Transformações setoriais e concentração regional

Nas últimas décadas, foi possível constatar a diminuição da participação do emprego industrial no total do emprego, especialmente em países industrializados, em parte devido a inovações tecnológicas incorporadas nos processos produtivos e mudanças na divisão internacional do trabalho. Tomando a situação no Rio Grande do Sul (tabela), pode-se verificar a queda da participação do emprego industrial entre 2000 e 2010. No período, o Valor Adicionado Bruto (VAB) industrial também perdeu participação no VAB estadual (25,7% para 24,3%), indicando que a queda no emprego industrial se deve mais ao declínio relativo do setor que a ganhos de produtividade deste. Paralelamente, cresceu o setor serviços, que engloba atividades diversas e gera análises contraditórias. Alguns apontam a precariedade dos empregos e a fragilidade das relações trabalhistas no setor, enquanto outros veem com otimismo um cenário em que os serviços, e não mais a indústria, dinamizam a atividade econômica.

Para avançar nessas questões, deve-se abordar os serviços na sua heterogeneidade. Uma forma usual na literatura para separar os diferentes serviços consiste em quatro grupos: produtivos, distributivos, sociais e pessoais. O foco deste texto é nos serviços produtivos, os quais são demandados majoritariamente pelas indústrias, para realizar ou viabilizar seu processo produtivo. O Censo de 2010 aponta que, no Rio Grande do Sul, os serviços produtivos têm taxa de formalização maior que os demais serviços (62% contra 48%), assim como maior rendimento médio (R$ 1.682,00 e R$ 1.177,00 respectivamente). Isso indica o perfil diferente nas condições de emprego dos serviços produtivos em relação aos baixos salários e à informalidade, característicos do Setor Terciário.

Outra questão a tratar é relativa aos impactos regionais da concentração setorial do emprego. Tradicionalmente, a indústria tende a concentrar-se espacialmente, e assim foi durante quase todo século XX no Estado. Entretanto, devido à escassez e ao encarecimento do espaço urbano na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), especialmente na Capital, e a mudanças na estrutura produtiva do Rio Grande do Sul, a indústria vem-se expandindo para cidades menores e regiões antes menos industrializadas. Tanto em 2000 quanto em 2010, excluídos os municípios com menos de 10.000 habitantes, o emprego industrial já apresenta participação similar em municípios de diferentes tamanhos, com exceção de Porto Alegre, onde o emprego industrial responde por 6,4% do total em 2010, muito abaixo dos outros estratos.

Quando se olha para o emprego em serviços produtivos, porém, vê-se uma concentração notável nas cidades de maior porte. A participação no emprego é maior quanto maior for a população dos municípios, com um grande salto em Porto Alegre. Isso indica ainda haver uma dinâmica concentradora, e que a queda do emprego industrial da Capital não representa uma perda de centralidade, e sim uma mudança em sua natureza, agora baseada, ao menos em parte, nesses serviços produtivos.

Se o emprego industrial se espraia para municípios menores, as atividades administrativas, financeiras e de maior conteúdo tecnológico — representadas, em grande parte, nos serviços produtivos — seguem concentradas na Capital e nas outras cidades mais populosas. Por outro lado, ainda que concentrados, os empregos em serviços produtivos ganham participação em municípios de todos os portes, indicando expansão generalizada do setor.

Deve-se ter em mente que esses serviços se fortalecem onde há uma base industrial: se o emprego industrial se torna menos importante, não se pode concluir diretamente que a indústria também se torna, pois é o sucesso desta que permite a expansão dos serviços produtivos, ao menos como ponto de partida. Por outro lado, o desenvolvimento destes, além de gerar empregos de maior remuneração, é central também para fortalecer a indústria, uma vez que, dos serviços produtivos, vêm os principais ganhos de produtividade e as novas tecnologias. Por fim, mesmo tendo crescido generalizadamente, são atividades de natureza concentradora e típicas de grandes cidades, cuja expansão pode reforçar disparidades regionais. Destaca-se, então, a importância dos principais centros urbanos fora da RMPA para a expansão não concentradora do setor no futuro.

Transformações setoriais e concentração regional

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