 2010 e registrou o terceiro ano consecutivo de queda, o volume embarcado (21,674 milhões de toneladas) foi o segundo maior da história, atrás apenas do de 2015. Já os preços médios dos produtos exportados voltaram a crescer após dois anos de fortes quedas. O resultado coloca o Estado como o quarto maior exportador nacional (8,9%), atrás de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Os determinantes que contribuem para explicar esses resultados são de ordem tanto estrutural quanto conjuntural, passando por questões externas e internas. No plano externo e estrutural, o ano de 2016 caracterizou-se pelo menor crescimento do comércio e da atividade econômica globais, além do recrudescimento de práticas protecionistas ao redor do mundo. Ainda sem os dados consolidados, 2016 deve ser o ano com o ritmo mais lento de crescimento do comércio mundial desde o auge da crise financeira internacional, em 2009. Adicionalmente, a taxa de crescimento do comércio, que evoluiu o dobro da taxa do PIB mundial desde os anos 80 até a crise financeira, desacelerou-se pela metade no período recente, com possibilidade de crescer menos que o produto em 2016, algo que não ocorre há mais de uma década.

Soma-se, no plano externo, a dinâmica dos preços das commodities. Após o forte arrefecimento desses preços a partir do final de 2012 e com maior intensidade desde o final de 2014, os preços em dólar dos produtos exportados pelo Rio Grande do Sul iniciaram uma recuperação gradual ao longo de 2016. Esse movimento foi influenciado pela recuperação, mesmo que incipiente, dos preços dos produtos básicos, na esteira da recuperação pontual dos preços internacionais de algumas commodities importantes para o Estado, como a soja em grão e o fumo em folhas.

No que tange ao plano interno, o destaque positivo de 2016, na comparação com 2015, foram as vendas de celulose, com crescimento de 789.000 toneladas e recorde de volume embarcado para a China — principal destino da celulose gaúcha — e outros 18 países. A explicação para o referido crescimento é a quadruplicação da capacidade produtiva da planta em Guaíba e a base de comparação ainda baixa. Outros dois produtos de destaque foram as vendas de calçados e de automóveis de passageiros. As vendas de calçados cresceram 18% em valor e 42% em volume (8,227 milhões de pares vendidos a mais do que em 2015), influenciadas pelo aumento da rentabilidade do setor no ano, da contração do mercado interno e do aumento na participação em feiras internacionais. Foram registrados crescimentos nos embarques para a Argentina (mais 1,713 milhão de pares), Estados Unidos (mais 1,590 milhão de pares) — os dois mais tradicionais destinos dos calçados gaúchos — e para outros 100 países. Já as vendas de automóveis cresceram 46% em valor e 47% em volume, influenciadas também pela contração do mercado interno e do estabelecimento de novos acordos automotivos a partir de 2015, com o consequente crescimento das exportações para a Colômbia e início para o Chile (mais 3.000 unidades cada), além da forte retomada das encomendas da Argentina (mais 7.000 unidades).

Por outro lado, os produtos que mais contribuíram negativamente para o resultado geral das exportações gaúchas foram a soja em grão, o trigo e o arroz. A produção da oleaginosa cresceu 3,2%, mas as exportações recuaram 10,6% em volume (retração de 1,125 milhão de toneladas), um fato atípico na medida em que grande parte do grão produzido pelo Estado se volta à exportação. Ademais, até o primeiro semestre, as vendas externas de soja alcançaram o recorde de toda a série histórica. Contudo fatores como concorrência antecipada atípica da safra norte-americana, frustração da produção brasileira e a estratégia de segurar os estoques para alcançar maiores preços tanto pela valorização no mercado internacional quanto pela variação cambial contribuem na explicação desse desempenho aparentemente paradoxal (FEIX, 2017). Já o recuo nas vendas de trigo (70,7% em valor e 64,9% em volume) se deu pela boa qualidade na produção dos grãos, que cresceu 82,5%. Com tal qualidade, os grãos voltam-se ao abastecimento do mercado interno, diferentemente do que ocorre quando os grãos não atingem a qualidade mínima exigível e são vendidos ao exterior. Já a retração das vendas de arroz (-30,0% em valor e -27,8% em volume) foi ocasionada pela quebra de safra por conta do excesso de chuva.

