Textos na área temática: Comércio internacional

Comércio RS-Mercosul — histórico, entraves e tendências

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Edição: Ano 22 nº 03 - 2013

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As conversas entre Brasil e Argentina com relação à constituição de um mercado econômico regional na América Latina iniciaram-se ainda em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, e fortaleceram-se na década de 60 do século passado, com a formação da Associação Latino-Americana de Livre Comércio (ALALC). No entanto, somente na década de 80, com a criação da Associação Latino-Americana de Integração (ALADI), a unificação iniciou-se, com a assinatura da Declaração de Iguaçu, em 1988, e a criação de uma comissão bilateral para a integração dos mercados. Tal desenrolar dos fatos culminou no Tratado de Assunção, em 1991, com a inclusão do Paraguai e do Uruguai, e o estabelecimento de uma zona de livre comércio entre os quatro países. Em 1995, o Mercosul tornou-se uma união aduaneira com a adoção de uma Tarifa Externa Comum (TEC). Desde então, os avanços restringiram-se à criação e melhora de mecanismos para a resolução de conflitos entre os países e, em 2002, estabeleceu-se uma área de livre residência e trabalho, com a simplificação e redução das restrições impostas à circulação de pessoas entre os países do Mercosul, Bolívia e Chile. Em 2012, a Venezuela tornou-se membro pleno, obtendo direito a voto nas reuniões do Bloco, simultaneamente à suspensão do Paraguai, devido à destituição do Presidente Fernando Lugo, através de um processo de impeachment pouco transparente.

Apesar do início promissor e da obtenção de avanços significativos na criação de uma união aduaneira, a maior integração advinda da harmonização da política econômica parece estar longe de se concretizar. A sequência de crises internacionais na década de 90, que culminaram, para o Brasil, na desvalorização do real, em 1999, e, para a Argentina, na moratória da dívida, em 2001, e no abandono da conversibilidade peso/dólar, colocaram em segundo plano a maior integração econômica do Mercosul. Isto é, os países do Mercosul passaram a priorizar a manutenção da estabilidade interna, em detrimento do avanço da integração regional.

No entanto, a partir de 2002 uma pequena brecha de estabilidade internacional iniciou-se. Mesmo com percalços internos, como a crise derivada de temores oriundos da posse de Lula, em 2003, os países-membros poderiam ter ampliado ainda mais a aproximação regional, aproveitando o momento de integração que a Europa estava vivenciando com a adoção do euro, em 2002. Os avanços ocorridos ao longo da década de 90 tornaram os países-membros do Mercosul os principais parceiros comerciais uns dos outros, mas, na década seguinte, esbarraram nos benefícios desproporcionais da união, sendo o Brasil o principal beneficiário, após 2002, com um superávit comercial com todos os países do Bloco desde 2004.

Consequentemente, devido aos interesses dos governos e dos setores privados predominantes de cada país, ampliouse o incentivo à criação e manutenção de barreiras à integração econômica. A abertura econômica para outros mercados, mesmo que sejam países do bloco do Mercosul, não possui o respaldo político necessário para ser posta em prática. Logo, o Mercosul está sob o efeito de uma impossibilidade de cooperação voluntária, tendo em vista os desincentivos estruturais e políticos para a abertura, bem como o agravante conjuntural das dificuldades econômicas da Argentina. Os benefícios econômicos advindos da maior integração e abertura econômica são amplos, mas não são priorizados pelos atuais governos, por serem difusos e desproporcionais, em favor de certos setores e países.

Nesse contexto, o Rio Grande do Sul insere-se em desvantagem, sem capacidade de negociar diretamente com parceiros do Mercosul e de elaborar acordos bilaterais com outros países e regiões. Além disso, as barreiras comerciais impostas pela Argentina impactam o RS mais do que os outros estados brasileiros, devido ao alto grau de participação da Argentina nas exportações gaúchas.

