Produção, salário, emprego e produtividade na indústria do RS

A produção da indústria de transformação instalada no Rio Grande do Sul, seguindo a trajetória do que aconteceu com o parque industrial brasileiro, apresentou uma queda de 4,3% em 2014. Essa trajetória de queda manteve-se nos dois primeiros meses do corrente ano, e, até o momento, não existem indicadores que sinalizem uma recuperação em 2015.

A performance do setor industrial brasileiro e, por decorrência, do gaúcho, ao longo do último decênio,  pode ser caracterizada por alguns fatos estilizados. Em primeiro lugar, desde o início da crise econômica em 2008, a indústria de transformação brasileira entrou em um processo de estagnação da produção. Com a queda observada em 2014, o nível da produção dos respectivos parques industriais situou-se abaixo do observado em 2008.  Assim, a atividade industrial do Estado tem, no desempenho nacional, o seu principal determinante. No entanto, por ter uma grande participação das atividades vinculadas ao agronegócio, o desempenho industrial do RS também mantém estreita dependência da agropecuária. Esta última, no entanto, atua no sentido de amenizar ou fortalecer os períodos de queda ou crescimento da produção, mas não no sentido de definir a sua tendência. Assim, enquanto, no período 2003-08, a indústria de transformação brasileira cresceu a uma taxa média anual de 3,7%, a sua correspondente instalada no território gaúcho cresceu apenas 1,4%. Esse diferencial de crescimento pode ser atribuído, em grande parte, ao fraco desempenho da agropecuária no biênio 2004-05. Para o período 2009-14, essa taxa de variação na produção foi negativa, tanto para o caso brasileiro (-0,25% a.a) como para o gaúcho (-0,35% a.a).

Em segundo lugar, verifica-se que a indústria de transformação deixou de ser um importante gerador de empregos diretos. Assim, mesmo durante o período de crescimento da produção (2003-08), o emprego na indústria de transformação brasileira cresceu a uma taxa média anual de 1,1%. No caso do parque industrial gaúcho, verifica-se uma trajetória constante de redução do emprego ao longo de toda a série. Nos últimos três anos, a indústria vem sistematicamente reduzindo o número do pessoal ocupado, tendência essa que deverá acentuar-se em 2015.

Em terceiro, e como decorrência dos dois movimentos descritos acima, verifica-se que a produtividade da indústria de transformação tem-se mantido praticamente estagnada desde 2008. No caso do RS, a exceção foi o ano de 2013, o qual combinou crescimento da produção com redução do emprego. No entanto, já em 2014, a produtividade novamente se manteve estacionada.  Por fim, uma das mais significativas características do cenário industrial foi a trajetória ascendente do salário real, mesmo após o início da crise. Embora o aumento real do salário seja um importante estímulo ao crescimento da demanda agregada, do ponto de vista empresarial, a sua associação com a estagnação da produtividade tem gerado grandes pressões de custos e um estreitamento da margem de lucro. Setores industriais com maior poder de mercado acabam repassando tais pressões aos preços, o que resulta na dificuldade em se reduzirem os patamares inflacionários da economia brasileira.

A similaridade de comportamento do parque industrial gaúcho e do restante do Brasil não é mera coincidência, mas, sim, uma evidência do fato de que as atividades industriais instaladas no território gaúcho constituem-se em segmentos da indústria nacional. A compreensão da sua dinâmica de crescimento, portanto, implica contextualizá-lo nos cenários nacional e internacional. Assim, a recuperação da produção industrial no RS somente irá acontecer com a recuperação do crescimento econômico nacional.

A superação desse quadro adverso para a indústria implica, em primeiro lugar, a retomada da produção, a qual permitiria um retorno do crescimento da produtividade compatível com o crescimento do salário real. No entanto, esse cenário dificilmente irá ocorrer enquanto a economia mundial não voltar a crescer de uma forma mais robusta. Até mesmo a depreciação do real, embora necessária, constitui-se em uma medida insuficiente, uma vez que outras moedas também têm-se desvalorizado em relação ao dólar. Adicionem-se a isso as dificuldades criadas pela forte concorrência dos produtos asiáticos, não apenas em termos da disputa por mercados, mas também como ponto privilegiado de localização industrial.

Do ponto de vista doméstico, as elevadas taxas de juros e a busca por ajustes fiscais, tanto do Governo Federal como dos estaduais, são medidas que dificultarão uma retomada da produção industrial. Com o crescimento do desemprego, não é de se esperar que o consumo das famílias volte a crescer. Os limites ao crescimento não residem, portanto, nas dificuldades de ordem burocrática ou tributária. Essas dificuldades já existiam no período 2003-08 e não impediram o crescimento. Uma redução da carga tributária poderia aumentar a lucratividade do setor no curto prazo, mas dificilmente ocasionaria a retomada da produção industrial.

Em seu conjunto, os fatores descritos acima acabam por reduzir a competitividade industrial brasileira, a qual impede não apenas a sua inserção externa, como também leva a uma perda do mercado interno. Nesse cenário, os governos estaduais, que dependem fortemente da retomada da arrecadação para fazer frente às necessidades de ajuste das contas públicas, veem reduzida a sua capacidade de fazer políticas públicas, ficando à mercê desses determinantes nacionais e internacionais.

artigo7

Compartilhe