Recuperação é lenta, mas ganha consistência

Nos dois últimos anos, o desempenho da economia brasileira foi bastante frustrante. Após uma expansão do PIB de 7,5% em 2010, a taxa de crescimento desacelerou-se para 2,7% em 2011 e para 0,9% em 2012. Esses resultados, porém, não refletem exatamente a dinâmica observada ao longo de cada ano, discrepância que resulta do carregamento estatístico associado ao cálculo da variação do PIB pela média anual. Ao se analisar a variação ponta a ponta do PIB (nível de produção alcançado no último trimestre do ano em relação ao último trimestre do ano anterior), observa-se um quadro diferente. Nessa comparação, o PIB já estava em desaceleração em 2010, com crescimento de 5,4%, seguiu desacelerando-se em 2011, para 1,4%, e repetiu o resultado de 1,4% em 2012.

É equivocada, portanto, a interpretação de que, no ano passado, houve um aprofundamento da desaceleração do nível de atividade. Em 2011, a economia cresceu no primeiro semestre e estagnou-se em seguida. Parte dessa desaceleração foi induzida pela adoção de políticas fiscais e monetárias contracionistas (com destaque para as medidas macroprudenciais e de contração fiscal), que tinham por objetivo reduzir as pressões inflacionárias observadas no início daquele ano. A essas medidas, somou-se o agravamento do cenário internacional. A profundidade da desaceleração daí decorrente induziu à reversão das políticas adotadas já a partir do segundo semestre de 2011. Porém, a resposta da economia foi lenta. Ao longo de 2012, observou-se uma estagnação no primeiro semestre, seguida de uma tímida recuperação no segundo semestre (ver gráfico).

Nesse sentido, cabe questionar por que as medidas expansionistas, tão exitosas na dissolução da crise de 2009, tiveram um efeito reduzido no ano passado.

A mudança no cenário internacional é uma das causas. Enquanto, em 2010, a economia mundial mostrava alguma recuperação em relação ao “fundo do poço” de 2009, em 2011 e no ano passado prevaleceram dúvidas sobre a capacidade de recuperação dos países desenvolvidos e volatilidades derivadas das dificuldades dos países da periferia do euro e das incertezas a respeito da política fiscal americana. Nesse contexto, a taxa de crescimento do volume das exportações de bens e serviços caiu de 13,5% em 2010 para 3,6% em 2011 e para 2,0% em 2012 (sempre na comparação ponta a ponta).

As incertezas do cenário internacional também afetaram, em alguma medida, os investimentos. A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) reduziu-se em 4,4%, após ter crescido 2,0% em 2011 e 11,0% em 2010 (ponta a ponta). Há evidências de que a expansão dos investimentos em 2010, combinada com a redução do ritmo de crescimento da demanda no período subsequente, gerou um excesso de capacidade que ainda não foi completamente absorvido. As dificuldades de retomada do investimento público ao longo do ano passado também contribuíram, ainda que em menor grau, para essa redução.

O crescimento de 3,8% do consumo privado em 2012, por outro lado, embora represente uma recuperação em relação à expansão de 2,0% em 2011, ainda é inferior ao crescimento de 7,2% observado em 2010 e da média de 5,0% observada nos anos anteriores (2004-09). O arrefecimento no ritmo de crescimento do consumo, apesar das várias medidas de estímulo, reflete tanto o maior comprometimento da renda das famílias com o serviço da dívida (média de 22,5% em 2012, contra 21,2% em 2011 e 19,3% em 2010), quanto algum esgotamento do ciclo de consumo de bens duráveis.

Apesar da queda da FBCF, a expansão do consumo agregado (3,5% em 2012, contra 1,6% em 2011) permitiu um crescimento modesto de 2,2% da demanda doméstica em 2012. Essa expansão, porém, não foi suficiente para induzir um crescimento proporcional da produção. Tendo em vista que o crescimento das importações no período foi nulo, o descompasso entre produção e demanda aponta para a redução de estoques no período. Esse fenômeno é corroborado pelos indicadores de faturamento da indústria, que registram crescimento superior ao da produção. Por fim, também houve, no ano passado, alguma redução de oferta devido à estiagem que atingiu parte das Regiões Sul e Nordeste do País.

O que mostram os indicadores dos primeiros meses de 2013? O ritmo de crescimento do consumo, da produção e do emprego é moderado. As vendas do varejo cresceram apenas 2,9% no primeiro bimestre (contra 8,4% em 2012), enquanto a expansão produção da indústria foi de 1,1% (ante uma queda de 2,7% em 2012). O crescimento de 13,3% da produção de bens de capital no primeiro bimestre é um dado positivo, apesar de muito concentrado na recuperação da produção de equipamentos de transporte. De qualquer forma, a elevação das importações de bens de capital no primeiro trimestre (22,0%) e dos desembolsos do BNDES nos 12 meses encerrados em março (21,8%) reforçam a noção de que está ocorrendo algum crescimento na FBCF. Nesse sentido, o ritmo de recuperação é lento, mas ganha consistência com o crescimento dos investimentos. Os riscos associados à sua consolidação parecem, hoje, menores do que no ano passado.

Recuperação é lenta, mas ganha consistência

Compartilhe