Qualquer movimento em relação à maior integração regional necessariamente passa pela aprovação e liderança do Brasil e da Argentina. A busca da integração através da criação de laços econômicos estruturais entre as cadeias produtivas seria capaz de reduzir as resistências dos países do Bloco e elevar a competitividade dos setores, situação que requer uma negociação mais aprofundada do que simplesmente focar na abertura de mercados para produtos finais. No entanto, tal movimento não se configura no curto prazo. Pelo contrário: existe uma tendência de redução da integração regional no curto prazo, encabeçada pela Argentina, como resposta à crise interna, focando diretamente na balança comercial deficitária que esta possui com o Brasil, sendo o RS prejudicado diretamente. O Mercosul encontra-se na situação caracterizada como “Dilema dos Prisioneiros”, isto é, incapaz de gerar um equilíbrio cooperativo, pelo menos nos próximos anos, sendo o RS um mero observador.

Comércio RS-Mercosul — histórico, entraves e tendências

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América Latina e Caribe: o investimento estrangeiro direto

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Edição: Ano 22 nº 01 - 2013

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Conforme o documento O investimento estrangeiro direto na América Latina e Caribe – 2011, publicado pela CEPAL em 2012, as correntes mundiais de investimento estrangeiro direto (IED) ampliaram-se 17% no ano de 2011 em relação ao ano anterior e somaram US$ 1.510 bilhões. Esse foi o segundo ano consecutivo de crescimento, depois das reduções presenciadas em 2008 e 2009. Não obstante, o IED mundial ainda não alcançou o ápice de US$ 1.960 bilhões atingido em 2007.

Nesse contexto, a região da América Latina e Caribe foi anfitriã de US$ 153 bilhões em entradas líquidas de IED — entradas brutas de IED descontadas as repatriações de capital (desinvestimentos) —, o que representou um incremento de 31% em 2011, a região de crescimento mais proeminente em nível mundial. A maior parcela desse desempenho é associada ao Brasil, com participação de 43% dos fluxos de IED destinados à região.

As razões para a predileção dos investidores em relação à região são desvendadas pelo potencial dinamismo dos mercados internos e pelos valorizados preços internacionais das commodities. Isso estimula a aplicação de capitais nos setores relacionados ao abastecimento da demanda doméstica e aos recursos naturais voltados às exportações.

Na América do Sul, predominam os investimentos nos setores exportadores de commodities. Sem considerar o Brasil, os recursos naturais representaram 57% do IED destinado ao Continente em 2011, enquanto a indústria de transformação recebeu 7%, e os serviços, 36%. Por outro lado, o Brasil concentrou aproximadamente 46% do IED na indústria de transformação, já os serviços responderam por 44%, enquanto o Setor Primário recebeu 9% do total do IED. Nesse sentido, destacam-se as possibilidades de alcance ao ascendente mercado doméstico brasileiro e as políticas brasileiras recentes que preservam os conteúdos locais em indústrias como a automobilística, a petroleira, a eletrônica e a de energia elétrica.

Em contrapartida, na sub-região formada por México, América Central e Caribe, em 2011, cerca de 8% do IED concentrou-se nos recursos naturais; 40%, na indústria de transformação; e 53%, nos serviços. Os países centroamericanos e a República Dominicana concederam incentivos fiscais para o IED destinado à indústria voltada à produção de exportações para os Estados Unidos, atraindo uma parcela considerável do IED para esse segmento. Já as economias do leste do Caribe são fortemente dependentes dos investimentos no setor turístico, o qual se mostrou extremamente frágil a situações econômicas adversas, como a crise de 2008 e seus desdobramentos nos anos posteriores.

Com relação ao conteúdo tecnológico do IED anunciado para indústria de transformação latino-americana e caribenha em 2011, a realidade é de investimentos em nova planta, com destinação, majoritariamente, aos setores de baixa e de média-baixa tecnologia (61% do IED), a despeito do relativo crescimento do volume de projetos nos setores de média-alta tecnologia recebidos por Brasil e México. Essa situação é oposta ao que prevalece em outras regiões em desenvolvimento, como a Ásia e, em particular, a China. Neste país, mais de 80% dos projetos de IED na indústria de transformação foram direcionados aos setores com alto e médio-alto conteúdos tecnológicos.

Concernente às origens do IED, os principais investidores estrangeiros na América Latina e Caribe são os Países Baixos, os Estados Unidos, a Espanha e a própria América Latina (através da atuação das empresas translatinas nos países vizinhos). Oficialmente, os Países Baixos são a principal fonte do IED na região, entretanto, há evidências de que esse país representaria um mero intermediário dos recursos, dado que as sedes das principais empresas investidoras estariam em outros países.

