Textos na área temática: Exportações

A Parceria Transpacífico e as exportações gaúchas

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Edição: Ano 24 nº 12 – 2015

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No início de outubro de 2015, 12 países da costa do Pacífico anunciaram, em Atlanta (EUA), um acordo cujos objetivos são, dentre outros, a redução ou a eliminação de tarifas para o comércio de determinados bens e serviços e o estabelecimento de padrões para investimentos, para a proteção ao meio ambiente, para o intercâmbio de informações e para os direitos de propriedade intelectual. A denominada Parceria Transpacífico — Trans-Pacific Partnership (TPP) — reúne Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Cingapura, Estados Unidos, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru e Vietnã. A população desse conjunto de nações atinge cerca de 800 milhões de pessoas, e o seu PIB representa algo em torno de 40% do total mundial. Embora a intenção dos países-membros seja formalizar o acordo ainda em 2016, isso parece pouco provável, uma vez que ele precisa ser ratificado pelos respectivos parlamentos. Pelo menos nas duas maiores economias do bloco, EUA e Japão, são esperados acirrados debates sobre o tema. Como costuma acontecer nessas tentativas de integração econômica e liberalização comercial, o debate prioritário, internamente, deverá centrar-se nas consequências da TPP sobre o mercado de trabalho local.

Por outro lado, à medida que os termos do acordo forem tornando-se públicos, maior e mais precisa deverá ser a compreensão de sua efetiva abrangência e intensidade e, por conseguinte, de seus prováveis efeitos não só sobre os países-membros, mas também sobre as demais regiões do planeta. Seguramente, há diversas maneiras de se especular sobre as consequências da efetivação dessa parceria nas exportações gaúchas de mercadorias. Uma delas é a análise dos principais grupos de produtos exportados pelo Estado e sua inserção no mercado da TPP.

Utilizando-se a classificação da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) (agregação a quatro dígitos), tem-se que, entre 2010 e 2014, últimos cinco anos para os quais existem dados anuais consolidados, os 10 grupos de produtos mais exportados pelo RS — desconsiderando as vendas externas de plataformas, que, na verdade, não se constituíram em exportações — foram, pela ordem: soja em grão, tabaco não manufaturado, carne de aves — basicamente de frango —, farelo de soja, polímeros de etileno, carne suína, arroz, calçados de couro natural, óleo de soja e couros preparados. Nesse período, o conjunto mencionado respondeu por 55,0% do total exportado pelo Estado (valores anuais corrigidos a preços de 2014).

Conforme mostra a tabela abaixo, desses 10 grupos, cinco têm inserção reduzida no mercado da TPP: os do complexo soja (grão, farelo e óleo), o da carne suína e o do arroz. No período analisado, esses agregados tiveram suas vendas concentradas em outras regiões: a soja em grão na China, o farelo na União Europeia, o óleo na China e na Índia, a carne suína na Rússia e na Ucrânia e o arroz na África. Portanto, a princípio, seu comércio exterior será pouco afetado com a consolidação desse novo bloco econômico.

É na comercialização externa dos outros grupos que a representatividade do mercado da TPP passa a ter significância. Desses grupos, o do tabaco parece estar numa posição confortável, uma vez que o único grande produtor entre os países da TPP, os EUA, está com a demanda em declínio e incentiva a substituição dessa cultura. Situação semelhante ocorre em relação aos couros: o Vietnã, único país do bloco com alguma expressão nas vendas externas desses produtos, é, na verdade, um importador líquido de couros preparados.

Já as exportações de aves, calçados e polímeros se mostram mais vulneráveis. No primeiro caso, porque os EUA são o segundo maior exportador mundial desses produtos, e o Japão, um dos grandes importadores. Para as vendas externas de calçados, que vêm, há muitos anos, perdendo espaço no mercado externo, a situação poderá agravar-se: a TPP reúne o maior importador mundial (EUA) e o terceiro maior exportador (Vietnã). Em relação às exportações de polímeros, cabe o registro de que Chile e Peru, tradicionais compradores desses bens do RS, estarão no mesmo bloco de alguns de seus maiores exportadores mundiais: EUA, Cingapura e Canadá.