Mesmo com a forte retração nas vendas de soja em grão, a oleaginosa continua sendo o produto mais vendido pelo Rio Grande do Sul (22,8% da pauta exportadora). Os demais principais produtos exportados foram: fumo em folhas (9,6%), carne de frango (6,3%), polímeros plásticos (6,1%) e farelo de soja (5,3%). A venda desses cinco produtos representou metade de toda a receita exportadora gaúcha. Em relação aos principais mercados de destino, China (26,1%), Argentina (7,9%), Estados Unidos (7,4%), Holanda (3,7%) e Bélgica (3,0%) foram os que mais compraram produtos gaúchos, com esses dois últimos países servindo de porta de entrada das mercadorias gaúchas para a União Europeia como um todo. Já a maior variação positiva de valor foi observada para o Irã (mais US$ 251,9 milhões), após a suspensão das sanções da Organização das Nações Unidas (ONU) contra o país; e a maior variação negativa foi registrada para a China (menos US$ 540,3 milhões), por conta da venda, em 2015, do casco da plataforma P-67 por US$ 394,2 milhões e do recuo das compras de soja em grãos.

Dessa forma, quando se leva em consideração a conjuntura externa — baixo crescimento do comércio global e deflação nos preços dos produtos —, as exportações gaúchas não foram tão mal em 2016, na medida em que foi registrado o segundo maior volume da história, e os preços voltaram a crescer após dois anos. Contudo elas poderiam ter sido bem melhores caso, por exemplo, as vendas de soja não fossem impactadas negativamente pela tentativa frustrada de capitalização do setor. Essas questões apenas reforçam a necessidade da diversificação da pauta exportadora do Estado com o avanço nas cadeias de valor, bem como da ampliação dos seus mercados de destinos, para que movimentos conjunturais ou estruturais não afetem sobremaneira as receitas e os embarques dos produtos gaúchos destinados ao exterior.

Como citar:

TOREZANI, Tomás Amaral. "O desempenho exportador do Rio Grande do Sul em 2016," em Carta de Conjuntura FEE. [visto em 25 de junho de 2017], disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/o-desempenho-exportador-do-rio-grande-do-sul-em-2016/>.

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Perspectivas econômicas para o Rio Grande do Sul em 2017

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Edição: Ano 25 nº 11 – 2016

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Diversas evidências sugerem que a dinâmica de crescimento das economias subnacionais está intrinsecamente ligada à trajetória de crescimento da economia nacional. A experiência recente brasileira indica, ainda, que canais alternativos de crescimento, como ganhos potenciais do comércio exterior induzidos pela depreciação cambial, têm alcance limitado, mesmo em estados tipicamente exportadores. Essa relativa ausência de um protagonismo isolado dos entes federados, no entanto, não impede que suas singularidades econômicas o diferenciem da média de crescimento nacional em alguns aspectos. Isso ocorre, primeiro, porque há significativa heterogeneidade na matriz produtiva dos estados, o que torna suas economias sensíveis a movimentos cíclicos dos segmentos que são mais representativos dentro de seu tecido produtivo. Segundo, porque fatores como posição geográfica e grau de diversificação inter e intrassetorial afetam tanto a probabilidade de ocorrência quanto a magnitude do impacto de choques adversos, como eventos de estiagens.

O caso do Rio Grande do Sul ilustra bem esse risco idiossincrático derivado da exposição a eventos de natureza climática. Esses fenômenos são geralmente associados à escassez de chuvas em períodos e regiões geográficas específicos (principalmente de dezembro a fevereiro e nas regiões norte e noroeste do Estado), que fazem com que o crescimento da economia gaúcha destoe temporariamente da nacional. Para 2017, existe uma preocupação crescente entre meteorologistas com a possível ocorrência do fenômeno La Niña, que costuma provocar verões secos e com chuvas irregulares no sudeste da América do Sul, área geográfica que abrange o RS. As informações mais recentes do Serviço de Meteorologia dos Estados Unidos (National Weather Service) indicam uma probabilidade em torno de 70% de ocorrência de La Niña durante a atual primavera do hemisfério sul, com probabilidade em torno de 55% de persistir durante o verão. Diagnóstico semelhante é trazido pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), através de seu Boletim Climático para o Rio Grande do Sul, referente a set./16: há previsão de “precipitações pouco abaixo do padrão” em todo o Estado do RS entre outubro e dezembro de 2016, horizonte de previsão coberto pelo relatório. Obviamente, se confirmada, as consequências da irregularidade de chuvas sobre a economia do RS dependerão tanto da intensidade com que o fenômeno ocorrerá quanto das regiões mais atingidas pela anomalia negativa de precipitação.