Com relação ao formato do IED, este pode ser de três tipos: empréstimos intercompanhias, aportes de capital e reinvestimento de lucros. Na América Latina e Caribe, os empréstimos entre matrizes e filiais no último quinquênio garantiram 20% do total de IED para a região. Vale ressaltar que há evidências de que parte desses empréstimos tenha sido apenas “maquiada” de IED, quando, na realidade, o objetivo final era a arbitragem de juros.

Os aportes de capital, por sua vez, representaram 38%, sendo o mais variável dos três componentes, pois incluem fusões e aquisições transfronteiriças. Estas atingiram US$ 82,786 bilhões em 2011, mas não podem ser estritamente confrontadas com o IED, dados os diferenciais metodológicos de cálculo e de natureza da informação.

A parcela de IED que se refere à reinvestimento de lucros tem aumentado nos últimos anos e, nos cinco últimos, foi o elemento de maior importância entre os três tipos, com 42% do total. Isso pode ser relacionado a um fator estrutural — o já elevado montante de capital estrangeiro acumulado — e duas razões conjunturais — o crescimento econômico da região e os valorizados preços das commodities. Uma ressalva é o Brasil não estar incluso nesta análise sobre as três formas do IED, pois o País não contabiliza reinvestimentos de lucros como IED. Desta forma, o IED brasileiro divulgado está subestimado.

Não negligenciáveis são as crescentes repatriações de lucros (rendas brutas de IED) às matrizes pelas mesmas causas conjunturais e estruturais citadas anteriormente e também como forma de compensar os prejuízos das matrizes, em um cenário de crise. As repatriações de lucros da América Latina e Caribe ascenderam de uma faixa de US$ 23 bilhões em 2003 para um máximo de US$ 93 bilhões em 2008. Para o ano de 2010, último dado disponível pela CEPAL, as rendas de IED situaram-se em torno de US$ 82 bilhões. Como proporção das exportações de bens e serviços, as rendas de IED representavam 5% em 2003 e atingiram 8% em 2010.

Em suma, o ciclo próspero de crescimento da região, a valorização dos termos de troca e o contexto de crise internacional ressaltam o crescimento superior das repatriações de lucros em relação ao crescimento do montante de IED aplicado na região. Por outro lado, essa elevada soma de envio de rendas ratifica que o IED não é um fluxo “de mão única”. Assim sendo, devem-se levar em consideração as pressões futuras sobre o balanço de pagamentos e o fato de o IED muitas vezes não ampliar a capacidade produtiva. Portanto, é imprescindível, além de uma análise quantitativa, uma análise qualitativa, ou seja, sua contribuição para o desenvolvimento em termos de transferências de tecnologias e de integração produtiva, assim como sua contribuição futura para as exportações.

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As mudanças na estrutura do comércio internacional mundial

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Edição: Ano 21 nº 09 - 2012

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Nos primeiros anos deste século, a economia mundial passou por uma profunda transformação em sua estrutura, podendo-se elencar dois pontos como fundamentais: os preços relativos das valorizaram-se com relação aos manufaturados, e os países subdesenvolvidos passaram a crescer relativamente mais do que os desenvolvidos. A atualização da série histórica daOrganização Mundial de Comércio — iniciada em 1990 — mostra a participação dos países no total de exportações e importações mundiais e ajuda a ilustrar, a partir das mudanças na estrutura do comércio mundial, taistransformações.

Um possível declínio dos EUA, combinado com a ascensão da China ao posto de segunda maior economia mundial, podendo esta vir, no futuro, a desafiar o poderio hegemônico norte-americano, é a principal discussão internacional neste novo século. No campo do comérciointernacional, por outro lado, o domínio mundial de exportações deixou de ser norte-americano há quase uma década. Os EUA foram os maiores exportadores do mundo de 1991 a 2003, quando perderam liderança para a Alemanha, e, em 2007, caíram para o terceiro lugar no ano em que a China assumiu a liderança. Porém, nos últimos dois anos, mais devido ao enfraquecimento nas vendas alemãs, muito dependentes de seus vizinhos europeus, do que por uma recuperação consistente de suas vendas externas, os EUA voltaram ao segundo posto. Com o alto nível de endividamento de seu setor privado doméstico, o consumo interno se mostra combalido, sendo essencial uma recuperação consistente de seu setor externo para que osEUA cresçam de forma a cair seu desemprego. A manutenção como maior importador mundial durante toda a série ilustra o poder de sua economia, pois, mesmo após uma crise sem precedentes, ainda são o maior destino de bens produzidos pelo resto do mundo. Porém diminuíram progressivamente sua participação nesse quesito.