À medida que esses acordos multilaterais vão sucedendo-se, o Brasil vê-se numa encruzilhada. Por um lado, é fácil entender que diversos fatores retraem a disposição dos empresários nacionais em entregar “seu mercado” em troca de pouca expectativa de avançar em “mercados alheios” — caso de boa parte da indústria brasileira. Mas, por outro, ao alijar-se dos grandes acordos comerciais mundiais, o País poderá sofrer ao menos duas graves consequências: perder mercados antes acessíveis ao seu agronegócio e distanciar-se ainda mais do avanço tecnológico inerente ao processo de liberalização comercial.

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O embargo agrícola russo e seus efeitos nas exportações gaúchas

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Edição: Ano 24 nº 11 – 2015

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A Rússia tem sido uma importante parceira no comércio exterior do Rio Grande do Sul, sobretudo como compradora de tabaco e, principalmente, carne suína, produtos que concentram quase a totalidade da pauta para esse país. Apesar de relevante, essa interação tem sido irregular, intercalando momentos de abrupta expansão, assim como de arrefecimento, principalmente devido à imposição de barreiras sanitárias e cotas de importação e à instabilidade econômica do lado russo. Essa irregularidade no comércio é explicada pelas exportações de carne de porco. Dessa forma, a presente análise dará especial atenção a esse produto.

Um dos desdobramentos mais recentes dessa atividade ocorreu em 6 de agosto de 2014, quando, em resposta às sanções impostas por diversos países, o presidente russo, Vladimir V. Putin, assinou um decreto que embarga a importação de bens agrícolas produzidos nos Estados Unidos, no Canadá e em todos os membros da União Europeia — notadamente grandes exportadores agrícolas. A retaliação russa, no momento de sua publicação, criou um potencial de comércio agrícola para os países não atingidos diretamente pelo embargo, inclusive para o Brasil, dada a sua reconhecida competitividade global no setor agrícola.

No entanto, em virtude dos problemas econômicos por que o país eurasiano passa, como a atual recessão e a significativa desvalorização de sua moeda, sobretudo a partir do final de 2014, faz-se o seguinte questionamento geral: como têm-se saído as exportações do Rio Grande do Sul para a Rússia após um ano de vigência do decreto?

A Rússia, tradicionalmente, ocupa uma posição modesta no comércio exterior brasileiro, não obstante o crescimento em termos absolutos em quase toda a primeira década deste século. Porém sua relevância para o Rio Grande do Sul é sensivelmente maior. Atualmente, a Rússia é o 20.° principal destino das exportações brasileiras, ao passo que, para o RS, ela ocupa a sétima posição. Entre janeiro e setembro de 2015, comparando-se com o mesmo período de 2014, enquanto a Rússia teve a quarta maior queda nas exportações brasileiras (-32,8%), no caso gaúcho obteve o quarto melhor desempenho, registrando uma alta em valor de 19,7%.

O segmento que explica grande parte do crescimento das exportações gaúchas para a Federação Russa é o de carne suína, que apresentou uma alta, em valor, superior a 30% no período em análise. Essa informação é particularmente notável, tendo-se em mente que as exportações totais de carne suína produzida no Estado sofreram uma queda de 5%. Isso leva a concluir, em primeiro lugar, que a Rússia aumentou sua participação nas exportações gaúchas de carne suína, e, em segundo lugar, que o aumento das exportações para esse país não foi suficiente para sustentar o nível das exportações do RS nesse setor. Além disso, mesmo com o aumento, em 2015, nas exportações do Estado para a Rússia no setor de suínos, os volumes exportados e a participação da carne suína gaúcha no mercado russo ainda estão longe de recuperar os níveis observados entre 2005 e 2010, período em que se verificou o ápice da relação comercial do RS com a Rússia.

