Textos com assunto: combustível

Petrobras: uma empresa estratégica para a economia brasileira

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Edição: Ano 24 nº 05 - 2015

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A operação Lava Jato, que atingiu vários partidos políticos e importantes empresas nacionais, gerou muitas preocupações quanto aos resultados relativos a 2014. Segundo o relatório da Petrobras, a empresa sofreu um prejuízo de R$ 21,6 bilhões no ano de 2014; desse montante, R$ 6,2 bilhões deveram-se aos desvios de recursos. Cabe agregar o provisionamento de perdas com recebíveis do setor elétrico, as baixas relacionadas à construção das refinarias Premium I e II e o provisionamento do Programa de Incentivo ao Desligamento Voluntário. Porém o fator determinante do prejuízo foi a queda do preço internacional do petróleo, entre 2012 e 2014, devido à desaceleração das economias europeia e chinesa e à resistência da Arábia Saudita em reduzir seu volume de produção. Essa situação foi agravada pela manutenção das tarifas dos combustíveis, no período pré-eleitoral.

Isso posto, faz-se necessário enfatizar que a Petrobras se constitui em um dos principais trunfos que o Governo possui para a elaboração e a execução de uma política industrial de crescimento e inovação. Essa empresa, uma das maiores do mundo no domínio de prospecção e extração de petróleo, registrou, em 2014, mais de 90.000 empregos diretos e 300.000 indiretos, tendo respondido por mais de 10% do total de investimentos feitos no País. A Petrobras situa-se no centro do complexo petroquímico brasileiro, formado pelas unidades de primeira geração (insumos básicos) e de segunda geração (resinas termoplásticas). A terceira geração — indústrias de plásticos, farmacêutica, dentre outras, que utilizam os insumos petroquímicos — é fornecedora dos produtores de embalagens, construção civil, elétrico e eletrônico, dentre outros.  A atual rede de fornecedores da Petrobras é constituída por 20.000 empresas, sendo que esse número deve aumentar em 2015, com uma previsão de investimentos de US$ 224 bilhões (Plano de Negócios). No primeiro trimestre de 2015, a produção da Petrobras posicionou-a como a maior petrolífera de capital aberto do mundo.

Do ponto de vista tecnológico, a empresa é historicamente a principal investidora em pesquisa entre as empresas brasileiras e possui uma política de priorização de fornecedores nacionais, que recebem seu apoio para se adequarem às suas exigências de excelência tecnológica e produtiva. A partir da descoberta das reservas do Pré-Sal, em 2006, vem desenvolvendo pesquisas que a posicionam como líder mundial na tecnologia de extração de petróleo em águas profundas. Esse fato induziu a um novo sistema de partilha (Lei 12.351/2010), que estabelece o Governo brasileiro como principal proprietário do petróleo extraído e não mais a empresa que executa a extração.

Por essas razões, a Petrobras atrai o interesse dos grandes grupos internacionais, sendo preocupante que os desvios de recursos tenham aberto brechas para as tentativas de introdução de mudanças no sistema de partilha. De fato, já tramitam no Congresso propostas de alteração desse sistema. Assim, é preciso refletir além da operação Lava Jato, uma vez que a perspectiva de desnacionalização dessa empresa envolve muitos riscos: a perda de poder do Estado no uso dos recursos da exploração do petróleo, a redução de seu efeito multiplicador sobre a economia brasileira e o desperdício do patrimônio tecnológico construído na sua trajetória histórica.

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Preços dos combustíveis e inflação

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Edição: Ano 22 nº 10 - 2013

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A Petrobras pratica, declaradamente, uma política de preços que visa não reproduzir, no mercado doméstico de combustíveis, a volatilidade dos preços do petróleo e derivados nos mercados internacionais. Em princípio, essa orientação poderia ter resultados neutros para a rentabilidade da empresa. Eventuais perdas decorrentes de um aumento do preço do petróleo não repassado para os preços internos dos combustíveis seriam apenas temporárias, caso fossem compensadas por ganhos que ocorreriam quando as reduções do preço do petróleo também não fossem repassadas aos preços domésticos.