A China apresentou uma impressionante ascensão ao posto de nação mais exportadora do mundo. Em 1990, detinha 1,83% das participações mundiais, muito distante dos 11,59% obtidos pela economia dos EUA naquele mesmo ano. Em 2011, atingiu 10,68%, contra 8,33% dos EUA. A guinada chinesa rumo ao de potência mundial foi o principal fator que tornou a Ásia a região econômica mais dinâmica e que mais cresce no mundo atualmente. A China mantém superávits com praticamente o mundo inteiro, mas apresenta déficit com seus parceiros asiáticos, contribuindo para a demanda e o crescimento de toda a região, incluindo os países desenvolvidos e subdesenvolvidos do continente.

A Europa, continente mais afetado pela crise de 2007 e envolta em um cenário econômico de pessimismo e incerteza, perdeu mercados em diversas nações importantes. Como exemplo, Reino Unido e França têm hoje déficits comerciais e viram suas participações nas exportações caírem pela metade desde 1990, movimento resultante, principalmente, da desindustrialização verificada nas últimas décadas, da concorrência global imposta pela Ásia, bem como da utilização de um modelo de crescimento baseado em consumo, oposto ao praticado por seus vizinhos do norte europeu. Tais países, que têm como principais expoentes a Alemanha e os Países Baixos, utilizam-se de modelos exportadores com forte uso de deflação competitiva, ampliando seus saldos comerciais e a participação nas exportações mundiais. A Alemanha, inclusive, foi líder em exportações de 2002 a 2008. Os Países Baixos, hoje o quinto maior exportador do mundo, que detêm uma pauta de exportação variada, englobando de produtos agroindustriais a manufaturados apresentaram uma progressiva elevação na participação. Porém, como quase toda a Europa se encontra em recessão, os últimos dois anos foram de queda nas exportações para todo o continente, e mesmo o sucesso das nações exportadoras estará em xeque, caso não se altere o cenário europeu.

Quanto ao nosso país, apresenta resultados bastante modestos para o tamanho de sua economia, mas, mesmo assim, garante a liderança regional. O Brasil aumentou sua fatia no comércio internacional, na última década, beneficiando-se do salto no valor das commodities. Porém as importações vêm crescendo em ritmo mais elevado que as exportações, o que é acentuado por uma provável desindustrialização, e, embora isso ainda não torne o saldo comercial negativo, poderá vir a trazer problemas. Torna-se imperativo uma recuperação da indústria nacional. Esta, por sua vez, esbarra em diversos entraves, os quais saem do foco deste texto. O certo é que, com essa pequena participação no comércio internacional, ainda muito dependente de commodities, o Brasil terá dificuldades para superar sua condição periférica em nível global.

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A retomada da importância dos EUA para as exportações do RS

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Edição: Ano 21 nº 09 - 2012

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Os Estados Unidos foram, nos últimos 10 anos, o principal país consumidor das exportações gaúchas. Entre 2003 e junho de 2012, o Rio Grande do Sul exportou, a preços correntes, US$ 16,2 bilhões para os EUA, seguido por China, com US$ 15,6 bilhões, e Argentina, com US$ 13,3 bilhões. Em 2003, os Estados Unidos representavam 22,25% das exportações do RS. Desde então, entre 2003 e 2011, os EUA perderam relevância de forma persistente, devido a alguns fatores que serão explorados no que segue. A retomada do crescimento argentino, pós-crise de 2001, aumentou a participação das exportações para esse país, de 7,57% em 2003 para 13,96% em 2009. A competição chinesa reduziu as exportações gaúchas de calçados para os EUA, então principal destino das exportações da indústria calçadista. Além disso, a China surgiu como um importante destino das exportações de soja gaúcha a partir de 2001, quando a sua participação nasexportações do Estado era de apenas 3,2%. A partir de então, a elevação do volume produzido de soja aumentou a participação chinesa, tornando-se, a partir de 2009, o principal destino das exportações do RS. Por fim, a crise financeira afetou o desempenho econômico dos EUA, reduzindo, a partir de 2009, as exportações gaúchas para esse país. Assim, em 2011, os Estados Unidos representaram somente 7,1% do valor exportado gaúcho, atrás de
China e Argentina.

