Sinal amarelo nos fluxos e nas rendas de IDE

O resultado líquido da conta que leva em consideração tanto as entradas de investimento direto estrangeiro (IDE) quanto as saídas de investimento direto brasileiro em direção ao Exterior foi 27,41% inferior nos primeiros 10 meses de 2004, em comparação ao mesmo período de 2003, atingindo US$ 4,75 bilhões. Embora os fluxos brutos de entrada e de saída de investimento direto sejam bastante superiores àqueles verificados no mesmo período de 2003, deve-se ter em mente que esses movimentos se encontram distorcidos pela natureza da operação envolvendo a troca de ações entre a empresa brasileira Ambev e a belga Interbrew, que resultou em fluxos de entrada e de saída de IDE superiores a US$ 5 bilhões no mês de agosto de 2004, quando da consolidação da criação da InBev. Mais uma vez, as aquisições de empresas mostram a importância de não se interpretarem diretamente as entradas de IDE como ampliação da formação de capital.

As despesas com rendas envolvendo o IDE revelam uma aceleração superior a 35% nas remessas líquidas de lucros e de dividendos nos primeiros 10 meses de 2004, quando comparadas às do mesmo período de 2003, atingindo US$ 5,47 bilhões. Esse maior pagamento de rendas de IDE relaciona-se ao melhor desempenho da economia brasileira neste ano, sendo também estimulado pela valorização do real frente ao dólar, o que leva ao crescimento dos lucros, em dólares, das empresas instaladas no País.

A valorização cambial tende também a afetar o saldo comercial das empresas multinacionais, cujo direcionamento comercial é bastante sensível à taxa de câmbio real, uma vez que muitas corporações contam com filiais em países que apresentam menores custos de produção. Recentemente, o IDE entrante no País tem se direcionado em maior volume para setores primário-exportadores, o que pode reduzir essa sensibilidade a médio prazo.

Uma análise realizada pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI) mostra um avanço na propensão a exportar das empresas multinacionais instaladas no País, entre 2000 e 2003, para o qual foi decisiva a desvalorização cambial ocorrida em 2002. Segundo o estudo, cerca de 17,4% da produção das filiais brasileiras de empresas multinacionais destinaram-se ao mercado externo em 2003, proporção ainda inferior aos 25% registrados pelas grandes empresas de capital nacional.

O saldo líquido dos fluxos e das rendas envolvendo o IDE mostrou-se negativo em US$ 720 milhões entre janeiro e outubro de 2004, revertendo sucessivos resultados nos quais os fluxos líquidos de IDE eram mais do que suficientes para compensar as despesas com as remessas de lucros relacionadas. Acende assim o sinal amarelo quanto à possibilidade de uma contribuição mais efetiva do IDE para a atração de divisas que venham a reforçar as combalidas reservas brasileiras. Em um ambiente no qual turbulências monetárias externas exacerbam a incerteza quanto ao futuro, o Brasil não aproveitou a calmaria do ano de 2004 para aumentar suas reservas, embora o endividamento externo tenha se reduzido,
devido ao pagamento de títulos e obrigações por parte das empresas brasileiras.

Sinal amarelo nos fluxos e nas rendas de IDE

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