Dado que, em 2015, o valor exportado de carne suína do Estado para a Rússia cresceu substancialmente e as importações totais do mesmo produto pela Rússia caíram no mesmo período, pode-se dizer que o RS obteve vantagem na realocação geográfica dos fluxos comerciais ocasionada pelo decreto. Nesse sentido, observa-se que o Estado conseguiu elevar o valor das suas exportações, diferentemente do desempenho do Brasil nesse período. Uma possível explicação para esse movimento é o número significativamente maior de frigoríficos gaúchos autorizados pelo governo russo a exportar carne suína, comparativamente a outros estados brasileiros.

O avanço das exportações do Estado para a Rússia em 2015 pode parecer tímido, levando-se em consideração os níveis observados entre 2005 e 2010 e o potencial criado pelo decreto. No entanto, pode-se afirmar que o embargo russo evitou não somente uma queda das exportações do Estado para esse país, como também atenuou, mesmo que marginalmente, uma queda maior das exportações totais do RS no ano em questão.

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O RS no contexto do Plano Nacional de Exportações

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Edição: Ano 24 nº 09 – 2015

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Lançado em 24 de junho de 2015, o Plano Nacional de Exportações 2015-18 (PNE) objetiva promover a competitividade exportadora e alavancar o crescimento econômico do País. Segundo o Governo Federal, o PNE consiste em um esforço de conferir um novo status ao comércio exterior brasileiro, entendendo a atividade exportadora como estratégica para gerar renda e emprego, fomentar investimentos produtivos, estimular a inovação e, consequentemente, dinamizar a economia nacional.

Particularmente, essa visão torna-se ainda mais relevante no atual cenário global — caracterizado por baixa atividade econômica, acirramento da concorrência internacional e acomodação dos preços das commodities em níveis inferiores aos observados nos últimos anos — e no contexto de baixas taxas de crescimento, verificadas nas últimas décadas pela economia brasileira.

Dessa maneira, o Plano tem como propósito fomentar as vendas de bens e serviços brasileiros ao exterior, com foco em sua ampliação, diversificação, consolidação e agregação de valor e de intensidade tecnológica. Para tanto, os esforços do PNE incidirão sobre três dimensões das vendas externas, a saber: (a) a composição da pauta exportadora; (b) os mercados de destino; e (c) a origem das exportações brasileiras (maior diversificação regional da base exportadora).

Por seu turno, a Fundação de Economia e Estatística (FEE) lançou, no dia 18 de agosto de 2015, o Sistema de Exportações FEE (SisExp), uma ferramenta que contribui para compreender a dinâmica das exportações de qualquer unidade da Federação, por diferentes classificações, para qualquer país de destino, o que se alinha com os objetivos e as necessidades do PNE. Assim, a partir de consultas ao SisExp, torna-se possível avaliar alguns dos eixos definidos pelo PNE, contribuindo para orientar diversas iniciativas do Plano e monitorando o cenário das atividades exportadoras nacional e regional.

Assim sendo, avaliando a participação percentual do valor exportado por fator agregado pelo RS, observa-se uma expansão dos produtos básicos em detrimento da redução dos produtos manufaturados e semimanufaturados ao longo do período 2007-14. No caso dos produtos básicos, a participação relativa no total exportado pelo Estado, que era de 38,2% em 2007, passou para 52,6% em 2014. Já os produtos manufaturados apresentaram uma tendência oposta, passando de 50,7% em 2007 para 39,4% em 2014. Os produtos semimanufaturados, mesmo em menor intensidade, também tiveram sua participação reduzida nas exportações gaúchas: passaram de 10,0% em 2007 para 6,8% em 2014.

Quanto aos mesmos dados, agora classificados por intensidade tecnológica, a partir da construção de um indicador que atribui pesos crescentes quanto maior for a intensidade tecnológica e que sintetiza todas as classes tecnológicas em um único resultado para um determinado ano, verifica-se o baixo conteúdo tecnológico da pauta exportadora do RS. Admitindo-se valores entre 1 e 16, o índice caiu de 3,74 em 2007 para 3,35 em 2014. A pauta exportadora do Estado, portanto, apresenta baixa complexidade e vem perdendo cada vez mais densidade industrial e tecnológica com o passar dos anos.