Já em 2012, as exportações totais do RS caíram, em valor, 8,1%, mas, para os EUA, cresceram 10,8% e alcançaram US$ 712,7 milhões. Com isso, a participação dos EUA, após nove anos em queda, voltou a subir e alcançou 8,37% entre janeiro e junho de 2012, ante 6,95% o mesmo período de 2011. Esse desempenho decorre da leve melhora econômica nos EUA, que aumentou as importações de fumo, armas e químicos produzidos no RS. Com as barreiras protecionistas argentinas e com a quebra desafra da soja prejudicando as exportações para a China, os EUA devem recuperar, pelo menos, neste ano, parte daimportância perdida na última década. Em suma, apesar da recuperação lenta dos Estados Unidos, o crescimento das exportações para esse país deve compensar, ainda que parcialmente, a queda das exportações para a China e para a Argentina.

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O comércio internacional de commodities

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Edição: Ano 21 nº 08 - 2012

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No primeiro decênio do século XXI, é proeminente a valorização dos preços internacionais das commodities. A compreensão desse movimento é importante para a economia brasileira, pois tem impactos na inflação, no câmbio e na balança comercial. Grande parte das análises relaciona esse comportamento ascendente de preços, quase exclusivamente, ao aumento da demanda chinesa por matérias-primas e, portanto, ao aumento no dinamismo do comércio internacional de commodities.

Dessa forma, é pertinente analisar o tão referenciado descompasso entre a demanda e a oferta. Na tabela, são apresentados os diferenciais, em pontos percentuais, entre as taxas de crescimento anuais das exportações mundiais (demanda) e as da produção mundial (oferta) em volume, com base nos dados da OMC.

Os resultados mostram que, de fato, no período 2003-10, houve um crescimento maior das exportações frente ao crescimento da produção em volume. Porém os excessos de crescimento da demanda de 1,71 ponto percentual ao ano para produtos agrícolas e de 1,19 ponto percentual ao ano para combustíveis e minérios não são tão expressivos, quando comparados aos do período 1994-98.

Neste último período, o comércio mundial foi mais dinâmico tanto para produtos agrícolas quanto para combustíveis e minérios. Esse resultado surpreende, pois esse é um período de redução nominal nos preços agregados de commodities.

Outro destaque é o período 1971-79, que apresentou um pequeno excesso de crescimento da demanda em relação à oferta para produtos agrícolas e, inclusive, um crescimento maior da oferta em relação à demanda para combustíveis e minérios. Entretanto esse é um período de aumento considerável nos preços primários

O panorama macroeconômico nos anos 70 compreendeu baixas taxas de juros nos Estados Unidos, desvalorização do dólar, especulação financeira e choques de petróleo. Curiosamente, esse arranjo em muito se assemelha ao do período atual.

A diferença é que, nos anos 70, uma onda inflacionária disseminou-se mundialmente, com forte reajuste de preços manufaturados. No período atual, por outro lado, os baixos custos de produção chineses têm contribuído para minimizar os reajustes nos preços dos manufaturados e arrefecer as pressões inflacionárias mundiais.

Essas constatações sugerem que, a despeito da influência dos elementos de oferta e demanda, há outros que devem entrar na análise dos determinantes de preços das commodities. A valorização do petróleo, a queda do dólar, a política monetária nos Estados Unidos e a especulação financeira também teriam alguma influência no movimento de alta dos preços das commodities verificado nos últimos anos.

A valorização do petróleo guardaria relação com um dólar fraco, uma vez que a desvalorização do dólar significa perdas de receitas de exportações para os países produtores dessa commodity. O reajuste do preço, em um contexto de crescimento econômico mundial, seria uma forma de compensação. A atividade especulativa com o petróleo ampliaria esse movimento.

