RS: o declínio na “vocação exportadora”

A “vocação exportadora” do RS vem sendo gradativamente abalada. Tomem-se os últimos 20 anos: dividindo esse período em quatro subperíodos, observa-se que, entre 1992 e 1996, o Estado participou com 12,0% das exportações brasileiras; entre 1997 e 2001, com 10,9%; entre 2002 e 2006, com 9,6%; e, por último, entre 2007 e 2011, com 8,6%. Entre os anos extremos, a diferença é maior: enquanto, em 1992, as vendas externas do RS eram 12,1% das nacionais, em 2011, representaram apenas 7,6%. Dessa forma, embora ainda seja superior a 1 o quociente da relação exportações gaúchas/exportações brasileiras sobre PIB gaúcho/PIB brasileiro, o Estado vem-se tornando “menos exportador” em relação ao Brasil. Por que isso?

Porque, embora haja problemas de competitividade externa comuns ao RS e às demais unidades da Federação — como carência de infraestrutura adequada, juros altos, impostos comparativamente mais elevados frente aos de outros países emergentes, custo da energia também relativamente alto e, mais recentemente, câmbio valorizado —, a maior parte da produção gaúcha voltada ao exterior apresenta algumas peculiaridades que, por um lado, explicam o que vem acontecendo e, por outro, não dão esperança quanto à reversão desse quadro. Abaixo estão descritas três dessas diferenças. As duas primeiras referem-se a situações já consolidadas, e a terceira está em processo de definição.

Uma primeira diferença refere-se ao fato de que, devido ao esgotamento de sua fronteira agrícola, o Estado ficou em desvantagem frente a outras regiões do País onde ainda existem terras inexploradas comercialmente. Por exemplo, na região dos Cerrados conhecida como Matopiba — que engloba áreas dos Estados do Maranhão, de Tocantins, do Piauí e da Bahia —, a produção de soja vem crescendo de forma acelerada. Já no RS, o crescimento da produção está restrito ao aumento de produtividade e/ou à substituição de culturas. No caso da substituição, isso pode causar problemas. A elevação do preço da soja no mercado internacional costuma ocasionar um aumento da área cultivada dessa oleaginosa, em parte sobre terras antes plantadas com o milho. Em consequência, a escassez relativa de milho, do qual o Estado é um importador líquido, reduz a rentabilidade da produção das carnes de frango e suína, produtos estes relevantes na pauta exportadora gaúcha, principalmente o primeiro. De uma maneira geral, no caso dos produtos de origem agropecuária, o recomendado é agregar valor, mas, como isso pode significar redução ou não criação de empregos nos países importadores, essa alternativa normalmente se mostra, na prática, inviável.

Outra diferença refere-se aos produtos intensivos em trabalho, onde, proporcionalmente, o RS sofreu mais que o Brasil com a concorrência internacional de países que possuem mão de obra mais barata. Isso aconteceu devido à (antiga) elevada participação das exportações de calçados no total das vendas externas do Estado. Considerando-se apenas os valores nominais (em US$), o total das exportações gaúchas de “calçados e suas partes” caiu 26,9% entre 1992-96 e 2007-11. Como proporção do total exportado pelo Estado, a queda foi de 26,4% para 5,9% entre os dois subperíodos considerados. A tentativa de agregar valor ao calçado gaúcho, ainda que seja a melhor forma de reaver a competitividade, agora em outro nicho de mercado, dificilmente compensará, nas exportações estaduais, o peso outrora representado pelos calçados de baixo preço.

Uma terceira diferença diz respeito ao advento do Mercosul e à proximidade geográfica do Estado com a República Argentina, de longe o mais importante parceiro comercial desse bloco. Num primeiro momento, esse acordo comercial foi favorável ao RS. Nos anos 90, cresceu bastante a participação argentina nas exportações gaúchas, houve uma queda na virada para o século XXI — em função da crise econômica no país vizinho —, mas, após 2003, essa participação voltou a aumentar. Na maioria desses 20 anos, a representatividade do mercado argentino nas exportações foi maior para o RS do que para o Brasil. E essa dependência relativamente maior trouxe mais prejuízos ao Estado, quando, nos últimos anos, o país vizinho passou a desenvolver, e manter, uma política de defesa comercial, visando à internalização de parte da produção antes importada. Dentre outros, um setor afetado por essa política no RS foi o de máquinas agrícolas, segmento que tenta compensar as perdas redirecionando parte de sua produção para outros mercados, na América Latina e na África por exemplo. Mas esse é um processo ainda incipiente, aberto em relação ao seu resultado líquido.

Pelas razões expostas acima, a “vocação” do Estado, nos últimos anos, parece voltar-se ao mercado doméstico. Este, apesar do recuo momentâneo, ainda está em crescimento, é razoavelmente grande e, quando necessário, bem protegido.

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