A possibilidade de ocorrência de um evento dessa natureza não tem afetado os primeiros indicativos para a safra de verão de 2017 no RS. As estimativas iniciais de área e produção da safra de verão 2016/17, divulgadas recentemente pela Emater-RS, preveem um crescimento de 2,2% na produção total de grãos, com destaque para o milho, cujo aumento recente no preço relativo possibilitou um incentivo para os agricultores aumentarem a área plantada.  A despeito de preocupações relacionadas à oferta de crédito e à capitalização dos produtores, os últimos dados divulgados pela Associação Nacional Para Difusão de Adubos (Anda) confirmam essa tendência e indicam um aumento de 6,3% na venda de fertilizantes no 3.º trim./16, em comparação com o mesmo período do ano anterior. A decomposição sazonal dessa variável revela que a demanda por esse insumo possui expressivo aumento médio entre os meses de agosto e outubro, período que antecede o plantio dos principais produtos da lavoura temporária do RS. Esse aumento observado na demanda por insumos deve favorecer, em condições normais, tanto a produção quanto a produtividade das culturas de verão em 2017.

Além do setor agropecuário e seus riscos inerentes, outras especificidades produtivas podem afetar o desempenho da economia gaúcha no próximo ano. O setor industrial do RS, por exemplo, possui características bem peculiares. Destaca-se, na divisão pela categoria econômica dos bens industrializados, a relevância local da indústria de bens de capital, apontada por estudos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) e Bradesco como a 2.ª maior do Brasil, atrás apenas do Estado de São Paulo. Os dados mais recentes de produção industrial, divulgados pela Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (ago./16), mostram melhora pontual nesse segmento, com destaque para o crescimento, na margem, da produção de bens de capital para uso agrícola, especialmente máquinas para colheita, silos metálicos para cereais e tratores agrícolas. Essa melhora, se consolidada nas próximas divulgações da PIM, pode marcar uma retomada na produção industrial do RS, bastante deteriorada pela queda acentuada na taxa de investimento brasileira — cerca de 89% da formação bruta de capital fixo nacional é composta pelos setores de construção (51,1%) e de bens de capital (37,9%), conforme dados do Sistema de Contas Nacionais referentes ao ano de 2013. Vale lembrar que a formação bruta de capital fixo no Brasil começou a apresentar taxas negativas ainda no quarto trimestre de 2013, antes mesmo do início da atual recessão econômica brasileira, iniciada no 2º trimestre de 2014. Como resultado disso, os bens de capital e os bens de consumo duráveis foram as categorias econômicas de bens industriais que apresentaram contração mais severa durante esse período, afetando com maior intensidade, devido as suas estruturas produtivas industriais, estados como, por exemplo, Rio Grande do Sul, São Paulo e Amazonas. Uma eventual retomada da formação bruta de capital fixo em 2017 tende, portanto, a beneficiar a produção industrial gaúcha mais que proporcionalmente, dada a sua especialização produtiva no setor de bens de capital.

Em resumo, ainda que o cenário econômico nacional para o próximo ano permaneça desafiador em diversos aspectos, os indicadores antecedentes da safra de verão e as singularidades da economia gaúcha sugerem que a economia local terá desempenho relativamente favorável no ano de 2017. Esse prognóstico, no entanto, é contingente a dois fatores principais: condições climáticas favoráveis — ameaçadas pela formação, mesmo que em intensidade moderada, do fenômeno La Niña — e recuperação do investimento agregado nacional, cujo efeito sobre a indústria do RS seria potencializado pela sua relativa especialização local na produção de bens de capital, com destaque para aqueles destinados ao setor agropecuário.

Como citar:

COLOMBO, Jéfferson Augusto. "Perspectivas econômicas para o Rio Grande do Sul em 2017," em Carta de Conjuntura FEE. [visto em 25 de junho de 2017], disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/perspectivas-economicas-para-o-rio-grande-do-sul-em-2017/>.

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