Os dados disponíveis mostram que a Petrobras, de fato, tem mantido relativa estabilidade dos preços domésticos, em meio à grande volatilidade nos mercados internacionais. Mas a política não tem sido neutra do ponto de vista da rentabilidade, uma vez que a tendência dos preços do petróleo não tem sido acompanhada na mesma intensidade pelos preços dos derivados. Entre dezembro de 2009 e dezembro de 2012, o preço do petróleo no mercado internacional, em termos de moeda doméstica, cresceu 58,59%. No mesmo período, os preços ao produtor dos derivados de petróleo cresceram apenas 16,96%, enquanto os preços dos combustíveis ao consumidor cresceram apenas 8,62%. O gráfico mostra que esse resultado se deve ao que ocorreu ao longo de 2010 e 2011.

Esses números sugerem, portanto, que houve uma importante contribuição da política de preços da Petrobras para o controle da inflação no Brasil. O peso do componente combustíveis no cálculo do IPCA é de aproximadamente 5%, mas o impacto desse item para a inflação oficial é certamente bem maior, porque influencia indiretamente diversos outros itens, via custos de transporte. Apesar da enorme importância que, em geral, se atribui ao controle da inflação no Brasil, esse ponto é pouco observado, e não faltam críticos à política de preços da Petrobras. Argumenta-se que ela inibe os investimentos privados na atividade de refino, visto que o repasse incompleto dos preços do petróleo para os preços dos derivados implica redução da rentabilidade da atividade.

De fato, as informações disponíveis mostram que, entre 2010 e 2012, houve importante e contínua redução da rentabilidade da Petrobras. Em 2009, a empresa registrou margem líquida (razão entre o lucro líquido e a receita líquida) de 21,9%, e, em 2012, essa margem havia caído para 7,5%. Outros indicadores de rentabilidade disponíveis na publicação Valor 1000 apontam para essa mesma tendência no período.

Ainda que não se possa atribuir essa redução da rentabilidade exclusivamente à política de preços, é bastante razoável deduzir que ela contribui decisivamente para o resultado. O aumento do preço do petróleo significa um aumento do custo da matéria-prima utilizada na atividade de refino. O repasse incompleto do aumento de custos aos preços implica que a receita cresce menos que proporcionalmente, comprimindo a margem de lucro.

Independentemente de críticas ou aprovações a essa prática, que, no fundo, parecem decorrer da maior ou menor importância que se atribua ao controle público de um recurso estratégico como o petróleo, a questão é fundamental, porque permite apontar para o modo pelo qual os choques inflacionários e a sua propagação para os demais preços estão relacionados com os conflitos materiais de interesses que permeiam a sociedade. Se a Petrobras tivesse defendido rigidamente sua margem de lucro no período analisado, os preços dos combustíveis e demais derivados do petróleo teriam acompanhado a tendência dos preços internacionais. Nesse caso, a inflação teria sido maior do que foi de fato.

Dado que a margem de lucro da Petrobras não pode cair indefinidamente, a política de preços praticada pela empresa pode estar chegando ao seu limite. Sendo assim, pode-se cogitar que novas desvalorizações cambiais e/ou novos aumentos dos preços do petróleo em dólares terão impacto inflacionário maior do que tiveram no passado recente, pois terão de ser repassados, com maior intensidade, aos preços domésticos.

Preços dos combustíveis e inflação

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Estado e capital estrangeiro no etanol brasileiro

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Edição: Ano 17 nº 10 - 2008

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A indústria do biocombustível passa por uma fase de crescimento acelerado, acompanhada de um rápido e profundo processo de centralização e concentração do patrimônio das empresas e da produção do setor. Nessa reestruturação, o capital estrangeiro (empresas e fundos de investimentos internacionais) tem tido um papel determinante, levando também a uma acelerada internacionalização de toda cadeia sucroalcooleira

A agressividade do capital internacional em um setor estratégico só teve recentemente uma resposta por parte do Governo brasileiro, através do BNDES e da Petrobrás. A chegada das grandes petroleiras internacionais – a British Petroleum (BP) a Petróleo de Venezuela S/A (PDVSA) –
e o interesse da Royal Dutch Shell no álcool brasileiro parecem ter despertado a Petrobrás, induzindo-a a seguir o movimento das concorrentes.

O envolvimento do BNDES, por sua vez, pode ser entendido, diferentemente, como fazendo parte de uma estratégia de apoiar a estruturação e o desenvolvimento de um setor na área de energia, o qual não deveria tornar-se área exclusiva de atuação do capital estrangeiro. As ações conduzidas pelo Banco vão no sentido de aumentar as escalas de operação das empresas, incentivando o movimento de fusões entre os grupos nacionais, tornando-se sócio dos mesmos e financiando seus projetos de expansão. As empresas, assim robustecidas, estariam em melhores condições para se associarem a grupos internacionais.

