Titanic sem Leonardo Di Caprio

Parece claro: o comando financeiro da economia norte-americana está envolvido numa vasta crise, que, ao contrário de ser abrupta (sempre temos a imagem de uma crise bursátil, mas esta não é uma crise da bolsa), vai se prolongar por meses. O seu ritmo é de fortes momentos de febre, contrapostos a momentos de calmaria. E, como a crise vai levar tempo para se dissolver, muitas famílias e empresas ficarão aliviadas. Mas é como num filme de catástrofe: o pior ainda não passou. Vejamos o cenário. Em primeiro lugar, há a necessidade de superar a crise de liquidez e a crise de crédito. Elas paralisaram por extenso todo o sistema financeiro, culminando na desconfiança generalizada de todos contra todos, expressa no interbancário e na entrada em campo do Fed, funcionando como o emprestador em última instância. Foi nessa função que o Banco Central baixou em 50 pontos a sua taxa básica e a própria taxa de redesconto. As finanças armaram a confusão, com uma inflação de títulos, e ganharam; ganharam, no mínimo, tempo.

Porém não se tem clareza do que vai acontecer nesses “caóticos tempos financeiros”, como disse Robert Lucas. Por quê? A razão fundamental é a forma como é construído todo o sistema. Sendo de natureza especulativa, a operação financeira esconde um logro (no sentido de engano e de sucesso) que impede que haja transparência para a supervisão do Banco Central. E podemos perceber nitidamente que o Fed não tem controle sobre muitas partes do mercado. Porque este, por sua vez, desenvolveu inúmeros produtos, amparados pela securitização, que é juntar títulos para fazer um novo título (quem sabe em que composições estão os títulos “podres”?). E, para ajudar os negócios, as agências de ratings (pagas pelas instituições que lançam ativos que elas avaliam) falharam de novo, escandalosamente, como em 2001.

Mas essa crise mostra um lado diferente. Embora tenha partido da “bolha” imobiliária, envolveu todos os mercados financeiros. O Fed tenta dar liquidez ao sistema e, ao mesmo tempo, isolar, se possível, ou até minimizar, se puder, a questão da crise das moradias. Só que existe algo mais no “Reino da Dinamarca”. Houve, no processo produtivo, uma excessiva oferta de casas. Assim, além das hipotecas e da repactuação de antigas dívidas, o que emergiu no “desenrolar” da carruagem foi uma superacumulação de capital na economia, que produziu a quebra da construção civil, a falência de imobiliárias e ações judiciais contra consumidores inadimplentes. Mas a ação do Fed não deve conter a volúpia financeira, pois, de agora até dezembro de 2008, existem ainda inúmeras hipotecas que serão vencidas e que têm taxa de juros variável — e variável para cima.

Sintetizando, temos uma crise financeira que é inicial, tanto mais que não são apenas as hipotecas de casas que entraram na securitização; contam-se também títulos sobre automóveis, sobre outros bens duráveis e sobre cartões de créditos, sem considerar o capítulo dos commercial papers, que reforçará a crise produtiva, onde o emprego começa a cair, a renda vai descer e o consumo desabará. Tinha e tem medo da recessão o Fed, porque precisa salvar as finanças e não derrubar a produção, tanto a norte-americana como, por extensão, a mundial. Só que a crise dos Estados Unidos, via a globalização dos ativos, já repercutiu, financeiramente, na Alemanha, na França, na Inglaterra, etc. E, em seguida, vai conectar-se com a produção da China e de todo o mundo, embora a enfermidade esteja concentrada na terra de Tio Sam. A correia de transmissão será a queda do dólar e a recessão. O modelo liberal que se distribui por todo o planeta não está mais dando certo. O Titanic bateu. O que será necessário depois do socorro do Fed? Política monetária mais política fiscal; mas o decisivo começa a partir da eleição norte-americana do ano que vem. E, para o Brasil, uma palavra: a ação do Fed foi boa; defasou a crise, e, com o mercado interno em alta, o ano está salvo. Mas 2008, sim, será un altro giorno!

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