Rumo à recessão global

A crise das finanças desreguladas vem trazendo uma enorme dose de preocupação ao mundo: qual a profundidade de seus efeitos sobre a “economia real” e qual a possível extensão geográfica do contágio produzido pelo derretimento do sistema financeiro dos EUA?

O sistema financeiro global encolhe. O crédito ao consumidor e o acesso aos mercados de capitais tornam-se mais difíceis. A incerteza contamina a confiança dos consumidores e das empresas. O crescimento diminui. Esses efeitos, embora em escala limitada frente ao potencial arrasador do desastre, já estão acontecendo nos países desenvolvidos.

Nos EUA, a procura pelo seguro-desemprego atingiu 440.000 pedidos na segunda semana de setembro, frente a 320.000 há um ano atrás. Na Europa, bancos de diversas nacionalidades apresentaram perdas expressivas, ao comprarem o “lixo tóxico” espalhado pelos bancos de investimento dos EUA, totalizando US$ 228,9 bilhões até 15.09.08, estando 75% do total concentrados em 13 bancos, o que dá conta da amplitude mundial da débâcle financeira. O PIB do segundo trimestre, conforme dados do Banco Central europeu, mostrou uma retração de 0,2% frente ao trimestre anterior, o que não ocorria desde o início dos anos 90. Diversos países apresentaram desempenho negativo na mesma comparação: Alemanha (-0,5%), França (-0,3%) e Itália (-0,3%). Na Inglaterra, o Bank of England estima que dois milhões de pessoas correm risco de estar desempregadas até o Natal, enquanto o Ministro das Finanças, Alistair Darling, afirmou, no finalde agosto, que a economia do País enfrenta seu momento mais difícil em 60 anos. No Japão, o PIB caiu 0,6% no segundo trimestre. A redução da demanda externa aparece entre os fatores que golpearam o crescimento do País

E o Brasil? Uma das questões-chave está nos preços das commodities, fortemente influenciados pela instabilidade do dólar e pela demanda chinesa, que deve manter-se elevada. O Banco Central vem elevando os juros aceleradamente, buscando evitar que o desequilíbrio externo, aparente no déficit corrente superior a US$ 30 bilhões em 2008, se torne insustentável em 2009. O financiamento externo das empresas brasileiras também irá reduzir-se devido à crise global, enquanto o risco de fuga de capitais aumenta. Isso implica desaquecimento da economia, tanto maior quanto menos favoravelmente esses indicadores evoluírem para o País.

Embora os desempenhos de China e Índia devam sofrer apenas leve desaceleração em 2009, é impossível deixar-se de notar que a recessão global é quase uma certeza, dada a virulência e a profundidade da crise financeira. A idéia de que um desastre das proporções daquele que se abateu sobre o centro da globalização financeira (Wall Street e seus finados bancos de investimento) possa ter seus efeitos sobre o crescimento econômico facilmente controlado é tão ilusória quanto aquela que dizia ser essa uma “crise da parte subprime do sistema imobiliário norte-americano” em agosto de 2007. Pensar assim, embora possa ser reconfortante, é errar uma vez mais.

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