Produção, emprego e salário na indústria brasileira e na gaúcha

A crise econômica que teve início em 2008 e que levou a economia mundial a um processo de estagnação ao longo dos últimos seis anos continua a ter impactos negativos sobre a economia brasileira e, em especial, sobre o setor industrial. Uma análise do comportamento da produção e do emprego nos períodos pré e pós-crise basta para perceber a quebra estrutural que ocorreu, no comportamento dessas variáveis, com o início da crise. Por outro lado, a indústria brasileira também tem sido afetada por alguns condicionantes internos, a saber, o baixo nível do desemprego e o elevado patamar inflacionário, os quais acabam influindo diretamente nos salários e nos custos empresariais. Do lado da demanda, a indústria vem sofrendo as consequências da redução do crescimento do consumo das famílias e da forte concorrência internacional.

No período pré-crise (2004-08), a indústria de transformação nacional apresentava uma trajetória de crescimento tanto da produção como do emprego, refletindo-se na folha de pagamento e no salário real por trabalhador. O crescimento deste último não chegava a ser um problema para a indústria, uma vez que ele era acompanhado por ganhos de produtividade (Tabela 1). No entanto, a partir de 2009, tanto a produção como o emprego passaram a apresentar oscilações que, em seu conjunto, têm anulado os ganhos apresentados no período pré-crise. No caso específico do emprego, conforme demonstra a Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a queda acumulada até agosto do corrente ano (2,7%) fez com que o seu nível recuasse ao patamar de 2004. Ou seja, o período pós-crise eliminou os ganhos de emprego que a indústria de transformação havia gerado entre 2004 e 2008, fazendo com que seu patamar tenha voltado ao nível de 10 anos atrás. Movimento semelhante ocorreu com a produção física. Neste último caso, porém, a queda apresentada em 2014 (4,0% até agosto) reduziu o nível da produção a um patamar inferior ao de 2008. Como consequência desses movimentos, a produtividade, que vinha crescendo a uma taxa média anual de 2,6% no período 2003-08, teve uma significativa desaceleração (1,3% a.a.) a partir de 2009, sendo que, no corrente ano, ela tem apresentado queda.

Comportamento diferenciado, no entanto, tem mostrado o montante dispendido pela indústria com a folha de pagamento. Com exceção de 2009, o valor real da mesma vem exibindo uma trajetória ascendente. Tal comportamento é resultado do contínuo crescimento do salário real por trabalhador, o qual não sofreu redução mesmo durante os anos mais críticos da crise. Esse comportamento dos salários reais, associado com a desaceleração do crescimento da produtividade, tem sido um importante elemento de pressão sobre os custos empresariais. Os setores com capacidade de repassar o aumento dos custos têm contribuído para manter a inflação em um patamar elevado. Por outro lado, setores mais expostos à concorrência internacional acabam por ter reduzidas as suas margens de lucro e, consequentemente, a sua disposição para realizar novos investimentos.

No que se refere ao segmento da indústria de transformação instalada no Rio Grande do Sul, sua dinâmica de crescimento reflete o desempenho da média nacional, adicionando-se que, em virtude do elevado peso do agronegócio na composição da produção industrial, o setor fica mais exposto aos períodos de estiagem. Mesmo no período pré-crise econômica mundial, a indústria, no RS, já vinha apresentando um crescimento abaixo do da média nacional. No entanto, como decorrência da elevada queda no emprego naqueles anos, a produtividade cresceu a taxas elevadas (4,0%), acima da taxa de crescimento do salário real (3,6%). Em contraposição, após 2009, a produção e a produtividade passaram a crescer a taxas inferiores à do salário real. Com a performance observada, até agosto de 2014, na produção física (-5,3%), o patamar da produção encontra-se abaixo dos níveis de 2007.

A superação desse quadro desfavorável ao setor industrial deverá, necessariamente, passar por uma retomada do crescimento da produção e, em decorrência disso, da produtividade. A redução do nível do desemprego verificada ao longo dos últimos anos e o crescimento real do salário são conquistas das quais o País não deve abdicar, sob pena de comprometer os avanços na inclusão social e de diminuição da pobreza. Nesse sentido, uma política de gradual desvalorização cambial pode contribuir para aumentar a inserção externa da indústria nacional e estimular o aumento da produção. No entanto, em um quadro de baixo crescimento mundial, a retomada do crescimento passa pelo estímulo ao mercado interno. Assim, a melhora na gestão das obras públicas em parceria com o setor privado, já iniciadas com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), teria por efeito apressar os investimentos e a produção. O Governo poderá, ainda, lançar mão de novas medidas de estímulo ao consumo através de seus programas de transferência. Ao contrário da falsa controvérsia entre crescimento puxado pelo consumo ou pelo investimento, a reativação do primeiro poderia ser um estímulo ao segundo. Por fim, dado o cenário traçado acima, fica difícil uma recuperação industrial, enquanto o País conviver com as taxas de juros reais mais elevadas do Mundo.

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