Recrudescimento do protecionismo global: desafios para o Brasil e para o RS

A arena política global apresenta elementos que convergem para a construção de um cenário de retração das relações comerciais. Assim, além da saída do Reino Unido da União Europeia, a eleição do republicano Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos consolidou a emergência de forças políticas conservadoras dentro da própria União Europeia que comungam de uma visão mais protecionista em relação a atual conjuntura do comércio internacional.

Segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), de 2008 a 2015 as economias do G20 introduziram 1.441 medidas de restrições ao comércio. Ao longo desse período, 354 dessas medidas foram removidas. O número de medidas restritivas em vigor até outubro de 2015 somava um total de 1.087. Embora as economias centrais tenham registrado crescimento econômico no ano de 2015, a desaceleração das economias emergentes no mesmo período, provocada principalmente pela persistente redução dos preços interacionais das commodities em um cenário mais desafiador para a economia chinesa, compromete o processo de retomada do crescimento dos fluxos comerciais globais.

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Nos Estados Unidos, o presidente eleito já afirmou que deixará a Parceria Transpacífica (TPP). O acordo, assinado em outubro 2015, envolve 12 países (Austrália, Canadá, Estados Unidos, México, Japão, Vietnã, Peru, Chile, Nova Zelândia, Singapura, Brunei e Malásia), 800 milhões de pessoas e aproximadamente 40% do PIB mundial. O abandono do acordo que vinha sendo estruturado para aumentar a influência dos norte-americanos na Ásia, ampliar mercados e conter o avanço da China aponta para a consolidação de uma postura mais isolacionista por parte dos Estados Unidos. Outro acordo que pode ser revisto, é o NAFTA, acordo de livre comércio envolvendo Estados Unidos, Canadá e México. Assim, levando-se em consideração o peso da economia norte-americana no cenário mundial, por menor que venha a ser o seu grau de isolamento no comércio internacional, esses encadeamentos podem ser significativos.
Na Europa, o resultado do referendo em favor da saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) evidenciou o crescente descontentamento das pessoas em torno dos processos de integração política e econômica. As graves crises políticas e financeiras na Grécia, na Espanha e, em menor medida, na Itália, somadas ao desafio imposto pelo terrorismo e pela crise migratória na Europa, constituem um cenário de difícil articulação para governos mais ao centro do espectro político.

Dentro desse contexto, as eleições presidenciais francesas que acontecerão em 2017 ganham uma nova dinâmica com os eventos já mencionados, Brexit e eleição de Donald Trump. Em entrevista para uma das principais publicações no mundo sobre política internacional, Foreign Affairs, Jean-Marie Le Pen, do partido Frente Nacional, afirmou que “[…] a globalização incontrolável é uma forma de totalitarismo, imposta a todo custo em uma guerra de todos contra todos em benefício de poucos”. Assim como Trump, Le Pen, por muitos alinhada com o pensamento de extrema direita, posiciona-se contrariamente à Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP), entre Estados Unidos e União Europeia. O TTPI enfrenta forte resistência popular em todo o Bloco. Para Le Pen, no que se refere às lições do Brexit, a candidata avalia que “[…] a França foi muito mais poderosa quando agia de forma independente, sendo França, do que sendo uma província da União Europeia”.

Todos esses eventos somam-se, também, ao complicado cenário político italiano. Após a vitória do “não” no referendo sobre reforma constitucional, ocorrido no último dia 4 de dezembro, proposto pelo Primeiro Ministro Matteo Renzi, este renunciou ao cargo em um contexto de inúmeras incertezas nos campos da política e da economia. Da mesma forma que aconteceu nos Estados Unidos, Reino Unido, França e Itália vêm sendo fortemente influenciados pelo sentimento de descrença em relação às soluções propostas pelos processos integracionistas e pela emergência de argumentos em prol de estratégias nacionalistas.

Para o Governo Temer, que vinha sinalizando, pelo menos em seu discurso, o desejo de incrementar as relações comerciais do Brasil por meio de novos acordos comerciais envolvendo, principalmente, Estados Unidos e União Europeia, o cenário internacional mostra-se incerto. Isso se torna mais preocupante, na medida em que, tradicionalmente, esses dois parceiros atuam agressivamente no sentido de promover as exportações e os investimentos de suas empresas e o Brasil encontra-se em uma situação mais vulnerável, tanto do ponto de vista político quanto econômico, o que compromete seu poder de negociação.

Quanto ao Rio Grande do Sul, que apresentou queda do valor acumulado exportado de US$ 1,36 bilhão entre janeiro a outubro de 2016 (dados da FEE), a concretização do cenário protecionista nos Estados Unidos pode comprometer as exportações de manufaturados e semimanufaturados gaúchos no médio e longo prazo. No que tange aos produtos básicos, a desaceleração chinesa afeta negativamente o agronegócio do Estado. Já no que se refere à Argentina, segundo principal parceiro comercial do Rio Grande do Sul, a crise econômica no país vizinho pode ensejar maiores dificuldades para os exportadores gaúchos.

Como citar:

VALDEZ, Robson Coelho Cardoch. Recrudescimento do protecionismo global: desafios para o Brasil e para o RS Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/recrudescimento-do-protecionismo-global-desafios-para-o-brasil-e-para-o-rs/>. Acesso em: 11 de dezembro de 2017.

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