Ao se calcular um índice de concentração por destino das exportações gaúchas, constata-se que elas vêm concentrando-se cada vez mais em poucos mercados consumidores. Adicionalmente, na média do período 2007-14, 52% das exportações do RS destinaram-se aos oito principais mercados consumidores de cada ano.

Já no que se refere ao volume embarcado para o exterior, observando a taxa média anual de crescimento das exportações, os setores de média-baixa tecnologia (MBT), de produtos não industriais (PNI) e de alta tecnologia (AT) apresentaram crescimento (51,1%, 8,0%, e 2,0% respectivamente), e os setores de média-alta tecnologia (MAT) e de baixa tecnologia (BT) registraram retração (-0,3% e -3,6% respectivamente), resultando em um crescimento médio de 1,0% a.a. para o Estado.

Dado esse desempenho desfavorável, o PNE, transformando-se de intenção em ações práticas, pode ser bastante útil para ajudar a reverter essa dinâmica negativa, no que tange à composição da pauta, à agregação de valor, e à diversificação de mercados, isto é, estimulando a competitividade e a qualidade das exportações do Rio Grande do Sul.drop1-Composição do valor exportado, por conteúdo tecnológico pelo Rio Grande do Sul — 2007 e 2014

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A exportação de couros acabados cresce em importância

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Edição: Ano 24 nº 08 – 2015

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Edição: Ano 24 nº 09 – 2015

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A análise da participação dos dois principais tipos de couros bovinos processados pelos curtumes, o wet blue (estado inicial do curtimento) e o acabado (pronto para uso), no total das exportações de couro bovino no RS e no Brasil mostra a clara predominância das vendas externas de couro acabado. Essa participação é maior no RS, onde essas vendas representam mais de 60%, em média, do total de couros bovinos exportados pelo Estado no período analisado (acumulado jan.-jul. 2002-15). O pico de 77% ocorreu em 2009, inaugurando um novo patamar de participação (70% em média), alteração que também pode ser observada em nível nacional, embora de modo menos acentuado.

Essa predominância se acentuou no acumulado jan.-jul./15, quando as vendas externas gaúchas de couro bovino alcançaram US$ 295,9 milhões, e as nacionais, US$ 1.421,7 milhões, valores menores do que os registrados no mesmo período de 2014 (11% e 16% respectivamente), o que impactou, de modo diferenciado, a composição dessas exportações. A inflexão na trajetória de participação dos couros wet blue decorre da queda mais expressiva das vendas externas desse tipo de couro, em termos absolutos e relativos, largamente influenciada pela forte diminuição da demanda pelo produto brasileiro na China, provocada pela desaceleração da atividade industrial desse país. China e Hong Kong, em conjunto, constituem os principais importadores dos couros bovinos brasileiro e gaúcho (34,8% e 28,0% respectivamente), absorvendo, predominantemente, o couro wet blue.

Por sua vez, o incremento na participação do couro acabado, em 2015, reflete a queda relativamente menor das suas exportações nesse período. É importante salientar que a ênfase nas vendas de couro acabado sinaliza seu crescente uso nos setores moveleiro e automotivo, em detrimento da produção de calçados e artefatos de couro, que era a sua principal destinação original.drop-3-Participação dos couros tipo wet blue

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Juros, câmbio, investimento e exportações no Brasil entre 2011 e 2014

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Edição: Ano 24 nº 06 - 2015

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O investimento e as exportações são variáveis centrais para o crescimento econômico a longo prazo. O investimento é necessário para o aumento da capacidade produtiva da economia, ao passo que as exportações são decisivas para relaxar a restrição externa ao crescimento. No debate brasileiro, com muita frequência argumenta-se que essas duas variáveis não assumem uma dinâmica satisfatória em virtude de dois preços macroeconômicos estarem “fora do lugar”: a taxa de juros muito alta inibiria os investimentos privados, e a taxa de câmbio muito valorizada faria o mesmo com as exportações.

