Textos com assunto: Comércio Externo

Desaceleração cíclica ou estrutural no comércio mundial?

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Edição: Ano 26 nº 12 – 2017

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Um fato estilizado do período após o “grande colapso do comércio” de 2009 e a recuperação de curto prazo de 2010-11 é a “desaceleração do comércio global”. Conforme o gráfico abaixo, no período entre 2000 e 2007 o volume do comércio mundial de bens cresceu em média 6,3% ao ano, enquanto, no intervalo 2012-16, essa variação caiu para 2,2% ao ano.

Em relação à variação do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto, no período 2000-07, a elasticidade do comércio era de 1,7, no intervalo 2012-15 caiu para 1,0, e chegou a 0,6 em 2016. Essa redução da razão entre o crescimento do comércio e do PIB tem levado muitos autores a sustentarem razões estruturais para o enfraquecimento das transações comerciais em nível global, o que tem alimentado o denso debate que se estabeleceu em torno do tema.

Um dos principais argumentos em prol de um “novo normal” do comércio seria um hipotético enfraquecimento das cadeias globais de valor (CGV). A redução do gap entre as elasticidades do valor bruto e do Valor Adicionado das exportações é uma evidência não desprezível que vai ao encontro dessa proposição. A possível maturação das CGV, as mudanças tecnológicas, o protecionismo e a evolução da posição da China nessas cadeias são potenciais argumentos nesse sentido. Relacionada a este último fato poderia estar a internalização de processos produtivos na China, o que implica a substituição de insumos anteriormente importados.

Uma explicação alternativa em direção à desaceleração tendencial do comércio é o esgotamento dos substanciais incrementos comerciais que ocorreram durante os “longos anos 90”, marcados pela consolidação do capitalismo global. Alusivos a isso estão os importantes eventos geopolíticos do final do século XX, a citar: a queda do muro de Berlim em 1989 e a integração com maior ímpeto dos países do Leste Europeu, juntamente com a China, no circuito comercial mundial.

Uma última consideração relevante a respeito da tendência de longo prazo da elasticidade do comércio é o possível retorno à relação entre o comércio e o PIB, a qual prevaleceu desde o pós-guerra. Essa situação, em tese, teria sido brevemente interrompida pela excepcional década de 90, na qual o comércio crescia mais que o dobro do PIB. Em outras palavras, o “novo normal” poderia significar uma volta a um “velho normal”.

Por outro lado, há fortes razões para argumentar que o enfraquecimento do comércio global tem um caráter eminentemente cíclico. Uma vez que uma das principais contribuições para o declínio do crescimento das importações mundiais é atribuída aos países europeus — região fortemente atingida pela crise financeira global —, pode-se cogitar que o comércio mundial irá revigorar o ritmo de crescimento, tão logo o PIB mundial recupere o seu dinamismo.

Nesse sentido, tem-se apontado não apenas para a contração do crescimento da demanda agregada em nível mundial, mas também para mudanças na composição da demanda, nas quais os componentes mais intensivos em comércio, especialmente o investimento, teriam sido os que mais desaceleraram. Estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização Mundial do Comércio (OMC), entre outros, são de que a demanda agregada ajustada pela intensidade das importações de cada componente (consumo, gastos do Governo, investimento e exportações), a qual é obtida por meio da decomposição das matrizes de insumo-produto, explicaria a maior parte da desaceleração do comércio.
Em suma, pode-se afirmar que o debate proposto envolve a relevância de elementos tanto estruturais quanto cíclicos para explicar o desempenho do comércio no período recente. O principal desafio consiste em quantificá-los e hierarquizá-los, o que faz com que o debate permaneça em aberto. Diante disso, torna-se importante ponderar acerca dos limites de interpretação que podem decorrer a partir da separação didática das possíveis razões para a desaceleração do comércio em cíclicas ou estruturais. Isso porque os elementos considerados estruturais podem ter uma dimensão cíclica, e vice-versa.

 

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