Além disso, em alguns países, há um processo de “nacionalismo dos recursos naturais”, com impactos fiscais e restrições de acesso às fontes, o que aumenta custos de produção.

O petróleo mais caro, por sua vez, impacta os custos para as demais commodities — principalmente agrícolas —, ao encarecer os transportes, os insumos (fertilizantes) e os custos de oportunidade (substituição da produção agrícola por biocombustíveis).

Já as baixas taxas de juros operadas pelo Fed e a histórica correlação negativa entre commodities e ações tornaram atrativo o investimento em commodities. Há fortes indícios de que a especulação financeira tenha influência nos preços, embora esse tipo de interpretação não seja unânime entre os analistas. Uma evidência é o aumento da volatilidade, e outra é a maior sincronia tanto das commodities entre si quanto entre os índices de ações.

Por fim, os resultados mostram que a análise sobre os ciclos de preços das commodities é mais complexa que somente considerar elementos de oferta e de demanda. A tentativa de qualificar a avaliação dos determinantes desses preços é imprescindível, quando se deseja traçar um horizonte menos incerto para economias periféricas, como o Brasil, tão dependentes dos movimentos de preços das commodities.

O comércio internacional de commodities

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Evolução recente do IDE das empresas gaúchas mais internacionalizadas

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Edição: Ano 20 nº 04 - 2011

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Ao longo dos últimos anos, algumas empresas gaúchas, como a Gerdau, a Marcopolo, a Artecola e a Lupatech, ingressaram no seleto grupo de multinacionais brasileiras. O processo de internacionalização, iniciado através das exportações, foi complementado com a realização de investimentos diretos no exterior (IDE), via aquisição de empresas já existentes, instalação de novas fábricas ou formação de joint ventures. O ano de 2010, no entanto, foi de transição para uma nova geografia dos negócios, haja vista a lenta recuperação da crise de 2008 por parte dos países desenvolvidos e a reconhecida importância de países emergentes, como a China e a Índia, para a nova dinâmica da economia mundial. Do mesmo modo, alguns países da África e da América do Sul, menos atingidos pela crise, continuaram crescendo e tornaram-se temporariamente mais atraentes que os mercados tradicionais dos países desenvolvidos. Além disso, o próprio mercado interno brasileiro, ao continuar aquecido, requer novos investimentos.

Assim sendo, em 2010, a Marcopolo passou por um processo de reestruturação das operações no exterior, fechando as unidades da empresa em Portugal e na Rússia, mas apresentando excelente desempenho na África do Sul e na Índia. A Randon implantou, no Egito, mais uma unidade montadora de semirreboques, em associação com empresários locais, e a Artecola continua investindo na ampliação de suas fábricas na Colômbia, no Peru e no Chile. Por outra parte, a Lupatech optou por desacelerar o ritmo de internacionalização e aguardar sinais consistentes de recuperação, e a Gerdau — que, durante a última década, investiu pesado no exterior —, no seu plano de investimentos para o período 2010-14, preferiu privilegiar o mercado interno, alocando 80% dos recursos nas unidades brasileiras.

Evolução recente do IDE das empresas gaúchas mais internacionalizadas

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Investimentos no exterior de empresas gaúchas selecionadas

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Edição: Ano 18 nº 05 - 2009

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Diversos fatores domésticos e externos influenciam a decisão de investir no exterior, tais como: participação das exportações no faturamento total da empresa, tipo de bem produzido (padronizado ou diferenciado), acesso aos insumos, pressão da concorrência nos mercados interno e externo, problemas de transporte e logística enfrentados na exportação. Além disso, o ambiente econômico nacional constitui um forte incentivo para a diversificação de riscos, já que a economia brasileira se caracteriza por flutuações conjunturais do nível de atividade que afetam as vendas no mercado interno. Do mesmo modo, o ambiente econômico e regulatório dos países receptores dos investimentos influencia a decisão de investir, quando o país-alvo apresenta potencial de crescimento do mercado e estabilidade das regras.

No Brasil, a relação entre o estoque do investimento direto no exterior (IDE) e o PIB ainda é muito baixa, não só quando comparada aos países em desenvolvimento da Ásia, mas também em relação a outros países da América do Sul, como Chile e Argentina. Contudo as mudanças ocorridas na economia do País com a estabilização econômica, a liberalização comercial, os acordos comerciais regionais e a redução do Risco-País, somadas à farta liquidez internacional, facilitaram o acesso ao financiamento externo.Conseqüentemente, surgiram novasoportunidades de negócios e aumentaram os IDEs de empresas brasileiras, incluindo os das gaúchas.