De uma maneira geral, a política econômica praticada no primeiro mandato da Presidente Dilma Rousseff parece ter assumido esse diagnóstico. No segundo semestre de 2011, o Banco Central deu início a um ciclo de redução da taxa básica de juros que levou a meta da Selic ao nível nominal de 7,25% ao ano, no fim de 2012. O movimento reduziu a taxa overnight a níveis reais (critério ex-post) abaixo de 1% ao ano, no primeiro semestre de 2013. Houve também redução da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), implicando taxas de juros reais virtualmente nulas nas operações de crédito para investimento junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O esforço de redução dos spreads dos bancos públicos e privados reduziu também significativamente as taxas reais de juros cobradas no crédito geral a pessoas jurídicas. Essas ações, em conjunto com as desonerações tributárias, parecem ter sido efetivas para reduzir o custo do investimento.

Em meio ao ambiente de estabilidade tanto da taxa de juros norte-americana quanto da avaliação de risco-país medida pelo índice Emerging Markets Bond Index Plus (EMBI+), a redução da taxa Selic diminuiu o diferencial de juros em cerca de cinco pontos percentuais em um intervalo de apenas nove meses, permanecendo nesse nível por cerca de um ano. Em conjunto com outras ações, o movimento sugere que o Banco Central estivesse buscando desvalorizar a taxa de câmbio, ou ao menos deter o processo de apreciação que caracterizou os dois mandatos do Presidente Lula. De fato, a desvalorização da taxa de câmbio nominal acumulou praticamente 60% ao longo dos 48 meses do primeiro mandato da Presidente Dilma Rousseff. Em termos reais, a desvalorização foi pouco superior a 30% no mesmo período.

De modo geral, houve, portanto, redução do custo do investimento e desvalorização da taxa de câmbio. Esse movimento de preços relativos no sentido desejado por muitos economistas não resultou, entretanto, em alteração da dinâmica das quantidades de exportações e de investimento. De acordo com os índices divulgados pela FEE, o volume exportado pelo Brasil em 2014 foi cerca de 13% menor do que o exportado em 2010. A taxa de investimento, medida como a razão entre a formação bruta de capital fixo e o PIB a preços constantes de 1995, não mostrou tendência de aumento, oscilando em torno do patamar de 22% ao longo do período 2011-14. Isso sugere que a dinâmica das exportações e do investimento dependa muito mais de outras variáveis de quantidades (como o crescimento da renda mundial no caso das exportações e o crescimento do PIB doméstico no caso do investimento) do que de alterações de preços relativos.

 

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Valor Adicionado e importação nas exportações do Rio Grande do Sul

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Edição: Ano 24 nº 06 - 2015

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As exportações do Rio Grande do Sul, para o mercado externo e para o resto do Brasil, representavam, com base na Matriz de Insumo-Produto (MIP), 73,1% do Produto Interno Bruto (PIB) gaúcho de 2008. Apesar da quebra da safra e da desaceleração decorrente da crise internacional, a elevada participação das exportações em relação à produção gaúcha, principalmente na demanda de produtos agropecuários e de transformação, não foi prejudicada.

Além de apresentar o valor das exportações a preços de mercado, a MIP pode ser usada para calcular o impacto das exportações no Valor Adicionado e nas importações, direta e indiretamente. O valor a preços de mercado é a soma do Valor Adicionado, dos insumos produzidos e matérias-primas locais, dos produtos importados, das margens de comércio e de transporte e dos impostos sobre os produtos que o compõem. Porém, para descobrir a participação efetiva de cada atividade nas exportações, é necessário decompor os preços de mercado. A MIP disponibiliza as informações para se redistribuírem, entre as atividades, o Valor Adicionado e as importações utilizadas, e para estimar o tamanho das atividades nos produtos exportados. Na tabela abaixo, são apresentadas as exportações de 2008 a preços de mercado agregadas em seis atividades e sua decomposição.

O Valor Adicionado pela agropecuária nas exportações foi 2,5 vezes maior que suas exportações a preços de mercado, o que significa que seus produtos são mais utilizados como matérias-primas na exportação da indústria de transformação que vendidos in natura. Quando o destino da exportação foi o resto do País, pode–se estimar que o uso dos produtos agropecuários como matéria-prima da transformação foi aproximadamente quatro vezes maior que quando destinado para o mercado externo. Dos insumos agropecuários utilizados pela indústria de transformação, em torno de um quinto foi originado da importação e utilizado como insumo para exportação.

