Petróleo barato: há vencedores e perdedores?

Um fato relevante no mercado internacional é a redução do preço médio do barril de petróleo do tipo Brent para US$ 48,30 no período de jan./15 a jun./16, atingindo a cotação mínima de US$ 30,80 em janeiro de 2016. Antes de assumir uma trajetória de queda, o preço médio do combustível estava em US$ 110,34 no período de jan./11 a jun./14, conforme dados do Banco Mundial.

Diante disso, torna-se pertinente avaliar os impactos do petróleo mais barato em distintas regiões. Uma estratégia de análise poderia consistir em avaliar apenas os aspectos redistributivos entre importadores e exportadores de petróleo.

No entanto, a complexidade da conjuntura mundial exige a utilização conjunta de outras ferramentas de avaliação, especialmente no que tange à interação das variações do preço do petróleo com a política monetária e fiscal em cada país ou região, a fim de determinar se há vencedores e perdedores em termos de crescimento econômico.

A intuição inicial de que os países com importante contribuição das exportações de petróleo na sua economia teriam que aceitar um crescimento negativo, ao passo que os importadores receberiam um estímulo econômico automático, não é uma argumentação válida para todos os países ou regiões. Essa suposição tem base na premissa da existência de canais de transmissão entre os preços de commodities e o desempenho econômico em cada país.

Como exemplo, considerem-se os países da Europa, importante região importadora de petróleo, a qual detém pouco mais de um quarto das importações mundiais do combustível, conforme dados da United States Energy Information Association (EIA) de 2012 (o último disponível). Para esse continente — e de forma análoga para o Japão —, a redução do preço do petróleo significa pressões deflacionárias adicionais nas suas economias altamente endividadas e em armadilha da liquidez.

Isso se torna um incômodo na medida em que esses países se veem diante da adoção de taxas de juros nominais negativas, algo impensável até então, o que adiciona riscos para a estabilidade financeira global. Por outro lado, caso contrário, a política monetária se reverteria em uma política contracionista, haja vista a elevação do juro real diante da deflação, com efeitos deletérios para suas economias já fragilizadas.

Ademais, o sinal do efeito do petróleo mais barato nas economias desenvolvidas é diferente daquele que prevaleceu nos anos 80. Nesse período, a redução do preço do barril de petróleo resultou em um alívio nas pressões inflacionárias e em um dado positivo para as economias que conviviam com a estagflação, que marcou aquele período.

Por sua vez, ao se analisar o grupo dos países exportadores de petróleo, o Canadá — apesar de algumas dificuldades econômicas e possíveis vulnerabilidades no seu mercado imobiliário — é um exemplo da importância das políticas contracíclicas e do papel do gasto público no estímulo ao crescimento econômico. Diante dessas medidas e dos efeitos multiplicadores da política fiscal expansionista, há previsão de crescimento positivo para esse país em 2016.

Vale destacar que o Canadá detém a posição de terceiro maior país exportador de petróleo, superado pela Rússia e pela Arábia Saudita. Os sauditas, por hipótese, podem estar aceitando um patamar mais baixo para o preço do combustível em função da menor dependência dos Estados Unidos em relação ao petróleo importado da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Esse ganho de autonomia ocorre no contexto de desenvolvimento do shale norte-americano e da exploração do petróleo canadense com origem nas areias betuminosas.

Por outro lado, para o caso da China — segundo principal país importador de petróleo até o momento (atrás somente dos Estados Unidos) —, espera-se que os efeitos da queda do preço do barril de petróleo possam resultar em algum estímulo, mesmo que residual, ao seu crescimento, frente ao barateamento do custo da energia e aos ganhos nos seus termos de troca.

No que concerne ao Brasil, os óleos brutos de petróleo ocupam a terceira posição entre os principais produtos exportados, com 4,64% das vendas externas brasileiras no período de janeiro a julho de 2016 (atrás do minério de ferro e seus concentrados, os quais obtiveram a participação de 6,10%, e da soja, com a parcela de 15,31% das exportações totais).

Frente a essa representatividade, a redução do preço do barril de petróleo poderia prejudicar a lucratividade da exploração do Pré-Sal, juntamente com a desvalorização cambial, se considerado o nível de endividamento da Petrobras.

Além disso, a redução do preço do combustível poderia impactar negativamente na quantidade de reservas provadas da Petrobras, ao se adotar tanto o critério da United States Securities and Exchange Commission (SEC), quanto o da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis/Society of Petroleum Engineers (ANP/SPE), os quais levam em consideração apenas as reservas viáveis economicamente conforme o preço do petróleo.

Por outro lado, estudos recentes da Petrobras sinalizam para a viabilidade técnica e econômica do Pré-Sal, mesmo ao se considerar o atual patamar do preço internacional do petróleo. Isso seria viável, tendo-se em vista o desenvolvimento de novas tecnologias pela empresa, reconhecidas pela Offshore Technology Conference (OTC) em 2015.

Em síntese, a resposta ao questionamento que dá título a esta análise não envolve apenas a redistribuição automática de ganhos entre importadores e exportadores de petróleo. Assim, o impacto esperado no desempenho econômico de cada país ou região mostra-se dependente de alguns condicionantes, os quais são influenciados, entre outros, pelas interações com as políticas econômicas implementadas, especialmente na presença de políticas contracíclicas.

Por fim, para além do economicismo e das fronteiras nacionais, preocupações com o desestímulo ao desenvolvimento de fontes de energia menos poluentes e com seus impactos adversos ao meio ambiente não devem ser negligenciadas nessa nova fase de petróleo barato.

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