A necessidade de continuar crescendo incentivou os IDEs de empresas gaúchas, como a Gerdau e a Marcopolo, que já haviam conquistado parcela substancial do mercado brasileiro. Outro grupo de empresas investiu no exterior não só através da instalação de novas plantas industriais, mas também por meio da aquisição de plantas já existentes, abrindo escritórios comerciais (Lupatech), instalando centros de P&D, realizando parcerias para a transferência de tecnologia (Agrale, Artecola e Cinex), estabelecendo centros de distribuição e armazenagem (Agrale e Tramontina), ou negociando joint-ventures para a montagem de produtos no país de destino (Marcopolo e Randon).

Uma das principais características dos investimentos no exterior realizados recentemente por empresas gaúchas foi a maior diversificação de setores. A outra foi a expressiva quantidade de investimentos direcionados para a América Latina. Algumas delas concentraram todos seus investimentos nessa região, o que reforça a idéia de que as empresas tendem a dar os primeiros passos em mercados mais próximos em termos geográficos e culturais.

Investimentos no exterior de empresas

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Fertilizantes no Brasil: dependência das importações

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Edição: Ano 17 nº 09 - 2008

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As importações de fertilizantes no Brasil representaram, em 2007, 74% do suprimento desses produtos. O consumo nacional de nitrogênio foi suprido em 75% com importações; o de fósforo, em 51%, e o de potássio, em 92%. De acordo com a Associação Nacional Para Difusão de Adubos (ANDA), entre janeiro e julho de 2008, a quantidade de fertilizantes entregue ao consumidor final cresceu 19,94% em relação a igual período do ano anterior, enquanto a produção nacional de fertilizantes intermediários cresceu 5,07%, e a importação desses mesmos produtos aumentou 12,40%.

Constata-se um aquecimento no consumo mundial de fertilizantes, uma vez que países como China e Índia elevaram a demanda por razões de segurança alimentar, e os EUA têm necessidade de produzir mais grãos para fins alimentares, competindo com a produção de etanol com base no milho. No Brasil, o aumento na produção de grãos, cereais e fibras e também a produção de etanol, através da cana-de-açúcar, contribuem para que o consumo seja crescente.

Dessa forma, a dependência do Brasil das importações de fertilizantes, face à insuficiência da oferta mundial desses produtos em um mercado de commodities aquecido, reflete-se no movimento de alta nos preços dos mesmos. Assim, no País, enquanto o Índice de Preços por Atacado (FGV-IPA-10) aumentou 19,82% entre janeiro de 2007 e julho de 2008, o IPA Fertilizantes (FGV-IPA-OG-Fertilizantes) apresentou expressivo crescimento de 150,92%. Essa tendência gera preocupação nos produtores, com a elevação dos custos de produção e a possível diminuição da rentabilidade, e no Governo, pela necessidade de propor novas políticas públicas, aliadas a estratégias privadas, que venham a amenizar, no médio prazo, tamanha dependência e aprimorar o funcionamento desse mercado.

Fertilizantes no Brasil dependência das importações

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A rápida queda do saldo da balança comercial brasileira

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Edição: Ano 17 nº 06 - 2008

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Do lançamento do Plano Real a 2001, o desempenho da balança comercial brasileira foi precário. Por isso, mantiveram-se excessivos os déficits em transações correntes e as necessidades de financiamentos externos da economia. Como conseqüência, o País experimentou instabilidade e crises cambiais repetidas, o que foi decisivo para manter baixa a taxa média de crescimento da economia. A partir do segundo semestre de 2001, as exportações passaram a crescer mais rapidamente do que as importações. A balança comercial galgou superávits elevados e crescentes; a conta de transações correntes passou a ser superavitária. Dissipou-se o obstáculo externo para acelerar o crescimento. A melhora das contas externas, ao lado da vultosa entrada de capitais externos (em grande parte, atraídos pelas altas taxas de juros), causou uma tendência de valorização cambial, que, cada vez mais, tem estimulado as importações e onerado as exportações. A partir de 2006, o crescimento das importações acelerou-se mais e mais (ver tabela) e suplantou larga e persistentemente o das exportações. O saldo comercial tem caído com velocidade crescente. Em 2007, caiu 13,8% frente a 2006. A soma dos 12 meses encerrados em maio último apresentou queda de 32,4% frente a igual período anterior. Esses fatos levantam a pergunta: o câmbio flutuante induzirá um equilíbrio das contas externas propício ao crescimento, ou se está assistindo ao prenúncio de problemas já experimentados no passado?