Como a indústria extrativa do Estado é insignificante, foram importados mais de R$ 16 bilhões de produtos minerais para serem usados como insumo para exportações (correspondendo a 11,1% do valor das exportações). Já a indústria de transformação foi, por sua própria natureza, essencialmente usuária de insumos originados em outras atividades. As exportações a preços de mercado foram 4,8 vezes maiores que o Valor Adicionado, com os insumos importados correspondendo a algo como um pouco mais de um terço do valor, e o restante, aproximadamente 45%, repartindo-se entre insumos produzidos por outras atividades e impostos. A participação do Valor Adicionado na exportação para o resto do mundo foi maior (25,7%) que na destinada a outras unidades da Federação (19,3%). Já o uso dos insumos importados foi maior na exportação interna (36,5%) que na destinada ao mercado externo (31,2%).

Combinando a decomposição com os outros dados da MIP, observa-se que a maioria da importação foi usada como insumo para exportação (51,3%) e que, tanto na agropecuária quanto na transformação, a maior parte do Valor Adicionado, respectivamente, 68,9% e 78,8%, é demandada pela exportação. Todos esses dados, mesmo sem levar em conta os efeitos induzidos pela renda, reforçam a ideia de que, excetuando eventos climáticos que impactam a agropecuária, o desempenho econômico do Estado depende principalmente de seus nexos com a situação econômica nacional e internacional.

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Países que mais cresceram na pauta de exportações gaúchas, em 2014

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Edição: Ano 24 nº 04 - 2015

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Mesmo com o desempenho negativo das exportações gaúchas em 2014, alguns países de destino destacaram-se pela ampliação da compra de produtos do Estado, contribuindo para amenizar a queda (ver tabela). Na comparação com 2013, o maior crescimento em valor exportado foi para a Rússia, devido, principalmente, ao aumento na compra de carne suína, que ocorreu após esse país proibir a entrada de produtos da União Europeia e dos EUA. Além disso, o setor, no Brasil como um todo, vem retomando as vendas para a Rússia depois do fim do embargo às carnes brasileiras.

Diversos produtos contribuíram para o crescimento da participação de alguns países. O farelo de soja, por exemplo, ajudou a impulsionar as exportações para Eslovênia, Paquistão, Irã, Indonésia e Turquia. Os demais produtos do complexo da soja também foram importantes, como são os casos do grão de soja, que foi o produto com maior crescimento nas vendas para o Vietnã, e do óleo de soja, que foi o responsável pelo bom desempenho da Índia. Para as Filipinas, destacaram-se as vendas de trigo que ocorreram no final do ano. Já para a Angola, foram vendidos, principalmente, alimentos embutidos. Os países da América Latina que se destacaram em 2014 foram impulsionados, principalmente, por produtos manufaturados, como óleo diesel para o Paraguai, carne de aves para a Venezuela, plásticos para o México e arroz para o Peru.

Essa melhora nas vendas do Rio Grande do Sul ocorreu, em grande parte, para países que vêm sendo apontados como regiões que terão forte crescimento econômico nos próximos anos, que é o caso de Vietnã, México, Indonésia, Filipinas, Paquistão, Irã e Turquia. Esses países têm uma participação ainda modesta na pauta de exportações do Estado no momento (6,6%), mas podem compensar as vendas, quando houver um arrefecimento para destinos mais tradicionais. Ou, ainda, auxiliar na ampliação do total exportado pelo Estado.

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Exportações gaúchas de couro superam as de calçados

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Edição: Ano 24 nº 03 - 2015

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O segmento coureiro-calçadista revela-se fundamental na história do desenvolvimento da economia gaúcha, a qual sempre se destacou nas exportações brasileiras de couro e calçados. Entretanto sua dinâmica vem sofrendo modificações ao longo do tempo.