Ainda é cedo para avaliar o tamanho do impacto da crise financeira deste setembro de 2008 sobre o crescimento do setor. Contudo ele se verá afetado, considerando-se, simplesmente, o papel do capital de risco internacional nos novos investimentos.

Estado e capital estrangeiro no etanol brasileiro

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Uma breve incursão no dimensionamento do mercado de biodiesel no Brasil

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Edição: Ano 17 nº 01 - 2008

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Os desafios ambientais gerados pelo uso intensivo de fontes de energia não renováveis e a escassez — forjada, ou não — de petróleo, que proporciona tendência crescente dos preços, fazem nascer alternativas irreversíveis e crescentes de outras fontes de energia não renováveis. No Brasil, a experiência do Pró-Álcool, seu clima, seu solo e sua tradição em pesquisa com oleaginosas, como a soja, poderão alavancar os biocombustíveis.

As estimativas da demanda do biodiesel aqui apresentadas restringem-se ao B5 (5% de biodiesel no total da mistura) para 2010-20, refletindo uma conjugação entre as taxas de crescimento cenarizadas da economia brasileira (3,0%, 4,0% e 5,0% ao ano) e seus rebatimentos na economia gaúcha. Ambas as estimativas estão ponderadas com as respectivas elasticidades- renda dos requerimentos de diesel de 1,4 para o RS e de 1,2 para o Brasil. Isso significa que, se o PIB crescer 3% ao ano, os requerimentos de diesel crescerão a 4,2% para o RS e a 3,6% para o Brasil, potencializando o mercado; ou, em caso de inércia, além do descaso ambiental, ocorrerá a aceleração do esgotamento das reservas brasileiras de petróleo, estimadas em 20 anos, a culminar no auge da crise do petróleo.

Se a demanda criar a sua própria oferta, sua organização será algo de grande complexidade, pois tratará com um grande número de espécies e variedades em diversas regiões do País, exigindo uma pesquisa de excelência, recursos generosos, manejo adequado e usinas de alta eficiência.

Além disso, existem a questão dos alimentos, que deverá demandar um incremento da produtividade em geral por hectare, a da inadiável inclusão social e o compromisso com a sustentabilidade.

Uma breve incursão no dimensionamento do mercado de biodiesel no Brasil

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Etanol: o desafio brasileiro de saltar de 16 bilhões para 205 bilhões de litros

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Edição: Ano 16 nº 04 - 2007

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Ao ser anunciada a morte da era petróleo para meados do século, as pesquisas para a produção de energéticos alternativos em escala global, destacando-se o etanol e a célula a combustível, roubam a cena nas economias cêntricas, principalmente nos Estados Unidos.

Embora o Brasil detenha a tecnologia mais avançada no que tange ao etanol, via hidrólise ácida e a experiência do Pró-Álcool desde 1975, poderá perdê-la brevemente, com o advento da hidrólise enzimática, que requer vultosos investimentos e conhecimentos desde a química até a manipulação genética de novas enzimas capazes de minimizar os passos de processamento dos açúcares em álcool, o que poderá dobrar a produtividade por hectare. O Brasil, com invejáveis condições de clima e solo, não obstante a excelência de seus cientistas, não tem encontrado contrapartida em recursos para pesquisa, comprometendo a produtividade e a inovação.

Estudos da Unicamp projetam o consumo mundial para cerca de 1,7 trilhão de litros de gasolina em 2025. A estes, o Brasil poderá suprir com 205 bilhões de litros de etanol, através de 1.400 usinas. Atualmente, são produzidos 16 bilhões de litros, mediante 500 usinas, sendo 200 de baixa produtividade. Para tal, serão necessários US$ 10 bilhões a serem investidos até 2017, além da expansão da área plantada de cana-de-açúcar de 3 milhões de hectares para 25 milhões, já considerando a duplicação da produtividade (gráfico).

A inserção do etanol em escala global faz parte de um sistema de equações simultâneas, envolvendo vetores, como P&D, a bioenergia, incluindo o próprio etanol, os alimentos, as questões sociais e a alocação de recursos, sujeitos às rigorosas restrições ambientais de preservação e habitabilidade.

Etanol o desafio brasileiro de saltar de 16 bilhões para 205 bilhões de litros

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