Sustentabilidade e inovação na indústria automobilística

No atual debate sobre aquecimento global e mudança climática, o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC, 2014) estima que, para estabilizar a temperatura do planeta em aproximadamente 2ºC acima dos níveis pré-industriais, as emissões antropogênicas de gases do efeito estufa (GEE) precisam ser reduzidas entre 40% e 70% até 2050, em relação aos níveis de 2010, e zeradas até 2100. Nessa discussão, os transportes são vistos como um dos principais responsáveis pela emissão de GEE, com 14% do total de 2010, dos quais 72% se devem ao modal rodoviário (IPCC, 2014). Assim, os padrões aceitáveis para as emissões de GEE por autoveículos nas legislações ambientais vêm tornando-se cada vez mais restritivos. Para o IPCC, a principal estratégia para mitigar o problema nos transportes consiste no desenvolvimento de tecnologias menos poluidoras.
Esses requisitos ambientais e legais vêm exigindo medidas de adaptação da indústria automobilística. Uma maneira de ilustrar o esforço tecnológico empreendido nessa direção está nos dispêndios em pesquisa e desenvolvimento (P&D) da indústria automobilística em alguns países: Alemanha, Japão, Estados Unidos e Coreia do Sul. Essa escolha deve-se ao fato de as atividades de P&D tenderem a se concentrar nos países sedes das montadoras, além de que as das nações selecionadas responderam por 66,3% da produção mundial de autoveículos em 2013 (OICA, 2014). Como mostra o gráfico, os dispêndios em P&D do setor automotivo nos países selecionados exibem recuperação após o auge da crise financeira, em 2009. De fato, com exceção dos Estados Unidos, os gastos em P&D, em 2012, mostram-se superiores aos do período pré-crise. Esses dados revelam uma intensificação no esforço tecnológico da indústria automobilística, no período recente, cuja maior parcela se direciona para o desenvolvimento de inovações que diminuam as emissões de GEE pelos autoveículos.
No âmbito das tecnologias que atenuam o problema, os esforços abarcam os diversos sistemas que compõem os autoveículos: reduções de peso, pela adoção de novas ligas metálicas e novos materiais; criação de designs com menores coeficientes de arrasto aerodinâmico; automatização de autoveículos, com interação com o tráfego na via, para diminuir os engarrafamentos e reduzir o consumo de combustível; refinamentos na eficiência dos motores de combustão interna; e uso de combustíveis alternativos: biodiesel, bioetanol, gás natural comprimido, hidrocarbonetos e hidrogênio. Ademais, estão sendo introduzidos, no mercado, sistemas de propulsão híbridos que reduzem ainda mais as emissões de GEE.
No entanto, a principal solução para o problema ambiental dos autoveículos consiste no desenvolvimento do sistema de propulsão de “emissão zero”. Atualmente, a indústria automobilística passa por um período de busca e experimentação de novas tecnologias — sistemas elétricos com bateria ou com célula de combustível —, sem que haja ainda uma clara afirmação de qual será a dominante. Os aspectos limitantes à adoção dessas tecnologias pelos consumidores referem-se ao custo desses autoveículos, à capacidade das baterias (elétrico) e à infraestrutura para o reabastecimento.
Observe-se que essas tecnologias apresentam caráter radical, capaz de alterar o paradigma tecnológico do setor, pois mudam o sistema de propulsão e o design dos autoveículos. Na hipótese de uma delas ser aceita pelo mercado, isto possuiria o potencial para rejuvenescê-lo e proporcionaria crescimento econômico para os países produtores de autoveículos. Alinhados a essa perspectiva, Alemanha, Japão e Coreia do Sul vêm aplicando políticas industriais para apoiar esses desenvolvimentos tecnológicos, através de fomento à P&D, subsídio ao consumo desses tipos de veículos, incentivos fiscais, linhas de crédito diferenciadas e investimento público e estímulo aos gastos privados na implantação da infraestrutura de reabastecimento. No Brasil, a política do Inovar-Auto pode ter um papel relevante na inserção do País na produção de autoveículos de “emissão zero”, a partir da afirmação de uma das novas tecnologias, através dos requisitos de produção local, de eficiência energética e de gastos em tecnologia pelas montadoras.
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