Analisando-se dados para a economia do Rio Grande do Sul a partir de 2003, observa-se que as exportações de calçados e suas partes vêm apresentando forte tendência de redução. As vendas externas atingiram um pico de US$ 1,4 bilhão em 2005, passando para US$ 516,4 milhões em 2014, uma expressiva queda de 56,5%. Nesse contexto, a participação relativa do setor de calçados na pauta exportadora gaúcha rumou de 14,8% em 2003 para 2,8% em 2014 (chegando a representar 2% em 2013).

Tal retração está fortemente atrelada à queda nas vendas de calçados de couro. O total de pares de calçados embarcados (desconsiderando-se as partes de calçados) caiu de 119,9 milhões em 2004 para 18 milhões em 2014, sendo que os calçados de couro foram responsáveis por 86,4% dessa queda. Dentre os motivos para a forte redução das exportações de calçados do Estado, pode-se mencionar: a ascensão da China e de outros países asiáticos nesse setor (vantagens de custo em mão de obra), o deslocamento de fábricas para outras regiões brasileiras (sobretudo, Nordeste), a valorização cambial ocorrida a partir de meados da década de 2001-10, o aumento nos custos de produção e a substituição do couro por materiais sintéticos.

Por outro lado, as exportações gaúchas de couro curtido cresceram substancialmente nos dois últimos anos avaliados, a despeito de se manterem relativamente estáveis entre 2003 e 2012. A média do valor exportado do produto pelo RS entre 2003 e 2012 ficou na casa dos US$ 439,5 milhões, enquanto em 2013 esse valor passou para US$ 498,7 milhões e, em 2014, para US$ 598,5 milhões. Por sua vez, a quantidade exportada de couro apresentou leve tendência de queda no período analisado, caindo de 44,6 milhões de m² em 2003 para 41,1 milhões de m² em 2014. Contudo o preço médio do couro apresentou elevação, subindo de US$ 8,20/m² para US$ 14,56/m² — o que explica o comportamento do valor exportado.

Em virtude da forte elevação das vendas de couro em 2014 e da tendência de queda das exportações de calçados em todo o período estudado, as exportações de couro do Estado ultrapassaram as de calçados em 2014. Explicam esse resultado os aumentos nas vendas de couro em 2014, principalmente, para os Estados Unidos (que se elevaram de      US$ 76,4 milhões em 2013 para US$ 101 milhões em 2014), China (de US$ 71,4 milhões para US$ 83 milhões) e Vietnã (de US$ 7 milhões para US$ 30,5 milhões). Além disso, observou-se uma grande queda nas exportações de calçados entre 2003 e 2014 para os Estados Unidos (de US$ 789,5 milhões em 2003 para US$ 79,6 milhões em 2014) e Reino Unido (de US$ 93 milhões para US$ 16,6 milhões).

Assim sendo, constata-se que o RS vem experimentando uma contração em suas exportações de um produto com maior valor agregado, o calçado, e aumentando as exportações de um produto de menor valor agregado, o couro; em outras palavras, vem deixando de exportar um bem manufaturado para exportar diretamente o seu insumo. Esse fenômeno implica impactos negativos para a economia gaúcha, dado vincular-se a questões pertinentes à reprimarização de sua pauta exportadora, gerando consequências perversas tanto no curto prazo (menor entrada de divisas) quanto no longo prazo (reflexos sobre a estrutura produtiva).

Os dados já disponíveis para 2015 revelam um quadro desfavorável em relação ao ano anterior. Confrontando-se os meses de janeiro desses anos, verifica-se uma queda das vendas externas tanto de couro quanto de calçados (-4,6% e -27,2% respectivamente), a qual se mostra ainda maior quando se contrastam os meses de fevereiro de 2014 e de 2015 (-26% e -27,7%). Esses resultados vêm na esteira dos ajustes recessivos promovidos atualmente na esfera federal, bem como do cenário de demanda externa desaquecida, sinalizando perspectivas de dificuldade para o ano corrente. Todavia a desvalorização cambial que vem sendo observada pode significar um alento para a competitividade das exportações gaúchas.