A rápida queda do saldo da balança comercial brasileira

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O significado da conquista do grau de investimento

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Edição: Ano 17 nº 06 - 2008

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No dia 30 de abril de 2008, o Brasil recebeu a certificação de grau de investimento pela agência de classificação de risco Standard & Poor´s (S&P), que atualizou o grau do País de BB+ para BBB-, com perspectiva estável, significando que o País é opção segura em termos de risco de crédito. Outras agências, especialmente a Mood´s e Fitch, ainda classificam o Brasil como grau especulativo, mas considera-se que é apenas questão de tempo seguirem a S&P, já que as classificações são fortemente correlacionadas. O anúncio surpreendeu o mercado, que dava como certa a certificação, mas somente para 2009, em razão da turbulência nos mercados financeiros internacionais de 2007/08. Tão logo se deu o anúncio, os mercados reagiram, a taxa de câmbio vem caindo, enquanto o Ibovespa bate seguidos recordes.

O relatório da S&P destacou a maturidade institucional do Brasil, evidenciada pela melhora fiscal, pela redução da dívida externa e pelo crescimento. Foram considerados pontos fortes da perspectiva do País a manutenção do regime de câmbio flutuante e do regime de metas de inflação. O relatório também destacou a independência na prática operacional do Banco Central. Já os pontos fracos estão associados à elevada relação dívida líquida/PIB do Governo — muito acima da dos países com a mesma classificação do Brasil —, ao crescimento acelerado dos gastos públicos correntes e às barreiras estruturais ao investimento, na forma de altas taxas de juros e de pouca participação do setor privado nos investimentos em infra-estrutura. Não há um otimismo quanto à aprovação de reformas estruturais, porém a evolução de um conjunto de medidas de menor impacto tem sido considerada satisfatória

Quanto à taxa de juros, os efeitos dar-se-ão mais no médio prazo, pois, no curto prazo, a sua trajetória ainda refletirá a política monetária apertada. Assim, a curva de juros deve ficar menos inclinada diante do menor prêmio de risco embutido nos prazos mais longos, fazendo com que, ao longo do tempo, as taxas de juros de curto prazo comecem a cair. Isso já está impactando os mercados de financiamento de prazo mais longo. Financiamentos habitacionais e financiamentos de prazos longuíssimos para bens duráveis, que focam especialmente as taxas de longo prazo, já vislumbravam uma curva de juros com taxas longas em queda coexistindo com taxas curtas ainda extremamente elevadas, tornando bastante rentáveis essas operações. Isso garante uma boa perspectiva, em especial para os mercados imobiliário e de automóveis.

A curva de juros menos inclinada terá também efeitos na taxa de câmbio. Com a perspectiva de alta nos fluxos financeiros e nos investimentos diretos, com os preços das commodities exportadas pelo Brasil em alta e a fraqueza global do dólar, não será surpresa se a taxa de câmbio cair abaixo de R$ 1,50 nos próximos meses, com a tolerância do Banco Central, que não hesitará em utilizar esse instrumento para enfrentar uma inflação que se mostra crescente.

A evidência relativa aos países que receberam o grau de investimento nos últimos anos mostra que os mercados antecipam a certificação, de tal maneira que os preços dos ativos domésticos começam a subir em torno de um ano antes do anúncio. Em alguns casos, os ativos esgotam sua valorização antes mesmo do anúncio, como no caso do México. A antecipação, porém, não tem como ser plena, pelas restrições estatutárias de aplicações em países não certificados e pelo grau de investimento por parte de vários fundos estrangeiros. Esses fluxos é que devem fazer diferença, ainda que, para virem, tenham que esperar por certificações adicionais.

O significado da conquista do grau de investimento

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