Carta de Conjuntura FEE – Tomás Torezani

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Exportações gaúchas e brasileiras para Cuba

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Edição: Ano 24 nº 01 - 2015

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Com a recente reaproximação entre EUA e Cuba, surgem oportunidades e desafios aos produtos brasileiros. Por um lado, pode haver um maior crescimento da economia cubana, aumentando a demanda por produtos importados. Por outro, uma entrada maior de produtos dos EUA ampliaria a concorrência para alguns produtos brasileiros atualmente exportados para a Ilha. O Brasil é hoje o quarto principal país de origem das importações cubanas. O principal produto brasileiro exportado para Cuba, no período de 2003 a 2014, foi o óleo de soja, cuja origem é quase toda do Paraná. Nesse estado, as vendas para Cuba representam 13% do total das exportações de óleo de soja. O segundo principal produto exportado é o farelo de soja, fornecido majoritariamente pelo Mato Grosso. Entre os anos de 2012 e 2014, porém, houve uma retração de 11% nas exportações brasileiras para Cuba, em parte devido à queda nas vendas de milho, que se reduziram em US$ 26 milhões.

As exportações gaúchas para Cuba cresceram 670% de 2003 a 2014, acima do crescimento do total das exportações estaduais no período, que foi de 133%. Em 2014, o Rio Grande do Sul foi o estado que mais exportou para Cuba, um total US$ 124 milhões, cerca de 24% do montante total exportado pelo Brasil para esse país. Os principais produtos exportados pelo Estado foram arroz, embutidos, carnes de aves e milho.

Apesar de esse destino ter uma pequena participação no total exportado tanto pelo Brasil (0,2%)  como pelo RS (0,6%), ele tem importância nas vendas de arroz e de embutidos do Estado. Cuba é o segundo principal destino do arroz gaúcho, com 13% do total exportado desse produto, e o segundo principal destino dos embutidos, com uma participação de 18%.

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Exportações gaúchas por intensidade tecnológica

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Edição: Ano 23 nº 07 – 2014

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Analisando-se as exportações industriais do Rio Grande do Sul entre 2003 e 2013, classificadas por intensidade tecnológica, nota-se um crescimento mais forte no segmento de média-alta tecnologia. Nesse período, o valor exportado por esse segmento cresceu US$ 3,2 bilhões, enquanto as vendas externas do setor industrial como um todo cresceram US$ 6,8 bilhões. Com isso, a participação do segmento de média-alta tecnologia passou de 31,7% em 2003 para 39,7% em 2013 (nesse cálculo, foi descontado o valor atípico de US$ 4,7 bilhões exportados de plataformas de petróleo).

Apesar desse crescimento, as exportações de média-alta tecnologia continuam em segundo lugar no total estadual, atrás do segmento de baixa tecnologia. Mas essa distância vem-se reduzindo, uma vez que os setores de baixa tecnologia cresceram menos no período. Enquanto o crescimento das exportações da indústria de média-alta tecnologia foi de 164%, o crescimento dos setores de baixa tecnologia foi de 65%. Aliás, o desempenho desse segmento foi inferior ao do setor industrial como um todo, o que justifica a sua perda de participação nas exportações da indústria.

Dentro das exportações de média-alta tecnologia, os principais produtos exportados pelo Estado são plásticos, automóveis, tratores e químicos. Dentre os principais destinos, destacam-se Argentina e EUA, que, juntos, representaram, em 2013, 40,8% das exportações de média-alta tecnologia. Além desses países, vêm se destacando como importantes destinos das exportações de média-alta tecnologia os países da América do Sul (exclusive Argentina), que absorveram 28,9% das vendas desse segmento em 2013.

No segmento de baixa tecnologia, o RS exporta principalmente carne de aves, farelo de soja, carne suína, couro, calçados e óleo de soja. A queda das exportações de calçados nesse período foi a que mais prejudicou o segmento. No que diz respeito a esse grupo de produtos, os destinos que mais cresceram no período foram Coreia do Sul, China e Hong Kong.

Exportações gaúchas por intensidade tecnológica

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